A Foto do Meu Filho e a Dívida de Um EstranhoEle estendeu a mão com a foto, seus dedos trêmulos contando uma história de dor que as minhas cicatrizes reconheceram.6 min de lectura

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O motociclista em mim queria arrastá-lo para fora do alcatrão e espancá-lo até sangrar pelo que ele tinha feito à minha Harley.

Aquele veterano sem-abrigo, barba até ao peito, olhos fundos como covas, tinha-se aproximado da minha moto junto à tasca e tinha cuspido o maior cuspo que eu já vi no meu depósito cromado.

Eu tinha reconstruído aquela moto para honrar o meu filho. Oito meses de trabalho. O nome do meu filho, Tiago, pintado no depósito de combustível a letras douradas, mesmo ao lado do emblema dos Fuzileiros.

Agarrei o velho pelo colo do casaco, prestes a atirá-lo para o meio do parque de estacionamento.

Foi então que os joelhos lhe cederam.

Ele desabou como um saco de areia, e da sua mão trémula caiu uma fotografia. Desbotada. Dobrada em todos os cantos. Manchada com o que parecia ser sangue seco.

Era o Tiago.

O meu rapaz com o seu uniforme de gala, a exibir aquele sorriso torto que herdou da mãe. A mesma foto que eu guardei na minha carteira durante onze anos, desde que o trouxeram para casa dentro de uma caixa coberta pela bandeira.

Ajoelhei-me ao lado do velho. As minhas mãos tremiam enquanto pegava na fotografia.

“Onde é que arranjaste isto?”, sussurrei. “ONDE É QUE ARRAJASTE ISTO?”

Ele não respondeu. Apenas ficou a olhar para o albatrão e começou a chorar. Os seus ombros largos a abanar em silêncio, as lágrimas a abrir caminho através de anos de sujidade no seu rosto.

A porta da tasca abriu-se. As pessoas juntavam-se. Alguém disse que estava a ligar para o 112.

Eu disse-lhes para se afastarem.

Levantei a cabeça do velho e fi-lo olhar para mim. De perto, consegui ver a tatuagem a espreitar por baixo do seu colarinho. Uma águia, um globo e uma âncora. Um Fuzileiro.

“Conhecias o meu filho?”

Ele acenou com a cabeça.

“Serviste com ele?”

Ele voltou a acenar. Depois, meteu a mão no casaco com dedos trémulos e tirou outra coisa. Um pequeno caderno de couro. As páginas inchadas de tantos anos ao tempo.

Ele entregou-mo.

Eu abri-o.

A primeira página tinha a caligrafia do Tiago. Datada de três dias antes de ele morrer.

O que o meu filho tinha escrito naquele caderno era a última coisa que eu esperava ler.

“Pai, se estás a ler isto, é porque eu não voltei para casa. Peço desculpa. Eu sei que prometi. Por favor, encontra o Sargento Coelho. Não deixes que ele se culpe. Não deixes que ele carregue isto sozinho. Ele já perdeu demasiado.”

Li-o três vezes até as palavras fazerem sentido. Depois li a data outra vez. 14 de novembro. Três dias antes de o Tiago morrer numa patrulha fora de Marjah.

O meu rapaz sabia que não ia voltar.

Olhei para o homem que estava aos meus pés no alcatrão da tasca. O homem que tinha acabado de cuspir na minha moto. O homem que o meu filho me tinha pedido para encontrar há onze anos. O homem que eu tinha andado a tentar encontrar desde o novembro em que trouxeram o meu filho para casa.

“Coelho?”, disse. “Sargento Coelho?”

Ele estremeceu ao ouvir o seu próprio nome. Como se eu lhe tivesse batido.

“Carlos Coelho?”

A sua cabeça baixou. Ranho escorria-lhe pela barba. Ele acenou uma vez.

Eu não sabia o que fazer com as minhas mãos. Não sabia o que fazer com o meu rosto. Onze anos de dor que eu pensava ter enterrado saíram do meu peito como um comboio de carga.

Tive de pousar a mão no albatrão para não cair.

Uma empregada estava na entrada com um telefone na mão. Eu fiz-lhe sinal para se afastar.

“Não ligues para ninguém”, disse. “Traz-lhe um copo de água. Por favor.”

Ela desapareceu lá dentro.

Virei a página do caderno.

A caligrafia ficou mais pequena, mais apertada. O Tiago tinha escrito isto depressa, como se o tempo lhe estivesse a fugir.

“O Sargento é a única razão pela qual ainda estou vivo. Em cada patrulha, cada ordem errada, cada IED que era suposto ter-me apanhado e não apanhou, o Sargento estava lá. Ele é a coisa mais parecida contigo que eu alguma vez encontrei por aqui, pai. Ele tem uma mulher no Tennessee e três filhos e leva a foto deles no capacete. Ele disse-me na semana passada que esta é a sua última missão. Ele está pronto. Vai para casa ensinar futebol no secundário.”

“Ele fala sobre ti, pai. Sempre que ficamos de guarda juntos. Eu falei-lhe da Harley. Disse-lhe como me ensinaste a pilotar quando eu tinha doze anos e a mãe te gritou durante um mês. Disse-lhe da tasca onde me levavas aos sábados. Ele ri-se. Ele é a única coisa por aqui que ri.”

Eu tive de parar de ler.

Onze anos. Onze anos a perguntar-me quem era o meu filho nos seus últimos dias. O que é que ele pensava. Se estava assustado. Se estava sozinho.

Ele não tinha estado sozinho.

Ele tinha tido este homem.

Este homem partido, malcheiroso, sem-abrigo, de joelhos no alcatrão à minha frente.

Virei para a última página.

Havia apenas três frases. Datadas da manhã do dia em que o Tiago morreu.

“O Sargento foi atingido ontem. Ele vai ficar bem, mas está mal. Eu vou fazer a patrulha dele amanhã para ele poder descansar. Se algo acontecer, pai, por favor. Encontra-o. Toma conta dele. Ele salvou-me demasiadas vezes.”

O caderno caiu das minhas mãos.

O Carlos balançava para a frente e para trás, de joelhos. A murmurar qualquer coisa que eu não conseguia perceber.

Inclinei-me para mais perto.

“Devia ter sido eu. Devia ter sido eu. Devia ter sido eu.”

Eu já tinha ouvido aquela voz antes. Eu próprio tinha usado aquela voz, nos meses após terem trazido o Tiago para casa. Três da manhã na garagem, sozinho com uma garrafa, a olhar para a foto dele nos Fuzileiros no banco de trabalho.

Devia ter sido eu.

Eu sabia exatamente o que estava dentro daquele homem. Porque a mesma coisa tinha estado dentro de mim durante onze anos.

Sentei-me no alcatrão ao lado dele. Já não me importava com o cuspe no meu depósito. Já não me importava com os curiosos à janela da tasca. Não me importava com nada exceto o Fuzileiro destroçado que o meu filho tinha amado como a um pai.

“Carlos”, disse. A minha voz saiu rouca. “Carlos. Olha para mim.”

Ele não o fez.

“Carlos. O meu nome é Rui Tavares. Sou o pai do Tiago.”

Os seus ombros começaram a tremer outra vez.

“Carlos, o meu filho deixou-me uma carta há onze anos. Ele pediu-me para te encontrar. Andei à tua procura. Nunca soube o teu nome completo. Os Fuzileiros não me disseram. Disseram que era classificado. Fui até ao Tennessee duas vezes. Sabias disso? Bati a portas em Knoxville e Chattanooga a perguntar se alguém conhecia um Fuzileiro chamado Coelho.”

Ele olhou para mim pela primeira vez.

Os seus olhos eram as coisas mais azuis que eu já vi num homem tão destruído.

“Andaste à minha procura?”

“Durante onze anos.”

“A minha mulher deixou-me”, disse. “Três anos depois de eu voltar. Ela disse que eu não era o homem com quem ela se casou. Eu não era. Ela tinha razão.”

“Onde estão os teus filhos?”

“Cresceram. Não sabem onde eu estou. Não quero que me vejam assim.”

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