O Preço da DívidaAo estender a mão para ajudá-lo, vi nos seus olhos o mesmo vazio que senti no dia em que tudo perdi.7 min de lectura

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O motociclista que há em mim queria arrastá-lo do asfalto e espancá-lo até sangrar pelo que acabara de fazer à minha Harley.

Aquele sem-abrigo veterano, barba até ao peito, olhos fundos como sepulturas, tinha-se aproximado da minha mota em frente à tasca e cuspira com força o maior dos cuspo que alguma vez vira, mesmo no meu depósito cromado.

Eu tinha reconstruído aquela mota para honrar o meu rapaz. Oito meses de trabalho. O nome do meu filho, Rodrigo, pintado no depósito em letras douradas, mesmo ao lado do emblema da Marinha.

Agarrei o velho pela gola do casaco, pronto para o lançar para o meio do parque de estacionamento.

Foi então que os seus joelhos fraquejaram.

Ele caiu como um saco de areia, e da sua mão trémula caiu uma fotografia. Desbotada. Com as pontas todas dobradas. Manchada com o que parecia ser sangue seco.

Era o Rodrigo.

O meu rapaz de uniforme de gala, com aquele seu sorriso torto que herdou da mãe. A mesma fotografia que guardei na minha carteira durante onze anos, desde que o trouxeram para casa dentro de uma caixa coberta com a bandeira.

Caí de joelhos ao lado do velho. As minhas mãos tremiam enquanto recolhia a fotografia.

“Onde foi que arranjaste isto?” – sussurrei. “ONDE FOI QUE ARRAJASTE ISTO?”

Ele não respondia. Apenas olhava para o asfalto e começou a chorar. Grandes ombros em silêncio a sacudirem-se, lágrimas a abrir sulcos nos anos de sujidade do seu rosto.

A porta da tasca abriu-se. As pessoas começavam a juntar-se. Alguém disse que estava a ligar para o 112.

Disse-lhes para recuarem.

Ergui a cabeça do velho e fiz com que me olhasse. De perto, consegui ver a tatuagem a espreitar por baixo da gola. Águia, globo e âncora. Fuzileiro.

“Conhecias o meu filho?”

Ele acenou com a cabeça.

“Serviste com ele?”

Ele voltou a acenar. Depois, enfiou a mão no casaco com dedos trémulos e tirou outra coisa. Um pequeno caderno de couro. As páginas inchadas de anos de intempérie.

Entregou-mo.

Eu abri-o.

A primeira página tinha a caligrafia do Rodrigo. Datada de três dias antes de morrer.

O que o meu filho tinha escrito naquele caderno foi a última coisa que eu esperava ler.

“Pai, se estás a ler isto, é porque eu não cheguei a casa. Peço desculpa. Sei que prometi. Por favor, procura o Furriel Coelho. Não deixes que ele se culpe. Não o deixes carregar isto sozinho. Ele já perdeu demasiado.”

Li-o três vezes até as palavras fazerem sentido. Depois, reli a data. 14 de novembro. Três dias antes de o Rodrigo morrer numa patrulha fora de Marjah.

O meu rapaz sabia que não ia voltar.

Olhei para o homem que estava de joelhos à minha frente no asfalto da tasca. O homem que tinha acabado de cuspir na minha mota. O homem que o meu filho me tinha pedido para encontrar há onze anos. O homem que eu tinha falhado em encontrar desde o novembro em que trouxeram o meu filho para casa.

“Coelho?” – disse eu. “Furriel Coelho?”

Ele estremeceu ao ouvir o seu próprio nome. Como se o tivesse esbofeteado.

“Carlos Coelho?”

A sua cabeça baixou. Ranho escorria-lhe pela barba. Ele acenou uma vez.

Não sabia o que fazer com as minhas mãos. Não sabia o que fazer com o meu rosto. Onze anos de dor que pensei ter enterrado saíram do meu peito como um comboio de mercadorias.

Tive de pousar a mão no asfalto para não cair.

Uma empregada estava à porta com um telefone na mão. Fiz-lhe sinal para não intervir.

“Não chames ninguém” – disse eu. “Traz-lhe um copo de água. Por favor.”

Ela desapareceu lá para dentro.

Virei a página do caderno.

A letra ficou mais pequena, mais apertada. O Rodrigo tinha escrito isto depressa, como se o tempo lhe estivesse a faltar.

“O Furriel é a única razão pela qual ainda estou vivo. Todas as patrulhas, todas as más decisões, todos os IEDs que me deviam ter tirado a vida e não o fizeram, o Furriel esteve lá. É a coisa mais próxima de ti que já encontrei por aqui, Pai. Ele tem uma mulher no Tennessee e três filhos e leva a fotografia deles no capacete. Disse-me na semana passada que esta é a sua última comissão. Ele está pronto. Vai para casa para treinar futebol no liceu.”

“Ele fala sobre ti, Pai. Todas as vezes que estamos de sentinela juntos. Eu contei-lhe sobre a Harley. Contei-lhe como me ensinaste a conduzir quando tinha doze anos e a mãe te ralhou durante um mês. Contei-lhe sobre a tasca aonde me levavas aos sábados. Ele ri-se. É a única coisa por aqui que se ri.”

Tive de parar de ler.

Onze anos. Onze anos a perguntar-me quem era o meu filho nos seus últimos dias. O que é que ele pensava. Se tinha medo. Se estava sozinho.

Ele não estivera sozinho.

Tivera este homem.

Este homem destroçado, malcheiroso, sem-abrigo, de joelhos no asfalto à minha frente.

Virei para a última página.

Havia apenas três frases. Datadas da manhã do dia em que o Rodrigo morreu.

“O Furriel foi atingido ontem. Ele vai sobreviver mas está mal. Vou fazer a patrulha por ele amanhã para ele poder descansar. Se alguma coisa acontecer, Pai, por favor. Encontra-o. Toma conta dele. Ele salvou-me demasiadas vezes.”

O caderno caiu-me das mãos.

O Carlos balançava para a frente e para trás, de joelhos. Murmurando qualquer coisa que eu não conseguia perceber.

Inclinei-me para mais perto.

“Devia ter sido eu. Devia ter sido eu. Devia ter sido eu.”

Eu já ouvira aquela voz antes. Eu próprio usei aquela voz, nos meses após trazerem o Rodrigo para casa. Três da manhã na garagem, sozinho com uma garrafa, a olhar para a fotografia dele com o uniforme dos Fuzileiros na bancada de trabalho.

Devia ter sido eu.

Eu sabia exatamente o que estava dentro daquele homem. Porque a mesma coisa esteve dentro de mim durante onze anos.

Sentei-me no asfalto ao lado dele. Já não me importava com o cuspo no meu depósito. Já não me importava com os curiosos à janela da tasca. Não me importava com nada, exceto com o Fuzileiro destroçado que o meu filho amara como a um pai.

“Carlos” – disse eu. A minha voz saiu rouca. “Carlos. Olha para mim.”

Ele não olhava.

“Carlos. O meu nome é Rui Abreu. Sou o pai do Rodrigo.”

Os ombros dele começaram a tremer novamente.

“Carlos, o meu rapaz deixou-me uma carta há onze anos. Pediu-me para te encontrar. Ando à tua procura. Nunca soube o teu nome completo. Os Fuzileiros não mo quiseram dizer. Disseram que era informação classificada. Fui duas vezes ao Tennessee. Sabias disso? Bati a portas em Knoxville e Chattanooga a perguntar se alguém conhecia um Fuzileiro chamado Coelho.”

Ele olhou para mim pela primeira vez.

Os seus olhos eram as coisas mais azuis que eu já vira num homem tão destruído.

“Procuraste-me?”

“Durante onze anos.”

“A minha mulher deixou-me” – disse ele. “Três anos depois de eu voltar. Disse que eu não era o homem com quem ela se casara. Não era. Ela tinha razão.”

“Onde estão os teus filhos?”

“CresE agora, aqui está ele, sentado à minha mesa de jantar, a sorrir com a sua primeira canja de galinha caseira em mais de uma década, e eu percebo finalmente que a minha busca por paz estava sempre ligada à busca por ele.

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