O Menino Surdo que Não Parava de Pedir “Papai” no Posto de GasolinaEntão, um homem coberto de poeira da estrada parou, tirou o capacete e, com lágrimas nos olhos, respondeu com as próprias mãos em linguagem de sinais.7 min de lectura

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Olha, os motociclistas normalmente não ligam muito a crianças nas áreas de serviço, mas na terça-feira passada entrei numa junto à A1 e um miúdo surdo deixou-me completamente parado.

Estava sozinho num dos bancos. Não teria mais de seis anos. Cabelo castanho todo espetado. E uma mochila do Homem-Aranha, enorme demais para ele, ao seu lado.

Mal a campainha tocou e eu entrei, ele ergueu a cabeça logo. As suas mãozinhas moveram-se rapidamente. Tocou no queixo duas vezes. O sinal para “pai”.

A empregada viu-me a observá-lo. Aproximou-se com uma cafeteira na mão e os olhos vermelhos.

“Está aqui desde as 5 da manhã”, disse. “Não quer comer. Não quer beber. Só faz isso com as mãos sempre que entra um motociclista.”

Perguntei-lhe se já tinha chamado alguém. Ela acenou que sim. “Veio a polícia. Veio a assistente social. Ele não quer ir com nenhum deles. Não faz nenhum outro sinal. Só aquela palavra.”

Sentei-me à frente do miúdo. Os olhos dele eram da cor da chuva. Olhou para o meu colete, depois para a minha barba, e a sua carinha desfez-se.

As mãos dele começaram a mover-se tão rápido que eu não conseguia acompanhar. Não sei linguagem gestual. Fiquei ali sentado, a sentir-me inútil, enquanto um miúdo de seis anos tentava dizer-me algo que eu não conseguia perceber.

Foi então que reparei no canto de um envelope a sair de um bolso da mochila.

Apontei para ele devagar. Pedi-lhe autorização com os olhos. Ele acenou uma vez.

Dentro estava uma fotografia e um bilhete com uma letra trémula. A foto era de uma mulher com um bebé ao colo. O bilhete tinha três frases.

Li a primeira linha e as minhas mãos começaram a tremer. Li a segunda linha e tive que pousar o papel.

A terceira linha tinha um nome. Um nome que eu não ouvia há vinte e três anos.

Um nome que pertencia a um irmão nosso que tinha sido empurrado para fora da estrada em 2002 por um bêbado ao volante. Um irmão que foi enterrado em Évora com todas as honras do clube.

Um irmão que, segundo esta carta, afinal estava vivo.

Vivo durante vinte e três anos.

Vivo numa pequena vila a duas horas a noroeste de onde eu estava sentado.

Tive de ler três vezes até as palavras pararem de dançar. A letra era de uma mulher chamada Sara. A carta começava com “Para quem ler isto, por favor, seja um bom homem.” E acabava com o nome do meu irmão — Manuel Cardoso — e a morada de uma unidade de cuidados paliativos numa terra chamada Arraiolos.

No meio, a Sara explicava tudo em três pequenos parágrafos.

O Manuel não tinha morrido em 2002. O funeral foi real mas o caixão estava vazio. Dois homens do nosso clube sabiam. O resto de nós chorou um corpo que lá não estava.

A Sara tinha sido mulher do Manuel durante vinte e um anos. Tiveram o João quando ela tinha quarenta e quatro anos, depois de lhe terem dito que não podia ter filhos. Ela era surda de nascença e o João também. O Manuel tinha aprendido a linguagem gestual tão bem que o João às vezes se esquecia que os outros não sabiam.

A Sara teve cancro no estômago. Morreu há quatro meses.

O Manuel teve um AVC há seis dias. A enfermeira disse que o coração dele estava a falhar. Horas, não dias.

O último parágrafo dizia: “O João não tem ninguém. Os irmãos do Manuel pensam que ele está morto. Não sei se algum deles ainda está vivo ou se alguém vai querer saber. Mas o Manuel disse sempre que tu virias. Por favor, vem.”

Olhei para cima da carta. O miúdo — o João — estava a olhar para a minha cara. Não estava a chorar. Estava à espera.

Fiz o sinal para “amigo” como a minha sobrinha me ensinou. Dois dedos indicadores entrelaçados.

Todo o corpo do João cedeu de alívio.

Depois ele fez um sinal que eu não percebi. Dois punhos, puxados para dentro, como se estivesse a segurar algo no peito.

A empregada tinha-se aproximado do meu banco. Ela também tinha estado a chorar.

“Isso significa ‘depressa’”, sussurrou. “Procurei enquanto ele esperava.”

Puxei do telemóvel. As minhas mãos ainda tremiam, mas marquei o número que melhor conhecia.

O Toninho atendeu ao segundo toque. Ele é o nosso presidente há quinze anos. Foi um dos homens que carregou o caixão vazio do Manuel.

“Toninho”, eu disse. “O Manuel está vivo.”

Houve um silêncio tão longo que pensei que a chamada tinha caído. Depois ouvi-o a respirar.

“Onde”, disse ele.

“Em Arraiolos. Cuidados paliativos. Ele tem horas.”

“Quem te disse isso.”

“O filho dele. Seis anos. Surdo. Aqui à minha frente numa área de serviço, com uma carta da mãe.”

O Toninho não fez mais perguntas. Disse só: “Vou buscar os rapazes. Fica aí.”

Quarenta minutos depois, ouvi-os a chegar pela A1.

Consegue-se ouvir o nosso clube a um quilómetro de distância quando andamos todos juntos. Vinte e três escapes a abrir ao mesmo tempo soam como se o céu se rasgasse.

A cabeça do João virou-se para a janela antes de eu os ouvir. Ele não os conseguia ouvir, mas sentiu-os pelo chão.

Ele olhou para mim com uns olhos que finalmente se tinham aberto. Ele gesticulou algo rápido. A empregada traduziu.

“Ele pergunta: ‘Aqueles são os meus tios?’”

Eu acenei que sim. Ele trepou para o banco com a cara encostada ao vidro.

Eles entraram no parque de estacionamento e alinharam-se como num desfile. O Toninho saiu primeiro. Tem um metro e noventa e é construído como um frigorífico. A barba dele é toda branca agora.

Ele atravessou a porta e os olhos foram direitos ao João.

Toda a área de serviço ficou em silêncio. Os camionistas pararam de comer. A empregada pousou a cafeteira.

O Toninho atravessou o espaço em cinco passos. Ajoelhou-se à frente do banco do João. Um homem que não se ajoelha a ninguém há quarenta anos.

Ele fez o sinal para pai. Depois apontou para si mesmo. Depois fez o sinal para irmão. Depois apontou para o João.

Ele não sabia muito de linguagem gestual. Nenhum de nós sabia. Mas o João percebeu.

O rapaz esticou uma mão pequena e tocou na barba branca do Toninho. Depois inclinou-se para a frente e encostou a testa à testa do Toninho.

O Toninho começou a chorar. Eu nunca o tinha visto chorar. Não no funeral da mulher. Não no casamento da filha.

Ele chorou no peito de um miúdo de seis anos que nunca tinha conhecido.

Arraiolos fica a duas horas a noroeste daquela área de serviço, por uma estrada que não vai dar a lado nenhum.

Nós seguimos em formação. O João sentou-se no lugar do passageiro da carrinha do gerente da área de serviço, que me tinha entregue as chaves sem eu pedir. “Traz de volta quando puderes”, dissera. “Ou não.”

É isso que as pessoas boas fazem quando veem que algo importa.

O João sentou-se no lugar do passageiro com a fotografia da mãe no colo. Ele não parava de a virar nas suas pequenas mãos. De poucos em poucos minutos, ele levantava-a para o vidro como se lhe estivesse a mostrar a estrada.

Eu tentava não olhar para ele enquanto conduzia. Não queria que ele me visse desfeito.

A unidade de cuidados paliativos era um edifício baixo de tijatrás de um McDonald’s, e a enfermeira na receção assim que viu vinte e três motociclistas a entrar, a mão dela foi direta ao telefone.

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