SETE PORTAS FECHARAM-SE NA TUA CARA QUANDO ESTAVAS GRÁVIDA… MAS A MULHER CEGA COM UMA FACÃO SABIA PORQUE É QUE TODOS TINHAM MEDO
Naquela noite, não conseguiste dormir.
Os teus filhos dormiam.
O Mateus dormia enrolado num dos teus lados, a sua mão fina ainda agarrada à manga da tua blusa. A Leonor dormia do outro, com a face pressionada contra a tua barriga, onde o bebé se movia lentamente debaixo das tuas costelas, como se mesmo a vida por nascer entendesse que tinha encontrado abrigo.
Mas tu permanecias acordada no brilho laranja do lume, a observar a mulher cega a afiar o seu facão.
Lenta.
Constante.
Metal contra pedra.
Um som que deveria assustar-te.
No entanto, de alguma forma, confortava-te.
Lá fora, a serra estava escura. O vento movia-se através da vegetação seca e dos arbustos de giesta, arrastando sussurros contra as paredes de pedra. Lá em baixo, a aldeia era um conjunto disperso de luzes, cada uma pertencendo a uma casa com uma porta que se tinha fechado na tua cara.
Sete portas.
Sete oportunidades de misericórdia.
Sete silêncios.
A velha mulher estava sentada junto ao lume, com os seus olhos brancos abertos, as suas mãos a moverem-se como se se lembrassem de tudo o que o mundo lhes tinha tentado roubar.
“Como te chamas?” — perguntaste.
O afiar parou.
Por um momento, só o lume falou.
Então ela respondeu: “Chamam-me Dona Candelária”.
Tu conhecias aquele nome.
Toda a gente conhecia aquele nome.
Não por o dizerem abertamente. Não o faziam. O nome vivia em sussurros, em avisos, em histórias contadas perto dos poços e nas cozinhas quando as crianças deveriam estar a dormir.
Dona Candelária da colina.
A viúva cega.
A bruxa.
A mulher que uma vez se postara perante o senhor Cipriano com um facão e o fizera recuar à frente dos seus próprios homens.
Sentaste-te mais direita, apesar da dor nas costas.
“És tu?”
A sua boca curvou-se.
“Isso depende de quem conta a história.”
Olhaste para o facão.
“E qual história é a verdadeira?”
“Aquela em que eu ainda estou viva.”
Não sabias o que dizer a isso.
Dona Candelária passou o polegar cuidadosamente pelo fio da lâmina, não o suficiente para cortar, apenas o suficiente para ajuizar.
“Deves beber mais água” — disse ela.
“Não estou com sede.”
“Estás a mentir.”
Piscaste os olhos.
Ela não podia ver a tua cara.
Mas mesmo assim ouviu a mentira.
Ela levantou-se, atravessou a divisão sem hesitação e encheu de água uma caneca de barro. Colocou-a na tua mão. Bebeste porque recusar parecia tolo.
A água sabia a barro, a fumo e a sobrevivência.
“Porque me ajudaste?” — perguntaste.
“Porque o teu marido uma vez me ajudou.”
O teu coração parou.
“O meu marido?”
“O Tomás.”
O nome cortou-te ao meio.
Há semanas que não ouvias o seu nome dito com gentileza.
Desde que Tomás morrera sob as ordens disfarçadas de acidente do senhor Cipriano, as pessoas diziam o seu nome rapidamente, nervosamente, como se a própria dor pudesse trazer castigo.
Pressionaste uma mão contra a barriga.
“Conheceste-o?”
“Conheci-o quando era um rapazinho que carregava milho roubado para famílias com fome e fingia que o encontrara na estrada.” A sua voz suavizou-se. “Tinha pés barulhentos e um coração limpo.”
As lágrimas queimaram-te os olhos.
Contiveste-as.
Dona Candelária inclinou a cabeça.
“Chora se precisares. Isso não vai fazer o telhado cair.”
Isso partiu algo dentro de ti.
Não alto.
Não belamente.
Tapaste a boca e dobraste-te para a frente, tentando não acordar as crianças. Cada porta fechada, cada passo dolorido, cada mentira de que não tinhas fome, cada noite desde que o corpo de Tomás voltou para casa com terra debaixo das unhas e sem justiça na aldeia—tudo isso subiu de uma vez.
Choraste como uma mulher que tinha estado a segurar uma montanha no peito.
Dona Candelária não te tocou.
Apenas se sentou perto e deixou a dor ter a sua própria cadeira.
Quando passou, ficaste vazia e envergonhada.
“Perdoa-me” — sussurraste.
“Não.”
Olhaste para cima.
“Eu disse ‘perdoa-me’.”
“Ouvi-te.” — Ela recostou-se. “Não te vou perdoar por teres chorado. Não cometeste pecado.”
As palavras assentaram sobre ti como um cobertor.
Durante meses, tinhas pedido desculpa por tudo. Por precisar de ajuda. Por seres viúva. Por estares grávida. Pela fome dos teus filhos. Por sobreviveres mais tempo do que o senhor Cripriano esperava.
Tinhas-te esquecido do que soava ser dito que não tinhas feito nada de errado.
Dona Candelária colocou o facão ao seu lado.
“Agora conta-me o que aconteceu depois de Tomás morrer.”
Olhaste para as crianças a dormir.
“Tu sabes.”
“Eu sei o que a serra diz. Quero saber o que a tua boca ainda teme.”
Os teus dedos apertaram-se em torno da caneca.
Então contaste-lhe.
Contaste-lhe sobre o senhor Cipriano a postar-se no teu quintal três dias após o funeral, usando um chapéu de abas largas e uma falsa pena. Contaste-lhe como ele dissera que Tomás lhe devia dinheiro. Contaste-lhe sobre o papel que desdobrou, a assinatura que parecia a do teu marido mas não bem. Contaste-lhe como ele ofereceu “resolver tudo” se lhe desses a terra atrás da tua casa—a estreita faixa que Tomás herdara do pai, a que tinha a nascente escondida debaixo das pedras.
Dona Cipriano ergueu ligeiramente a cabeça.
“A nascente” — disse ela.
“Sim.”
Agora sabias que ela entendia.
A nascente era a razão pela qual Tomás tinha morrido.
Não dívidas.
Não azar.
Água.
Naquela região, a água vale mais que ouro e é mais perigosa de possuir que uma espingarda.
“O Tomás recusou” — disseste. “Disse ao senhor Cipriano que a nascente ficaria para os nossos filhos. Uma semana depois, o seu cavalo voltou sem ele.”
“E a aldeia?”
Riste com amargura.
“A aldeia baixou os olhos.”
“Como hoje.”
“Como hoje.”
Contaste-lhe sobre as ameaças. Sobre a mercearia que te recusou crédito. Sobre o professor da escola a avisar o Mateus para não mencionar o nome do senhor Cipriano. Sobre homens a passar a cavalo pela tua casa à noite. Sobre o fogo posto no teu galinheiro. Sobre as mulheres velhas que antes vinham tomar café agora a atravessarem a rua quando te viam.
Finalmente, contaste-lhe sobre o despejo.
Os homens do senhor Cipriano vieram ao amanhecer com um papel carimbado pela junta de freguesia. Disseram que a dívida permitia a apreensão. Deram-te uma hora. Empacotaste três mudas de roupa, a fotografia do Tomás, as certidões de nascimento das crianças e um pequeno saco de pano com sementes da tua mãe.
Depois caminhaste.
Sete portas fecharam-se.
E agora estavas aqui.
Dona Candelária ouviu sem interromper.
Quando terminaste, ela ficou muito quieta.
Então disse: “Ele tornou-se descuidado.”
“Quem?”
“Cipriano.”
Um calafrioEla ficou quieta por um longo momento antes de finalmente responder, “Porque eu sei onde estão os corpos.”





