O quintal estava silencioso, exceto pelo som de um menino pequeno a chorar.
Não teria mais de seis anos.
Talvez sete.
Os seus sapatos estavam encharcados do relva molhada. O seu colete de cabedal pequeno pendeu torto por cima de um *hoodie* cinzento. Com ambas as mãos, segurava uma mota de brinquedo de madeira como se fosse a única coisa que o mantivesse vivo.
Não um brinquedo.
Uma prova.
Os motards pararam de falar, um por um.
Motas alinhadas na vedação atrás deles, pretas e pesadas sob o céu cinzento da manhã. Um barril de queima fumegava perto da porta do clube. A água da chuva pingava do telhado em pancadas lentas e constantes.
A criança correu na direção deles, a chorar tão alto que mal conseguia respirar.
Depois, tropeçou.
O seu corpo pequeno caiu com força na relva.
Vários homens avançaram, mas antes que alguém o pudesse alcançar, o rapaz ergueu-se sobre os joelhos.
Levantou o brinquedo na direção do homem mais ali.
O nome do homem era Caleb “Urso” Silva.
Presidente do Clube de Motards Santos de Ferro.
Um metro e noventa.
Largo como uma porta.
Barba com fios grisalhos.
Mãos marcadas por ferramentas, lutas e guerra.
A maioria dos adultos baixava os olhos quando o Urso os olhava.
Mas esta criança olhou fixamente para ele, através das lágrimas.
O Urso ajoelhou.
Lentamente.
O quintal pareceu conter a respiração quando ele tirou a mota de brinquedo das mãos trémulas do rapaz.
Era feita à mão.
Cuidadosamente talhada.
Pintada de preto com uma fina faixa vermelha ao longo do depósito.
Um dos guiadores tinha um risco no lado esquerdo.
A expressão do Urso mudou.
Não muito.
Mas o suficiente para que cada homem no quintal o sentisse.
Ele conhecia aquele risco.
Porque o tinha feito ele próprio.
Dez anos antes, numa garagem atrás de um bar de veteranos, numa noite em que ele e o seu melhor amigo estavam a beber cerveja morna e a talhar brinquedos a combinar para crianças que não tinham a certeza se alguma vez iriam conhecer.
A voz do Urso baixou.
“Quem fez isto?”
O rapaz tentou falar, mas primeiro um soluço escapou-se.
“O meu pai.”
O Urso inclinou-se mais perto.
“Como é que ele se chama?”
O rapaz limpou o rosto com a manga.
“A minha mãe disse que estiveste lá quando o enterraram,” sussurrou. “Mas a campa estava vazia.”
Ninguém se moveu.
Nem um motard.
Nem uma respiração.
A mão do Urso apertou-se em volta do brinquedo.
Porque apenas três homens conheciam aquela verdade.
Que o caixão baixado para a terra dez anos antes tinha levado peso.
Mas não um corpo.
O rapaz meteu a mão no seu pequeno colete com dedos trémulos e puxou uma chapa de metal enferrujada numa corrente.
Meia *dog tag*.
Partida ao meio.
O Urso viu-a e ficou pálido.
Porque a outra metade estava pendurada debaixo da sua própria camisa.
O Brinquedo Com O Guiador Partido
O nome do rapaz era Noé.
Ele disse-lhes isso só depois de o Urso o ter envolvido num velho casaco de *denim* e o ter levado para dentro do clube.
Até então, tudo o que conseguiu fazer foi chorar.
Não o choro alto e descontrolado de uma criança que tinha esfolado o joelho.
Este era mais pequeno.
Mais antigo.
O tipo de choro que as crianças aprendem quando os adultos à sua volta já estão demasiado assustados para as confortar devidamente.
O Urso sentou-o à longa mesa de madeira por baixo da bandeira dos Santos de Ferro. Alguém trouxe chocolate quente. Outro trouxe uma toalha. Um dos motards mais jovens, um homem calado chamado Coelho porque era rápido e nervoso, ficou perto da janela a olhar para a estrada como se o medo do rapaz tivesse entrado no quintal com ele e pudesse não estar muito atrás.
Noé segurou a caneca com as duas mãos mas não bebeu.
Os seus olhos não paravam de se mover na direção da porta.
O Urso reparou.
“Alguém a seguir-te?”
Noé engoliu em seco.
“Não sei.”
O quarto ficou novamente em silêncio.
Os motards não eram homens facilmente assustados. A maioria tinha vivido de forma demasiado difícil, perdido demasiado, ou aprendido cedo que o medo por vezes era apenas como o tempo. Mas uma criança a dizer aquelas três palavras podia mudar o ar mais rápido do que um tiro.
*Não sei.*
O Urso colocou a mota de madeira na mesa entre eles.
“Onde está a tua mãe?”
Noé olhou para baixo.
“Ela disse-me para correr.”
As palavras atravessaram a sala como o inverno.
O maxilar do Urso apertou-se.
“Correr de quem?”
Os pequenos dedos de Noé tocaram na *dog tag* partida à volta do seu pescoço.
“Os homens na carrinha preta.”
O Coelho virou-se da janela.
“Que carrinha preta?”
Noé abanou a cabeça. “Aquela sem matrícula na frente.”
O Urso olhou para o Coelho.
O Coelho já estava a mover-se.
“Verifica a estrada,” disse o Urso.
Dois homens saíram pela porta das traseiras sem dizer mais uma palavra.
O Urso voltou-se para Noé e tentou suavizar a voz.
Já não lhe saía naturalmente.
“Como é o nome do teu pai, filho?”
Noé olhou para o brinquedo.
“A minha mãe chama-lhe Eli.”
O nome atingiu o Urso com tanta força que ele o sentiu atrás das costelas.
Eli.
Elias Marques.
O seu melhor amigo.
Seu irmão de todas as formas que importavam.
O homem cujo funeral tinha sido realizado dez anos antes com um caixão fechado, uma bandeira dobrada, uma jovem esposa de luto e um silêncio que o Urso nunca confiou.
Elias Marques tinha servido com o Urso em Kandahar. Mais tarde, voltaram para casa mudados de formas para as quais nenhum deles tinha palavras. Compraram motas porque andar rápido pelo ar aberto era o mais próximo que conseguiam de respirar normalmente. Juntaram-se aos Santos de Ferro porque um clube cheio de veteranos partidos fazia mais sentido do que jantares de família onde as pessoas perguntavam se a guerra tinha sido “difícil”.
Eli tinha sido mais pequeno que o Urso, magro e de olhos afiados, com uma risada que chegava inesperadamente e o hábito de consertar coisas quando estava zangado. Motores. Rádios. Dobradiças de portas. Pessoas, quando o deixavam.
A mota de brinquedo tinha vindo de uma dessas noites.
A esposa de Eli, Mara, estava grávida na altura.
A esposa do Urso tinha tido um aborto espontâneo dois meses antes, embora ninguém no clube soubesse exceto Eli. O Urso tinha estado a afogar-se silenciosamente, e Eli arrastou-o para a garagem com pedaços de madeira, tinta e uma *six-pack*.
“Vamos fazer motas,” disse Eli.
“Para quem?”
“Para quem ainda aparecer.”
Então fizeram duas.
Uma para o filho de Eli.
Uma para a criança que o Urso e a sua esposa tinham perdido mas já tinham nomeado em privado.
Eli riscou o guiador por acidente quando aEntão levaram a mota de brinquedo para casa, onde ela finalmente pertenceu.





