A Sentença do Poder: Quando a Defesa Tem um PreçoSentença de Cinco Anos: Quando Defender uma Vítima Tem Consequências Inesperadas.6 min de lectura

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Sou motociclista, tenho sessenta e um anos, e ontem um juiz condenou-me a cinco anos de prisão por ter impedido um homem de espancar uma adolescente até ela ficar inconsciente no parque de estacionamento de uma bomba de gasolina.

O homem que eu agredi chamava-se Rodrigo Cardoso. A família dele é dona de metade da construção civil deste distrito e de uma boa parte do tribunal também.

Eu não sabia nada disso quando parei a minha Harley na bomba de gasolina BP perto da Estrada Nacional 9. Apenas ouvi os gritos de uma rapariga atrás dos contentores do lixo.

Ela teria talvez quinze anos. Magrinha. A chorar. Ele tinha-a agarrado pelo cabelo, batendo com a cara dela no cimento. Três vezes antes de eu chegar. Contei mais tarde através das imagens de videovigilância.

Gritei. Ele não parou. Então, afastei-o e dei-lhe um soco. Uma só vez. Parti-lhe o nariz e deixei-o no chão.

A rapariga fugiu antes da polícia chegar. Eu fiquei ali porque não tinha nada a esconder.

Isso foi há oito meses. Desde então, vi a minha vida inteira desmoronar-se num tribunal controlado por uma família com mais dinheiro que o Papa.

A rapariga nunca se apresentou. As testemunhas mudaram os seus depoimentos. As filmagens de segurança ficaram “corrompidas” misteriosamente. O júri ouviu que eu, um “motociclista margina com cadastro”, atacara um “respeitado empresário” sem qualquer provocação.

Condenaram-me em duas horas.

Depois veio a sentença. O juiz olhou para mim e começou a ler a pena máxima prevista por lei. Cinco anos. Sem liberdade condicional. Sem recurso com fiança.

Estava prestes a ser levado com algemas quando as portas das traseiras do tribunal se abriram. Uma rapariga com um *hoodie* cinzento percorreu o corredor central com algo na mão e parou mesmo em frente ao estrado.

O que ela tirou de dentro do casaco foi um pequeno gravador. Não maior que um isqueiro Zippo.

“Meritíssimo.” A sua voz não tremeu. “Chamo-me Beatriz Almeida. Sou a rapariga da bomba de gasolina. Tenho algo que o senhor precisa de ouvir.”

Todo o tribunal ficou em silêncio. O meu advogado pousou a pasta. Os olhos do juiz piscaram para o procurador, que piscou os olhos para os advogados dos Cardoso, que olharam todos para o chão.

“Oficial de justiça,” começou o juiz. “Remova esta jovem…”

“Ela tem o direito de ser ouvida.” Quem falou foi a Sofia Lima, a minha advogada. A mulher da gravata manchada. Esteve em silêncio durante oito meses a levar porrada. Mas levantou-se agora e a sua voz cortou a sala. “Se é uma testemunha material dos eventos, tem o direito de ser ouvida antes desta sentença ser finalizada.”

A boca do juiz apertou-se numa linha branca e fina. Olhou para a fila da frente, onde Rodrigo Cardoso estava sentado com o pai, Guilherme Cardoso. A cara do velho tinha a cor de cinza fria.

“Aproxime-se do estrado,” disse o juiz.

Beatriz caminhou para a frente. Pousou o gravador na madeira à frente dele. Depois, carregou em *play*.

A primeira coisa que saiu daquela pequena caixa preta foi o som de um motor de carro. Depois, a voz de uma rapariga. Mais nova. Assustada.

“Para onde vamos? Disseste que íamos buscar gelado.”

Depois, um homem. Calmo. Suave. A mesma voz que eu ouvira a implorar ao procurador que me acusasse de tentativa de homicídio durante oito meses.

“Vamos. Há algo de que preciso de falar contigo primeiro.”

“Sobre o quê?”

Uma longa pausa. Depois, a voz suave novamente. Mais perto do gravador agora.

“Disseste à tua mãe que eu te toquei.”

Silêncio.

“Querida. Nós tínhamos um acordo. Não contas a ninguém. Lembras-te?”

Na fila da frente, Rodrigo Cardoso levantou-se tão depressa que a cadeira caiu para trás. O estrondo ecoou pelas paredes de mármore.

“Meritíssimo.” O advogado dele já estava de pé. “Esta gravação foi obtida sem consentimento e é, portanto, inadmissível…”

“Sente-se,” disse o juiz. Não tirou os olhos do gravador.

A gravação continuou a tocar. O carro parou. Uma porta abriu-se. Uma luta. A rapariga gritou uma vez, depois o som ficou abafado, como se o aparelho tivesse sido enfiado fundo num bolso.

Mas ainda se conseguia ouvi-lo.
Conseguia-se ouvir cada palavra.
Conseguia-se ouvir o que Rodrigo Cardoso disse enquanto arrastava uma rapariga de quinze anos do carro pelo cabelo e a atirava contra o alcatrão atrás de uma bomba de gasolina BP.

Não vou escrever as palavras aqui. Eram do tipo que faz homens adultos de fato começar a chorar. Do tipo que fez a oficial de justiça virar a cara para a parede.

A gravação tocou durante quatro minutos e doze segundos.

O último som foi uma voz masculina. Rouca. Mais velha. A minha voz. A gritar-lhe para se afastar dela.

Depois, o som de um bom e limpo soco.

O gravador desligou-se.

Ninguém naquele tribunal disse uma palavra. Não durante muito tempo.

Eu sentei-me ali no meu fato-macaco laranja com os pulsos algemados e olhei para a Sofia. Os seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela estava a acenar com a cabeça para mim como se estivesse à espera há oito meses para fazer exactamente aquilo.

O juiz limpou a garganta. Não olhou para os Cardoso. Não olhou para mim. Olhou para a sua mesa.

“Este tribunal fará um intervalo de uma hora.”

Ele saiu rapidamente pela porta das traseiras.

Quando ele saiu, Guilherme Cardoso virou-se no seu lugar e apontou para a Beatriz do outro lado da sala.

“Tu, pequena…”

Ele não terminou. Dois dos motociclistas mais velhos na fila de trás levantaram-se. Apenas se levantaram. Não se moveram. Não disseram nada. Apenas se levantaram e olharam para ele.

Ele sentou-se novamente.

É melhor eu contar-vos sobre os meus irmãos.

Eu ando com um clube chamado Santos de Ferro. Não somos aquilo a que os noticiários chamam um clube fora da lei. Não lidamos com droga. Não lidamos com raparigas. Somos na sua maioria veteranos do Vietname, veteranos da Guerra do Golfo, comerciantes reformados. Alguns de nós somos viúvos como eu. Andamos de moto para honrar irmãos que perdemos e para nos lembrarmos que ainda estamos aqui.

Quando a polícia foi a minha casa há oito meses e me arrastou para fora de pijama, o meu irmão Tanque espalhou a palavra. Naquela noite, todos os Santos de Ferro em três distritos estavam comigo.

Eles pagaram à Sofia. Sentaram-se naquele tribunal todos os dias do meu julgamento. Primeira fila, terceira fila, até ao fundo. Quarenta e seis homens em couro e barbas grisalhas.

Os Cardoso não os conseguiram intimidar. O juiz não os conseguiu intimidar. Ninguém conseguiu.

Quando o veredito de culpado foi lido, nenhum deles disse uma palavra. Apenas se levantaram, saíram e esperaram por mim lá fora. Eu nunca cheguei a sair pela porta da frente. Meteram-me numa carrinha e levaram-me directamente para a cadeia distrital.

Mas estavam de volta esta manhã. Todos os quarenta e seis. E quando a Beatriz percorreu aquele corredor, todos eles perceberam o que estava a acontecer antes de mim.

No intervalo, ficámos sentados. Os Cardoso reuniram-seNo intervalo, ficámos sentados. Os Cardoso reuniram-se com os seus advogados no canto. Eu sentei-me com a Sofia. A Beatriz sentou-se atrás de mim, entre o Tanque e um irmão chamado Rui.

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