“Pai… por favor, ajuda-me. Ela vai bater-me outra vez.”
A voz assustada de uma menina ecoou numa das ruas mais luxuosas de Lisboa, precisamente quando Daniel Sá saiu do táxi em frente ao seu imponente palacete.
O magnata de quarenta e cinco anos do ramo imobiliário regressara de uma viagem de negócios a Singapura um dia antes do previsto. Ansiava por surpreender a sua esposa, Vanessa, e a sua filha de cinco anos, Beatriz.
Mas, quem ficou em choque foi ele.
No pavimento húmido, lá fora do portão, uma menina descalça recolhia pedrinhas coloridas das poças de água. O seu vestido amarelo, outrora vivo, estava sujo e com as bordas rasgadas. O cabelo emaranhado colava-se às suas faces magrinhas e ela apertava um urso de peluche, com um olho em falta.
Era a Beatriz.
E estava completamente sozinha.
“Beatriz?” chamou Daniel, com a voz a tremer.
A menina ergueu o olhar lentamente, confusa. Depois, o reconhecimento inundou os seus olhos. Os lábios trémulos, e ela correu na sua direção, tropeçando enquanto chorava.
“Pai! Pai, voltaste!”
Daniel ergueu-a nos braços — e uma onda de horror percorreu-o.
Ela estava magra de mais. Demasiado magra.
Os seus braços pareciam frágeis, quase sem peso. Cheirava a terra e a urina. O vestido estava húmido da chuva e do suor.
“Minha querida… porque estás cá fora? Onde está a Vanessa?”
Beatriz enterrou a cara no seu ombro, a tremer.
“A tia Vanessa disse que morreste no avião,” sussurrou. “Disse que nunca mais voltarias.”
O coração de Daniel começou a bater com força.
Olhou para a mansão. Todas as cortinas estavam fechadas, mas uma música alta ecoava de lá de dentro, misturada com risos e vozes.
“Beatriz… há quanto tempo estás aqui?”
“Desde ontem de manhã,” respondeu ela, baixinho. “A tia Vanessa disse-me para ficar no jardim. Mas quando escureceu, fiquei com medo, por isso fiquei aqui à tua espera.”
“Desde ontem?”
Ela anuiu.
Daniel olhou para os seus pés — roxos de frio, cheios de pequenos cortes. Havia hematomas nos seus braços, como se alguém a tivesse agarrado com força.
Levou-a até à porta e destrancou-a.
Mal entraram, um cheiro intenso atingiu-o — cigarros, álcool e perfume.
A sala de estar estava uma desordem. Garrafas de champanhe vazias, copos sujos, cinzeiros e roupas espalhadas por todo o lado: uma camisa, uma gravata de marca, até um fato de alta-costura.
Risadas altas vinham do andar de cima.
“O que se passa aqui…”, murmurou Daniel.
Beatriz agarrou-se mais forte a ele.
“Os senhores estão a brincar com a tia Vanessa lá em cima,” sussurrou. “Eles fazem sempre muito barulho quando brincam.”
Daniel subiu as escadas devagar.
A cada degrau, os sons ficavam mais claros — homens a falar, a rir, o tilintar de copos.
Parou à frente da porta do quarto, entreaberta.
Lá dentro, na cama que outrora partilhara com Vanessa, a sua mulher de vinte e oito anos estava seminus entre dois homens mais velhos, a beber champanhe e a rir.
O estômago revirou-se-lhe.
Atrás dele, Beatriz falou baixinho.
“Pai… posso ir para o meu quarto? Tenho tanto frio.”
Daniel afastou-se da porta, com a raiva a crescer no seu peito.
Carregou Beatriz pelo corredor até ao seu quarto.
Quando abriu a porta, o seu coração quase se partiu.
A cama estava por fazer, claramente intocada há dias. Pratos sujos com restos de comida estavam no chão. O quarto cheirava mal.
“Beatriz… quando foi a última vez que tomaste banho? Quando comeste algo de jeito?”
Ela contou devagar nos dedos.
“Talvez… há cinco dias. A tia Vanessa disse que crianças sujas não podem entrar quando vêm visitas importantes.”
Daniel sentiu as pernas fraquejarem.
Cinco dias.
A sua filha tinha sido abandonada enquanto a sua mulher —
Ele afastou o pensamento.
“E onde está a Dona Maria?” perguntou, referindo-se à empregada doméstica.
Os olhos de Beatriz encheram-se de lágrimas.
“Ela foi-se embora a chorar. Discutiu com a tia Vanessa. A tia Vanessa disse que se ela contasse os segredos, algo mau me aconteceria.”
“Que segredos?”
Beatriz olhou nervosa para a porta.
“Sobre os senhores que vêm cá a casa. A Dona Maria não gostava deles. Ela tentava manter-me dentro de casa, mas a tia Vanessa zangou-se e mandou-me ficar lá fora até eles irem embora.”
“Quantos homens vêm cá?”
“Às vezes um… às vezes dois… às vezes mais. Eles chegam em carros grandes.”
“E onde ficas tu?”
“No jardim. Tenho de estar quieta. Se chorar, a tia Vanessa diz que tu ficas zangado comigo.”
Uma perceção arrepiante atingiu Daniel.
Sempre que ele saía para trabalhar, Vanessa trazia homens para casa — e forçava a sua filha a ficar lá fora.
De cima, vinham risadas altas e gemidos exagerados.
Beatriz tapou os ouvidos.
“Eles fazem sempre esses barulhos,” sussurrou. “Pensava que a estavam a magoar… mas depois de irem embora ela conta dinheiro.”
Dinheiro.
Daniel finalmente entendeu.
A Vanessa não estava apenas a ser infiel.
Tinha transformado a sua casa num local onde se vendia.
Passos repentinos ecoaram nas escadas.
Daniel rapidamente levou Beatriz para a cozinha e procurou comida. O frigorífico só tinha cerveja importada e sobras estragadas.
“O que tens andado a comer?” perguntou.
“Às vezes a vizinha, a Dona Cláudia, dá-me uma sanduíche quando me vê cá fora,” disse Beatriz. “Ou bebo água da mangueira do jardim.”
Daniel encontrou leite e bolachas e colocou-os na mesa.
Beatriz bebeu o leite com avidez.
Nesse momento, dois homens entraram na cozinha. Um deles vestia o roupão de Daniel.
Eles pararam, surpreendidos, ao vê-lo.
“Uh… desculpe, meu caro,” disse um, constrangido. “A Vanessa nunca mencionou um marido.”
“O que quer dizer com ‘nunca mencionou’?”
“Nós pagámos para estar aqui,” disse o mais jovem, com descontração. “Ela cobra um extra por receber clientes na mansão de um homem rico.”
Daniel sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés.
“Pagaram?”
“Sim. Cem a cada.”
Nesse instante, Vanessa entrou na cozinha vestindo um roupão fino.
Quando viu Daniel, toda a cor desapareceu do seu rosto.
“Daniel… não estava à tua espera tão cedo.”
Os dois homens vestiram-se rapidamente e saíram sem dizer mais nada.
Daniel ficou em silêncio com Vanessa e Beatriz.
“Então,” disse ele, friamente, “tens cobrado a estranhos para dormirem contigo na minha casa.”
“Eu posso explicar—”
“E a minha filha?” interrompeu. “Onde estava a minha filha durante tudo isto?”
Beatriz deu um passo em frente, segurando o seu copo.
“Olá, tia Vanessa. O pai voltou. Disseste que ele tinha morrido, mas não morreu.”
Vanessa lançou um olhar furioso à menina.
“Beatriz, vai para o teu quarto.”
“Não,” disse Daniel, firmemente. “Ela fica aqui.”
Nesse momento, o telefone tocou.
Era a Dona Maria.
“Senhor Sá… ainda bem que chegou,” disse ela, urgente. “Tenho provas de tudoque se passou com a Beatriz.





