Quando a Amizade Se Fechou: O Mistério da Afastamento Após a Guerra29 min de lectura

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1940. Nita estava na plataforma da estação, confusa, olhando ao redor. Com apenas dezenove anos, recém-formada em enfermagem na cidade de São Carlos, ela havia sido designada para uma pequena aldeia no interior de Minas Gerais, próximo a Ouro Preto. Apesar de não ser a melhor das atribuições, Nita não se queixava. Em sua cidade natal, em São Sebastião do Paraíso, a vida era boa e aconchegante, mas ela ansiava por independência. E onde mais poderia consegui-la se não longe de casa?

— Moça, você está me procurando?

Nita se virou e viu uma mulher de baixa estatura. Seus cabelos escuros estavam à mostra, quase escapando de um lenço azul que usava na cabeça, e sua expressão era tão acolhedora que Nita imediatamente relaxou um pouco.

— Eu cheguei para assumir o cargo de enfermeira. Estou esperando ser recebida…

— Exatamente por isso que eu estou aqui. Meu nome é Zora. Eu vim te buscar e já rodei sete quilômetros até aqui.

Nita sorriu e se apresentou, e juntas foram até a carroça que estava estacionada atrás do prédio da estação. Começaram a viagem. Zora falava sem parar:

— Não se assuste com nossos costumes. Aqui tudo é bem simples, nada parecido com a cidade.

— Eu não sou da cidade, — Nita riu. — Eu cresci em uma aldeia. Só fui à cidade para estudar.

— Sério? — Zora virou-se, e seus olhos brilharam. — Eu pensei que você fosse uma jovem da cidade, toda arrumada.

— A culpa é do meu pai, que fez questão de me vestir bem para “apresentar a sociedade”, — contou Nita.

— Entendi. Então, é da roça. Que bom! Eu estava com medo de que mandassem uma guria que só sabe torcer o nariz para tudo e não conseguiria nem cortar lenha.

— Isso eu sei fazer! Aprendi desde pequena, — Nita riu.

A aldeia era pequena, construída próxima à madeireira, onde se ouviam os sons dos machados e o barulho das árvores caindo.

— Você é daqui? — perguntou Nita.

— Sou daqui, sim. Mas vamos falar de “tu”, por favor. Aqui não somos de formalidades.

— Certo. Pode me chamar de Nita, é o que eu prefiro. Há quanto tempo você mora aqui?

— Desde a época da reposição de terras, — Zora deu de ombros. — Minha família foi trazida para cá. Minha mãe, meu pai, meu tio, minha tia, e as crianças. Eu tinha um irmão, Ivan, que faleceu no caminho. E com meu tio e tia ficou a Oksana, minha prima. Ela já está com treze anos, e eu acabei de completar vinte.

— Faz muito tempo?

— O que você quer dizer com “muito tempo”? A reposição de terras?

Nita acenou com a cabeça.

— Em 1929, quando meus pais se recusaram a se unir ao colégio agrícola. No começo, a aldeia era pequena, tinha cerca de oitenta casas. Agora, dizem que já são mais de mil pessoas vivendo aqui. Muitos trabalham na madeireira, e uma pequena fábrica está sendo construída. Uns vêm aqui expulsos, outros para trabalhar. Estão se estabelecendo aos poucos.

— E você, o que faz?

— Sou cozinheira na cantina.

— E como você acabou vindo me buscar? — perguntou Nita, curiosa.

— Não vê os sacos? — Zora riu. — É sal, açúcar e arroz para a cozinha. Fui pegar na estação, e mandaram eu te trazer.

— Entendi. Mas você realmente carrega sacos sozinha?

— De jeito nenhum! — Zora exclamou. — Para isso existem os carregadores!

Chegaram a um longo edifício de madeira pintado, onde a tinta estava descascando. Era o alojamento para os profissionais recém-chegados: algumas salas, uma cozinha comunitária, e um fogão no canto.

— Aqui está o seu quarto, — Zora empurrou a porta. — Pequeno, mas é só seu. Se instale. Logo o médico chegará, você vai se apresentar para ele e ele vai te mostrar onde vai trabalhar. Agora preciso ir, meu noivo Petru espera por mim.

— Petru? — Nita sorriu. — É o namorado?

— Isso mesmo. Espero que ele tenha coragem de me pedir em casamento, — Zora olhou para Nita com um brilho nos olhos.

O ADOLESCENTE E A AMIZADE 🌲

E assim começou a amizade delas.

Nita se estabeleceu no hospital local. Trabalhou em uma pequena construção de madeira, onde havia dois médicos: um atendia crianças e o outro, adultos. Também havia uma parteira idosa que ajudava a trazer novas vidas ao mundo. Antes da chegada de Nita, todo o hospital contava apenas com duas enfermeiras. Faltava pessoal, por isso ela fora designada para lá.

Zora trabalhava na cantina da madeireira, servindo os operários. Ela morava perto do alojamento e frequentemente passava à noite na casa de Nita, trazendo até mesmo leite da vaca que a família de Zora havia conseguido três anos atrás.

Elas conversavam por horas. Nita contava sobre São Sebastião do Paraíso — sobre os campos vastos, a colheita de uvas, e as frutas abundantes que cresciam nas árvores. Zora ouvia atentamente, suspirando.

— Aqui a terra é pobre, — dizia ela. — Turfa, pântano. E os invernos são longos. Quando cheguei aqui, pensava que ia morrer. Mas deu certo, sobrevivemos. Meu pai se tornou um supervisor de uma das brigadas, e minha mãe é costureira, estamos vivendo grâce a isso.

— O meu pai é um cearense. Trabalha no colégio agrícola, ele logo entrou pra lá. Minha mãe não trabalha, temos seis filhos e ela cuida de todos nós, — respondeu Nita.

— Não é possível não trabalhar nos dias de hoje? — perguntou Zora, surpresa.

— Parece que sim. Nunca pensei porque minha mãe não está no colégio agrícola, — respondeu Nita.

— E você não tem namorado?

— Não, — Nita balançou a cabeça. — Tinha um, mas ele foi para o exército e se envolveu com outra. Nem quero falar sobre isso.

— Olha, Nita, quer que eu te apresente ao irmão do Petru? Ele se chama Artur. Ele é carpinteiro, faz de tudo com madeira. E é bonito, como meu Petru. Resumindo — verdadeiros irmãos.

Nita ficou envergonhada:

— Não precisa. Eu cheguei aqui há pouco tempo, não me organizei ainda e já vou sair com os rapazes?

— Ah, e qual é o problema? — perguntou Zora, surpresa. — Como diz minha mãe, o jovem deve aproveitar. Além disso, o Artur já te viu, fez várias perguntas sobre você. Ele mesmo pediu pra mim te apresentar.

O ENCONTRO COM ARTUR. O CASAMENTO NO OUTONO 💍

Dois dias depois, quando os pais de Zora foram para a aldeia vizinha para um casamento de conhecidos, ela decidiu reunir os convidados — seu noivo Petru e seu irmão Artur. E pediu para Nita aparecer toda bonita. Assim ela fez: vestiu um vestido que guardava para ocasiões especiais, fez uma trança no cabelo e calçou seus sapatos.

A noite passou rápida. Elas pareciam não perceber o tempo passando. Artur era muito falante quando se tratava de trabalho — falava sobre como a madeira era cortada e como novas seções estavam sendo construídas na fábrica. Mas pouco falava sobre si mesmo. Petru, seu irmão, era o oposto: extrovertido, alegre, sempre abraçando Zora e sussurrando coisas ao seu ouvido.

Quando escureceu, Artur se ofereceu para acompanhar Nita até o alojamento.

Parados à porta, o rapaz pediu:

— Venha ver a Zora amanhã. Nós prometemos ajudar o pai dela a construir um galinheiro.

— Eu irei, ainda mais porque Zora também me chamou, — respondeu Nita, sorrindo.

E ela foi. Depois, mais uma vez, ela se encontrou com ele. Então, começaram a se encontrar toda noite: caminhavam pela aldeia, iam até a beira do rio que fluía atrás da madeireira, ou dançavam juntos nas festas promovidas pelos jovens.

O amor deles crescia tão rápido que, no outono, se casaram junto com Zora e Petru. Infelizmente, nesse grande dia, apenas o irmão e a irmã de Nita puderam comparecer, mas trouxeram presentes do pai e da mãe. Artur prometeu que no ano seguinte eles iriam a São Sebastião do Paraíso para que ele pudesse conhecer pessoalmente os pais de sua amada.

Após o casamento, Artur e Nita moraram no quarto que ela recebeu, e Zora e Petru ficaram na casa dela. Os meninos não tinham onde morar, vivendo em barracas para trabalhadores. Ambos eram órfãos e tinham chegado ali após o curso técnico, e se estabelecido. Casados, eles sonhavam em construir uma grande casa com duas entradas para viverem juntos.

Mas todos os planos foram arruinados — não se passaram nem um ano e a Segunda Guerra Mundial começou.

A GUERRA. O OBITUÁRIO DE PETRU 🕯️

Em junho de 1941, Petru e Artur partiram para o front junto com outros homens da aldeia. Nita estava grávida de sete meses e muito preocupada. Se não fosse por Zora e seu apoio, ela poderia ter dado à luz antes do tempo. Mas a amiga estava sempre ao seu lado, ajudando em tudo, oferecendo seu ombro confiável.

Em 12 de agosto de 1941, Nita deu à luz um menino, que decidiu chamar de Maicon, e imediatamente informou Artur. Para que fosse mais fácil para ele, e para que soubesse que não o esperava apenas a esposa, mas também um filho pequeno.

Ela não contava a Zora que tinha medo. Que acordava todas as noites com gritos, sonhando com Artur — ferido, deitado na neve, e ela não conseguia chegar até ele. Fazia orações fervorosas, murmurando as palavras que sua mãe lhe ensinara.

1944. O outono profundo se aproximava quando Zora recebeu o aviso de falecimento de Petru. Ela segurava o aviso na mão sem conseguir ler. Parecia que, se não visse aquelas palavras sombrias que normalmente estão nos obituários, tudo ficaria igual. Petru ainda estava lutando, e um dia retornaria para casa. Ela ouviria novamente sua risada alegre e sentiria o calor de seus braços. Ele a abraçaria e sussurraria palavras carinhosas em seu ouvido…

Naquele momento, Nita estava visitando-a. Naquele dia, ela chegara mais cedo do trabalho e deixara o pequeno Maicon com a vizinha, que estava cuidando das crianças enquanto as mães trabalhavam. Maicon já corria e falava, e Nita agradecia a Deus todos os dias por ele estar crescendo saudável, apesar das dificuldades da guerra.

— Zora, querida… Deixa eu…

— Eu vou sozinha, Nita, — a amiga balançou a cabeça. — Eu consigo. Vou reunir minhas forças e ler.

Nita se aproximou, abraçando-a. Enquanto Zora abria o aviso, ela lia linha por linha, e seus ombros tremiam de tanto chorar.

— Meu Petru… Meu Petru… Ele morreu, Nita. Ele não vai voltar… Ele queria viver tanto, queria construir uma casa, dizia que voltaria, que estaríamos juntos, que teríamos filhos, e agora…

Zora não conseguiu continuar, sufocando em suas próprias lágrimas. Nita apenas a abraçou enquanto seu corpo tremia. Ao lado, os pais lamentavam, chorando pela perda.

As semanas seguintes foram difíceis. Zora parecia uma boneca de pano sem sentimentos: trabalho, casa, trabalho. Sem emoção. Às vezes, ela apenas olhava para um ponto fixo, perdida em pensamentos. Ou uma lágrima deslizava silenciosamente por sua bochecha.

— Não quero viver… — sussurrou Zora quando Nita chegou a visitá-la mais uma vez. — Hoje seria o aniversário de Petru. Ele faria apenas vinte e seis anos.

— O que você está dizendo, Zora?

— E por que eu devo viver, Nita? — os olhos da amiga refletiam dor e tristeza. — Não me restou nada dele. Nem filhos. Petru era tudo, e agora ele se foi…

— Você me tem! Você é como uma irmã pra mim. Lembra como você me recebeu na plataforma? E como nos tornamos amigas rapidamente! Eu nunca fui tão próxima de minhas irmãs como sou de você. E como você me apoiou quando eu estava grávida e despedia Artur? Se não fosse por você, eu poderia ter dado à luz antes do tempo por causa das preocupações…

Zora pegou a mão de Nita e, de repente, perguntou:

— Nita, você gostaria de um chá? De frutas secas.

— Sim, Zora. Sim, — Nita assentiu e sorriu para a amiga.

— E traga o Maicon aqui. Quando ele está perto, me sinto um pouco melhor.

O RETORNO DE ARTUR. A TRISTEZA DE ZORA

Em agosto de 1945, Artur voltou para casa.

Zora estava à parte, assistindo. Observava Nita, que chorava e sorria ao mesmo tempo, abraçando seu marido e filho. Observava Artur, que segurava o pequeno Maicon nos braços enquanto acariciava a cabeça da esposa. Ela assistia e sentia como se algo dentro de sua alma estivesse chorando.

— Você teve sorte, Nita, — disse ela mais tarde, quando ficaram a sós. — Você tem o marido de volta e seu filho crescendo. E eu não tenho nada…

Nita a olhou com tristeza.

— Zora, você vai ter tudo. Você é jovem e bonita. Sua vida inteira está pela frente.

— Sei, Nita. Mas sinto que o destino me privou de felicidade ao tirar Petru de mim. E você ainda será feliz, talvez até tenha outro filho.

Naquele momento, Nita se distraiu. Não poderia ser que ela tivesse ouvido uma ponta de inveja nas palavras da amiga? Não, era impressão dela, com certeza. Zora não era do tipo que tinha inveja. E um dia ela também experimentará a felicidade.

A DOENÇA, O CUIDADO E A CRISE NA CASA 🏠

Em 1946, Nita e Artur foram para São Sebastião do Paraíso, onde foram calorosamente recebidos pelos parentes. E em 26 de julho de 1948, Nita deu à luz uma menina, a quem chamou de Daniele, em homenagem à sua irmã mais nova, que era sua favorita.

Enquanto isso, Artur trabalhava dia e noite na madeireira. O tempo era difícil: depois da guerra havia muito trabalho, mas poucos homens. Até a primavera de 1950, até que as brigadas fossem completadas com garotos jovens, Artur só ia para casa para dormir. Mas depois ficou um pouco mais fácil. Até conseguiram construir a casa em um ano. Então, um infortúnio aconteceu com Nita.

Em 1951, ela adoeceu. Pegou uma forte gripe que se transformou em pneumonia. Para piorar, não havia médicos disponíveis: o médico mais velho tinha morrido e a médica que atendia as crianças casou-se e foi embora para outra aldeia. Novos médicos ainda não haviam chegado. Nita tinha formação em enfermagem, mas não era médica.

Então, Artur decidiu levá-la para a hospital da cidade.

— E as crianças? Maicon já cresceu, mas ainda precisa de cuidados, — perguntou Nita, tossindo e enxugando a testa suada.

— E eu sou o quê? — Zora perguntou, espantada. — Nita, como você pode pensar que eu deixaria suas crianças? Como você se atreve a pensar isso?

— Zora, mas você já tem muito trabalho, precisa cuidar da brigada, sua mãe está adoentada…

— Minha mãe está com dor nas costas, isso é do trabalho pesado. Ela se passa pomadas que a dona Nura fez e melhora na hora. E na nossa equipe temos uma nova, então ela me substituirá quando necessário. Então, se cuide, Nita, e não se preocupe com a casa.

Assim, Zora começou a ir diariamente à casa de Nita. Ela cozinhava para Artur e as crianças, lavava e arrumava. Além disso, contava histórias para a pequena Daniele, e o pequeno Maicon as ouvia com prazer.

Quando Nita, já recuperada, retornou para casa, viu que suas crianças estavam limpas, bem alimentadas e saudáveis, grudadas em Zora.

— Obrigada, Zora. Não sei como te agradecer.

— Não há de quê, Nita. A coisa mais importante é que você se recuperou, — sorriu a amiga. — Você já me ajudou muitas vezes, fez injeções em minha mãe à noite quando ela estava doente…

Mas quando viu Artur, seu semblante se fechou e ela se apressou para voltar para casa.

— Zora, por que você está indo embora tão rápido? Fique conosco por mais um tempo, comprei bolinhos na cidade.

— Minha mãe melhorou, ela fez tortas hoje, então vou tomar chá em casa. Descanse. Nita, você ainda precisa de tempo para se recuperar da doença.

Zora foi para casa, e Nita ficou pensativa. Teve a impressão de que a amiga olhava para Artur de uma maneira estranha? E Artur desviava o olhar dela. Será que tinham brigado? Mas Nita não perguntou sobre nada. Compreendia que seu marido não diria nada. Ele não era do tipo que discutiria pequenas brigas e desavenças.

Zora não ia à casa de Nita quando Artur estava em casa. E se eles estivessem tomando um chá e Artur voltasse do trabalho, a amiga imediatamente se despedia.

— Você pode me dizer o que aconteceu entre você e Zora? — não aguentou Nita e decidiu abordá-lo sobre isso.

— Não aconteceu nada, por que você pensa isso?

— Justamente! Você nem olha nos olhos dela, desvia o olhar como um cachorro que fez algo errado. E ela saiu correndo assim que você voltou pra casa.

— Bom… — ele coçou a nuca. — Tivemos uma pequena briga. Eu cheguei muito bêbado. Bêbado demais, então ela começou a reclamar. Naquele dia, Zora estava colocando as crianças para dormir. Eu não me calei, e acabamos discutindo.

— Que absurdo, — Nita deu de ombros. — Por causa de algo tão trivial, você ficou bravo tanto tempo?

Mas no dia seguinte, decidiu conversar com a amiga. Apenas Zora tinha uma versão diferente. Segundo ela, Maicon havia feito travessuras, e Artur queria corrigí-lo com um cinto. E ela, Zora, se colocou entre o menino e ele e é por isso que brigaram.

A versão do marido era bem mais plausível, visto que Artur jamais agrediria crianças. E Nita não sabia em quem acreditar. O que realmente aconteceu?

— E ele também estava bêbado, e tentou corrigir Maicon com um cinto, — disse Zora. — Nita, não se preocupe, não é nada grave. Não estou com raiva de Artur, espero que ele também não esteja de mim. Eu só queria dizer que vou embora.

— Para onde?

— Para Belo Horizonte. Para ganhar dinheiro com a Oksana.

Nita se espantou. Por que trocar um lugar tão bom por desconhecido? Ela fez a pergunta.

— Quero mudar algo na vida, mesmo que temporariamente. Voltarei, mas mais tarde. Oksana ficou por dois anos em um trabalho na cantina e eu vou com ela. Quem sabe eu encontro um marido para mim lá e começo uma nova vida, — Zora suspirou.

Nita pensou. Oksana, a prima mais nova de Zora. Os pais delas foram desterrados juntos da região do Volga. Oksana se casou depois da guerra, mas não tinha filhos. E um ano antes, uma tragédia aconteceu: seu marido, Gennady, foi preso por quatro anos.

— E os seus pais? Você vai deixá-los para trás?

— Imagina, — Zora acenou com a mão. — Eles ainda são fortes, cuidarão de si mesmos. E você, se precisar, estará aqui. Eu vou ficar fora apenas por dois anos.

Nita abraçou sua amiga e assentiu. Por mais que quisesse manter Zora por perto, se ela tinha decidido, seria difícil convencê-la. Além disso, Nita sentia que estava apenas com medo de deixar a tranquila e gentil Oksana sem supervisão.

ZORA VAI EMBORA. RETORNA COM UMA CRIANÇA 👶

Zora e Oksana partiram. A vida de Nita e Artur seguiu seu curso: as crianças estavam crescendo, e os adultos trabalhando. De vez em quando, Zora escrevia cartas. Um ano e meio depois, ela voltou para casa antes do prometido, e não sozinha, mas acompanhada de uma criança.

Nita exclamou assim que viu Zora com um bebê.

— Quem é esse? Onde você o pegou? É seu? — ela a bombardeou com perguntas.

Zora sorriu e apertou o menininho contra si.

— Sim, ele é meu. Se chama Kostya.

— Mas como… Quando você conseguiu? — Nita estava assustada.

— Consegui, Nita. Não me pergunte sobre nada, tudo bem? Eu o trouxe para mim. Ele não tem pai, e nunca terá.

— Quantos meses ele tem?

— Dez… Oito meses, — corrigiu-se Zora.

E Nita percebeu que ela estava mentindo.

No caminho para casa, Nita fez as contas. O bebê parecia mais velho do que oito meses e mais robusto. Zora primeiro havia dado a idade correta. Mas, então, a princípio, ela estava grávida antes de partir.

Uma sensação incômoda começou a consumir Nita por dentro. De repente, ela lembrou como Zora e seu marido se comportaram assim que ela voltou do hospital. Como Zora parecia pensativa no mês seguinte… Não seria… Não, ela não queria pensar que seu marido e amiga poderiam ter algo. Não, isso era impensável, pois Zora era como uma irmã para ela!

— O que você está pensando? — perguntou Artur quando ela entrou em casa.

— Zora voltou, e ainda com uma criança.

— Sério? — seu marido se mostrou surpreso. — Ela casou-se?

— Não.

— E de quem é essa criança? Com quem ela se envolveu?

— Ao que parece, ela se envolveu. Mas não na cidade, e sim aqui.

Nita explicou a conversa que teve com a amiga, mas nenhum músculo se mexeu no rosto de Artur. Ele parecia apenas estar surpreso.

— Estranho, não a vi com nenhum homem.

— Eu também não vi. E, bem, essas coisas as amigas muitas vezes discutem. Se apenas…

— Se apenas o que?

— Se apenas essa criança não for do marido da amiga dela.

Artur congelou. Então, ele entendeu o significado das palavras de Nita e olhou para ela, surpreso.

— Você ficou maluca? — Artur se levantou, olhando a esposa. — Não me diga… Não me diga que ficou com Zora! Ela é como uma irmã para mim! E é viúva do meu irmão!

— Jure! Ouça, jure que não houve nada entre vocês.

— Juro que não houve nada entre eu e Zora.

Nita tentou se acalmar, mas as dúvidas a consumiam por dentro. Ela insistia em descobrir quem era o pai daquela criança, mas Zora não falava.

Mais dois meses se passaram. Kostya cresceu e começou a andar, e Nita percebeu horrorizada que ele cada vez menos se parecia com Zora. Seus olhos escuros, cabelos escuros e formato do rosto — tudo aquilo parecia muito familiar. Artur jurava que nada tinha acontecido entre eles, mas e se aquela promessa não significasse nada para ele? E agora os vizinhos começaram a cochichar.

Certa vez, tia Klara, que sempre sabia de todas as fofocas da região, se aproximou de Nita perto do poço e disse abertamente:

— Nita, você é cega ou quê? Veja esse menino. Ele é a cara do Artur! E ele e o Maicon se parecem como irmãos.

— De jeito nenhum! Que isso! É claro que temos homens morenos e de olhos castanhos por aqui. E, além disso, Zora engravidou em Belo Horizonte.

— Humm, e quem sabe Zora não está tentando te enganar? E surge um questionamento: você realmente acha que Zora apenas cuidou dos seus filhos há dois anos, ou também ficou de olho no seu marido?

— Não diga isso sobre Artur e Zora. Ela é como uma irmã para mim, e você está espalhando fofocas sujas! — Nita se irritou e, pegando o balde de água, foi para casa.

Mas logo em seguida, deixando o balde no corredor, ela se dirigiu à casa de Zora.

Ela estava sentada na varanda, alimentando Kostya com mingau. O menino estava devorando com apetite, bagunçando o rosto.

— Zora, por favor, me diga a verdade, — implorou Nita. — Diga, quem é o pai dessa criança? Estou enlouquecendo imaginando que seja do Artur.

— Nita, você está maluca?

— Não estou maluca. Não sei por que você está mentindo sobre a idade do Kostya. E naquela nossa primeira conversa, você não se confundiu? Então, você já estava grávida antes de partir. Mas de quem? Diga… É do Artur?

Zora hesitou por um momento, como se estivesse reunindo os pensamentos, então assentiu:

— Tudo bem, vou te contar de onde veio a criança. Eu não a trouxe ao mundo. Eu a encontrei debaixo da ponte onde passava todos os dias voltando do trabalho. Alguém deixou ele lá. Um bebê pequeno, enrolado em trapos. Ele estava faminto e molhado, parece que tinha acabado de nascer. O médico disse que ele tinha poucos dias. É evidente que uma jovem o abandonou. Não podia voltar para os pais com a criança, ou talvez houvesse outra razão. E eu… Não tenho ninguém e não sei se será capaz de ser mãe. Então decidi ficar com a criança. O diretor me ajudou a registrá-lo em meu nome. Nós, eu e Oksana, revezávamos o trabalho e cuidávamos dele.

Nita olhou para a amiga com espanto.

— Por que você não contou?

— Porque eu tinha medo, — Zora soluçou. — Tinha medo de que a mãe encontrasse e exigisse devolvê-lo. Já estou tão acostumada a ele, eu o amo como se fosse meu filho. Então, eu dizia a todos que era meu.

Nita ficou em silêncio. Então, colocou a mão no ombro da amiga.

— Tudo bem, — disse ela baixinho. — Eu vou guardar seu segredo. Mas não minta mais para mim, tudo bem?

Zora assentiu, enxugando as lágrimas.

O SEGREDO QUE VEIO À TONA 🔥

Seis meses se passaram.

Nita estava sentada à janela, remendando a camisa do filho. A casa estava calma: Maicon saiu para o rio com os meninos, Daniele dormia após o almoço, e Artur havia ido à aldeia vizinha ajudar um amigo a construir uma casa. Foi então que Zora entrou no pátio com o filho. Nita, colocando a costura de lado, pôs a chaleira para ferver. Elas conversaram amigavelmente, olhando para Kostya, quando, de repente, alguém bateu na porta.

— Está aberto! — gritou Nita.

A porta se abriu, e uma mulher entrou.

Era Oksana. A prima de Zora.

A mão de Zora, que segurava a xícara, imediatamente tremeu. Ela olhou para Oksana e, assustada, perguntou:

— Você aqui? Veio? Mas você queria ficar mais um ano…

— Tudo mudou. Vamos até sua casa, não é adequado falarmos na frente de outros.

Nita se surpreendeu: desde quando ela era uma estranha? Embora… com Oksana nunca haviam sido muito próximas.

Zora imediatamente pegou Kostya e seguiu sua prima para fora. Mas sua expressão era como se estivesse indo para a guilhotina. Nita não entendia nada, mas decidiu esperar até a noite e pedir que Zora lhe explicasse tudo.

Ela mal conseguiu esperar até a noite, e depois de servir o marido no jantar, apressou-se até a casa da amiga.

Assim que entrou na residência de Zora, já ouviu os pais dela discutindo com ela. Eles estavam gritando, e Nita já planejava sair para não ser testemunha da briga, quando a porta se abriu. Raíssa, mãe de Zora, estava à porta.

Ela olhou para Nita e então se virou para a filha:

— E você diga, Zorinha! Diga, que tipo de confusão você está se metendo! É melhor você contar a ela agora do que amanhã a Oksana chegar e começar a exigir dinheiro para a criança.

— Sobre o que você está falando, Raíssa? — Nita estava confusa. — Que dinheiro? Por que Oksana começaria a exigir algo a respeito de qual criança?

Zora começou a chorar, olhando para a amiga, e murmurou:

— Desculpe…

— Eu não sei pelo que estou te perdoando. Alguém me diga algo!

Zora parecia hesitar em contar algo que a angustiava. Mas sua mãe decidiu que era hora de acabar com os segredos. A verdade seria revelada.

Levando Nita para a sala, ela a sentou à mesa, serviu chá e começou a falar as palavras que quase a fizeram desmaiar.

Acontece que, enquanto Nita estava no hospital, Zora, que estava cuidando das crianças, acidentalmente descobriu que Artur estava se envolvendo com Oksana. Ambos juravam que tudo era recente — tinha acontecido apenas algumas vezes. Zora não acreditou. A amiga prometeu contar tudo a Nita, mas Artur implorou para que ela não fizesse isso e não destruísse a família. Oksana pediu a mesma coisa: dizia que se seu marido soubesse, que tinha sido preso, ele acabaria com ela e com Artur. Zora concordou em ficar calada.

Mas um mês depois, Oksana percebeu que estava grávida. Ela estava aterrorizada, pois a criança era de Artur. Então Zora teve a ideia de que Oksana daria à luz e entregaria a criança a ela. Afinal, Zora não tinha marido. Seria um filho, não um estranho. E, além disso, Oksana poderia ver a criança a qualquer momento. Como uma tia atenciosa, poderia visitar!

As irmãs foram embora da aldeia em uma forte manifestação do partido. Oksana deu à luz, e assim que desmamou, entregou a Zora. O bebê foi registrado em nome de Zora, de modo que quando o marido de Oksana saísse da prisão, ele não suspeitasse de nada.

Oksana decidiu continuar trabalhando e Zora voltou para casa e contou que estava grávida. Assim, todos acreditaram. Mas… Oksana recebeu a notícia de que seu marido havia morrido na prisão de uma infecção intestinal.

— E agora ela voltou para casa, exigindo seu filho de volta. Já que não tinha mais o marido, não precisava esconder nada. E ainda teve coragem de dizer que iria até Artur e exigir que ele a ajudasse financeiramente a cuidar da criança. Olha, essa moça tranquila, e ao mesmo tempo, causou toda essa confusão! E aquela — Raíssa apontou para Zora — a cobriu.

Nita olhou para a amiga, sentindo emoções conflitantes. Por um lado, Zora estava protegendo a família. Por outro lado, ela estava encobrindo a traição de Artur, permanecendo em silêncio por tanto tempo. E ainda inventou uma história sobre ter encontrado a criança. Uma mentira puxou a outra. Como você pode confiar em alguém assim? Protegendo Artur e Oksana, ela estava traindo a amizade deles.

Nita saiu correndo para casa, não se importando com os gritos de Zora. Artur estava sentado à mesa, fazendo algo. Dizendo a Maicon para levar Daniele para brincar, Nita armou um escândalo. Ele inicialmente se defendeu, mas depois percebeu que era inútil. Ele se desculpou, dizendo que, sim, havia algo, mas que Oksana não significava nada para ele.

— Sim, mas essa “nada” resultou em você ter um filho! Seu filho! E Oksana, se não for hoje, amanhã virá e exigirá que você a ajude financeiramente.

— Eu ajudarei, — Artur abaixou a cabeça. — Nita, eu não sabia disso. Nem Zora, nem Oksana disseram nada para mim. Eu realmente acreditava que Zora havia engravidado, pensava que você estava confusa com as datas.

— Meus filhos nunca saberão disso… — ela sussurrou.

— O que não saberão? — Artur não entendeu.

— O que aconteceu no lado de fora. O que você fez. Não saberão que você tem um filho. Não saberão que você vai até lá e ajudará, que terá que sustentar duas famílias. Não saberão, porque eu vou para São Sebastião com meus pais.

— O que você está dizendo? E eu? Como vou ficar aqui sem vocês?

— Agora você tem Oksana e Kostya.

Por mais que Artur tentasse convencê-la, Nita estava irredutível. Depois de ter colocado o marido para fora, enviando-o para onde um amigo, ela organizou tudo em uma semana e foi para Sts. Para São Sebastião do Paraíso com seus filhos.

O DIVÓRCIO E UMA NOVA VIDA EM SÃO SEBASTIÃO 🌾

Nita se divorciou de Artur. Ela não conseguia perdoar a traição. Não, se fosse apenas uma escapada, talvez ela tivesse força para desculpá-lo. Mas ele teve um filho fora — isso era um outro nível.

O divórcio demorou, durou cerca de um ano e meio. Mas finalmente foi oficializado.

Dois anos após o divórcio, Nita se juntou a um viúvo chamado Simeão, que tinha uma filha chamada Liza.

Ela não manteve contato com o ex-marido e Zora. E quando o crescidinho Maicon visitou o pai, retornou trazendo novidades: Artur finalmente se casou com Oksana. Eles tiveram outro filho, chamado Ilan. Zora deixou a aldeia seis meses após o retorno de Nita para São Sebastião do Paraíso.

E, um dia, três anos após o divórcio, Nita recebeu uma carta de Zora na casa de seus pais. Ela tinha se casado e engravidado. Junto à carta havia uma foto, onde Zora sorria, ao lado de um homem. A amiga pedia desculpas novamente. Nita respondeu a ela que perdoava, que agora tinha um marido diferente e era feliz. Também desejou felicidade a Zora.

A partir desse ponto, começaram a trocar cartas, mas só se encontraram duas vezes nos anos que se seguiram, pois estavam a três mil quilômetros uma da outra. Contudo, sempre comemoravam os aniversários uma da outra.

EPÍLOGO. CARTAS, FOTOS E PERDÃO ✉️

O segundo casamento trouxe felicidade a Nita. Simeão foi um marido fiel, e ela viveu com ele até seus oitenta e quatro anos. Embora não tivessem filhos juntos, eles criaram Maicon, Daniele e Liza com amor, assim como os filhos deles.

E essa é a história. E a lição é que, às vezes, a pessoa que parece ser mais próxima de você está tão entrelaçada em mentiras que nem ela mesma sabe como se desvencilhar. E, em outras vezes, a vida após uma traição não termina, mas recomeça — só que agora com pessoas novas e em outro lugar.

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