O Segredo do Anel6 min de lectura

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—Há uma palavra escrita dentro? A mulher mal elevou o olhar de seu copo de vinho. O restaurante estava imerso em conversas elegantes, risadas discretas e o suave som de um piano que pairava no ar. Era um dos locais mais exclusivos de Lisboa, um lugar onde os clientes chegavam em automóveis luxuosos e onde uma menina vendendo flores parecia pertencer a um mundo à parte. No entanto, algo no olhar daquela pequena a fez parar. —Qual palavra? —perguntou com um sorriso gentil. A menina observou com atenção o anel dourado em forma de rosa que adornava seu dedo. O rubi vermelho no centro brilhava sob as luzes quentes do restaurante. Depois, respondeu com total naturalidade. —Rosa-dos-ventos. O copo parou no ar. O coração da mulher deu um forte golpe contra o peito. Por um instante, o barulho do restaurante desapareceu por completo. Já não ouvia o piano. Nem as conversas. Nem o tilintar dos copos. Apenas aquela palavra ecoando em sua mente. Rosa-dos-ventos. Dezessete anos atrás, esse nome havia desaparecido de sua vida junto com alguém a quem ela amou mais do que tudo. Não era uma marca. Não era uma joia. Não era uma palavra conhecida pelo grande público. Era uma inscrição secreta gravada dentro do anel. Um detalhe familiar que apenas duas pessoas conheciam. Ela e sua irmã desaparecida. Sentiu como a garganta se fechava. Milhares de lembranças voltaram de uma só vez. As buscas intermináveis. Os detetives particulares. As ligações para hospitais. Os anúncios publicados durante anos. As pistas falsas. As noites chorando diante de fotografias antigas, perguntando-se se sua irmã ainda estava viva em algum lugar. Com a voz trêmula, inclinou-se para a pequena. —Onde está sua mãe? A menina piscou, surpresa pela mudança repentina em seu tom. —No hospital. Aquelas três palavras foram o suficiente para que os olhos da mulher se enchessem de lágrimas. —O que aconteceu com ela? —Está doente. Muito doente. Ela me pediu para vender flores esta noite para ajudar a pagar algumas medicações. A pequena abaixou o olhar para a cesta quase vazia que segurava entre as mãos. A mulher sentiu algo quebrar dentro de si. Durante dezessete anos, havia buscado respostas. Agora, uma menina desconhecida acabara de aparecer, segurando a única chave capaz de abrir todas as portas do passado. —Como você se chama? —perguntou com dificuldade. A menina abriu a boca para responder. Mas, naquele instante, algo estranho aconteceu. O barulho violento de uma cadeira arrastando-se pelo chão ecoou no restaurante. Várias pessoas viraram a cabeça. Um homem de uma mesa próxima acabara de se levantar. Rápido demais. Nervoso demais. Seu rosto estava pálido. Seus olhos permaneciam fixos na menina. E quando ela o viu, todo o sangue desapareceu de seu rosto. A mulher observou os dedos da pequena começarem a tremer ao redor da cesta de flores. Aquilo não era desconforto. Não era vergonha. Era medo. Um medo profundo. Instintivo. Como o de alguém que já aprendeu a reconhecer o perigo. —Preciso ir… —sussurrou a menina. —Espera… por favor… Mas ela já estava recuando. Um passo. Depois outro. Seus olhos continuavam fixos no homem. Finalmente, virou-se e saiu correndo em direção à porta principal do restaurante. O desconhecido reagiu imediatamente. Sem sequer olhar para a mulher, começou a segui-la. Algo dentro dela gritou que aquilo estava errado. Muito errado. Levantou-se de repente. Então, algo aconteceu que a convenceu totalmente. Enquanto o homem caminhava apressadamente em direção à saída, uma fotografia surgiu parcialmente do bolso interno de seu casaco. Foi visível apenas por um segundo. Um único segundo. Mas foi suficiente. Porque a mulher na fotografia tinha o mesmo rosto que ela havia visto em suas memórias durante dezessete anos. O mesmo cabelo escuro. O mesmo sorriso. Os mesmos olhos. Era sua irmã. A mulher sentiu as pernas quase a abandonarem. Não podia ser uma coincidência. Não depois de tantos anos. Não depois de ouvir o nome Rosa-dos-ventos. Não depois de ver aquela fotografia. Correu em direção à saída. A chuva bateu em seu rosto assim que saiu para a rua. As luzes dos automóveis refletiam faíscas sobre o pavimento molhado. Ao longe, viu a menina correr entre a multidão. E atrás dela, o homem. A pequena parecia desesperada. Olhava constantemente para trás. Como alguém que havia passado tempo demais fugindo. A mulher subiu rapidamente em seu automóvel. Manteve certa distância enquanto os seguia por várias ruas. Finalmente, observou a menina entrar em um antigo hospital público. O homem ficou parado do outro lado da rua. Permanecia observando a entrada por alguns segundos. Depois, tirou o telefone. Conversou com alguém. Sua expressão escureceu. E, finalmente, foi embora. A mulher esperou alguns minutos antes de entrar. O prédio era antigo. Frio. As paredes precisavam de pintura. As luzes piscavam em alguns corredores. Ela encontrou a menina sentada em frente a uma sala no terceiro andar. Já não tinha o sorriso gentil da vendedora de flores. Parecia apenas uma criança exausta. Uma criança que carregava um peso demais sobre os ombros. —Não queria te assustar —disse a mulher suavemente. A pequena levantou o olhar. —Por que me seguiu? —Porque preciso conhecer sua mãe. A menina hesitou durante alguns segundos. Então, apontou para a porta da sala. A mulher respirou fundo e entrou. E, naquele instante, o mundo deixou de existir. A paciente deitada na cama estava extremamente magra. Seu cabelo apresentava algumas mechas brancas prematuras. A doença deixara marcas evidentes em seu rosto. Mas, mesmo assim… ela a reconheceu imediatamente. As lágrimas começaram a descer antes que pudesse dizer uma só palavra. —Meu Deus… A mulher na cama abriu lentamente os olhos. E quando a viu, também começou a chorar. —Vitória… A voz saiu quase como um sussurro. Vitória caiu de joelhos ao lado da cama. —Elena… Dezessete anos. Dezessete anos acreditando que estava morta. Dezessete anos à sua procura. Dezessete anos perguntando-se se voltaria a vê-la algum dia. As duas irmãs se abraçaram entre lágrimas, enquanto a pequena observava sem compreender completamente o que estava acontecendo. Mas a verdade mais dolorosa ainda estava por vir. Porque enquanto Vitória segurava a mão de Elena, sua irmã reuniu forças e pronunciou algumas palavras que fizeram o medo retornar imediatamente àquela sala. —Vitória… o homem que você viu esta noite… não vai parar. Seus olhos se encheram de terror. —Porque foi ele quem destruiu minha vida… e agora sabe que finalmente me encontrou…

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