O Clube de Motociclistas que Desafiou a Lei por JustiçaA comunidade, então, se uniu para arrecadar fundos para a liberdade deles.7 min de lectura

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Um clube inteiro de motociclistas passou a noite na varanda de uma desconhecida porque a polícia se recusou a protegê-la. De manhã, todos os doze estávamos algemados. E faríamos tudo de novo amanhã.

O nome dela era Matilde. Trabalhava no turno da manhã na tasca onde tomávamos o pequeno-almoço todos os sábados. Mulher calada. Sorria quando anotava os nossos pedidos, mas o sorriso nunca chegava aos olhos. Usava sempre mangas compridas, mesmo no verão.

Nós não pensávamos muito nisso. As pessoas carregam coisas. Todos nós carregamos.

Até que um sábado, a Matilde não apareceu. A outra empregada disse que tinha ligado a dizer que estava doente. Terceira vez naquele mês.

Na semana seguinte, ela voltou. Mas trazia um hematoma no maxilar que a maquilhagem não conseguia esconder. As mãos tremiam quando nos servia o café.

O Urso, o nosso responsável pela segurança, notou primeiro. Ele é ex-militar. Lê as pessoas como a maioria lê ementas.
“Há alguma coisa errada com ela”, disse.
“Não é da nossa conta”, disse o Daniel. O Daniel era o nosso presidente. Cauteloso. Pondera.

Duas semanas depois, a Matilde deixou cair um prato de ovos na nossa mesa. Não foi o prato que chamou a nossa atenção. Foi a maneira como ela se encolheu quando se partiu. Como se estivesse a preparar-se para um golpe.

O Urso olhou para o Daniel. O Daniel olhou para o hematoma já a desvanecer no seu pulso.
“Pergunta-lhe”, disse o Daniel.

O Urso apanhou-a na caixa registadora depois da refeição. Falou baixo. Não ouvimos o que ele disse. Mas vimos o rosto dela desfazer-se.

Tudo veio aos poucos, ao longo de três bicas depois do seu turno. O ex-marido. As ameaças. A perseguição. O gato morto na soleira da porta. Pneus rasgados. Notas enfiadas por baixo da porta. Arrombanentos. As queixas na polícia que não deram em nada.

Catorze chamadas à PSP. Catorze vezes disseram que não podiam ajudar. Não podiam provar. Não podiam intervir. Disseram-lhe para obter uma ordem de restrição. Que esperasse até que ele fizesse alguma coisa.

Como se a “alguma coisa” que ela devia esperar não fosse o seu próprio funeral.

O Urso esteve calado durante tudo isto. Quando ela terminou, olhou para o Daniel.
O Daniel respirou fundo.
“Onde é que moras?”, perguntou.

Ela deu-nos a morada. Naquela noite, doze de nós fomos até à casa dela. Estacionámos no seu quintal. Montámos cadeiras de lona na sua varanda. E esperámos.

O ex-marido apareceu por volta da meia-noite. Tal como ela tinha dito que ele faria.

Ele viu as motas. O couro. Os homens sentados no escuro.

O que ele fez a seguir fez-nos ser presos a todos. Mas também pôs fim a uma situação que a polícia se recusou a resolver durante oito meses.

O nome dele era Rodrigo Pimentel. Um metro e oitenta e cinco. Corpo de ginásio. Aparência cuidada. O tipo de homem que parece um catequista ao domingo e parte móveis à terça-feira.

Estacionou a sua carrinha na rua e ficou ali com os faróis apontados para a casa. Motor a trabalhar. Só a olhar.

A Matilde estava lá dentro. Nós tínhamos-lhe dito para ficar lá. Trancar tudo. Não sair, não importa o que ouvisse.

O Daniel levantou-se da sua cadeira de lona.
“Com calma”, disse o Urso. “Deixa-o ele fazer o primeiro movimento.”

O Rodrigo ficou sentado naquela carrinha durante quinze minutos. Depois desligou o motor e saiu.

Caminhou pelo quintal. Parou a cerca de seis metros da varanda. Olhou para nós, um por um. Doze homens em coletes de couro. A maioria de nós maior do que ele. Todos a observar.
“Quem são vocês?”, disse ele.
“Amigos da Matilde”, disse o Daniel.
“A Matilde não tem amigos como vocês.”
“Tem agora.”

O Rodrigo sorriu. Aquele sorriso disse-me tudo o que eu precisava de saber sobre ele. Era o sorriso de um homem que acredita que é intocável. Que ninguém o vai responsabilizar. Que as regras não se aplicam a ele.
“Esta é a casa da minha mulher”, disse ele.
“Ex-mulher”, disse o Urso. “E tu tens uma ordem de restrição que diz que não te podes aproximar a menos de 150 metros dela.”
“E quem é que vai fazer cumprir isso? Vocês?”
“Alguém tem de o fazer. A polícia certamente não o faz.”

O sorriso do Rodrigo vacilou. Só por um segundo. Depois regressou, mais duro.
“Pensam que eu tenho medo de um bando de motards? Eu ligo já para a polícia. Digo-lhes que doze brutamontes estão a invadir a minha propriedade.”
“Não é tua propriedade”, disse o Daniel. “Mas vai em frente e liga. Nós adoraríamos falar com a polícia sobre as catorze queixas que a Matilde apresentou.”

O Rodrigo ficou a olhar para o Daniel durante um longo tempo. A rua estava silenciosa. Nem sequer se ouviam grilos.
“Não sabem com quem é que estão a lidar”, disse o Rodrigo.
“Tu também não”, disse o Urso.

Foi aí que o Rodrigo mudou. Eu já tinha visto aquilo antes. A máscara a cair. A pessoa verdadeira por baixo a emergir.

O seu rosto ficou tenso. As suas mãos fecharam-se em punhos. Deu três passos em direção à varanda.
“Matilde!”, gritou ele para a casa. “Põe estes animais fora do teu quintal senão tratarei disso eu!”
Nenhuma resposta lá de dentro.
“Matilde! Não estou para brincadeiras!”
Nada.

O Daniel desceu da varanda. Lentamente. Mãos visíveis. Sem ameaça.
“Rodrigo. Está na hora de ires para casa.”
“Não digas o meu nome. Tu não me conheces.”
“Sei o suficiente. Sei que tens andado a aterrorizar uma mulher há oito meses. Sei que deixaste um animal morto na soleira da porta dela. Sei que ficas à janela dela à noite a sussurrar o seu nome. E sei que a polícia não fez nada quanto a isso.”

O maxilar do Rodrigo estremeceu.
“Isso são tudo mentiras. Ela é doida. Inventa coisas para ter atenção.”
“Catorze queixas na polícia é muita atenção.”
“Ela é maluca. Pergunta a qualquer um.”
O Daniel abanou a cabeça lentamente. “Vai para casa, Rodrigo. Não voltes. Não passes por esta casa. Não apareças na tasca. Não digas o nome dela. Acabou.”

O Rodrigo olhou para o Daniel. Depois para o resto de nós. Depois de novo para o Daniel.
“Ou então o quê?”
“Ou nós estaremos aqui. Todas as noites. Durante o tempo que for preciso.”

Aquilo devia ter sido o fim. Qualquer pessoa racional teria entrado na sua carrinha e ido embora. Chamado um advogado. Combatido a situação de outra forma.

Mas o Rodrigo Pimentel não era racional. O Rodrigo Pimentel era o tipo de homem que tinha passado a vida inteira a controlar uma mulher, e a ideia de que tinha perdido esse controle era pior do que qualquer coisa que doze motociclistas lhe pudessem fazer.

Ele investiu contra o Daniel.

Durou cerca de oito segundos. O Rodrigo desferiu um soco que acertou no ombro do Daniel. O Daniel cambaleou para trás.

O Urso saiu da varanda antes de o punho do Rodrigo ter terminado o seu arco. Agarrou o Rodrigo por trás, imobilizou-lhe os braços. O Rodrigo se debateu. Dando pontapés. A gritar.
“Larguem-me! Eu mato-vos a todos!”

Mais dois dosMais doze mãos firmes já o seguravam no chão, e desta vez, o som dos motores que se aproximavam não era o dele.

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