Naquela manhã, quando ele abriu a lona da tenda, deparou-se com uma serpente colossal que o encarava com olhos de vingança, pronta para cobrar o preço por cada migalha que ele oferecera aos seus filhotes.1 min de lectura

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O soldado português, de nome João, estava destacado numa base militar perto de Beja. Enquanto cavava uma trincheira no limite do acampamento, deparou-se com duas pequenas cobras a sair debaixo das pedras aquecidas. Eram finas, ainda incertas, levantavam a cabeça e sibilavam ao mínimo ruído. Segundo as regras, deviam ser eliminadas de imediato: o comandante avisara que qualquer perigo junto ao pessoal seria liquidado sem hesitação. Contudo, o rapaz hesitou. Achou estranho que os bichos não fugissem, mas antes pareciam observá-lo. À noite, voltou com um pedaço de pão e atirou-o para o chão. As cobras recuaram, mas depois aproximaram-se. No dia seguinte, trouxe um pouco de carne. Tornou-se um passatempo secreto no meio da monotonia do quartel.

Em vez de eliminar os répteis, João começou a alimentá-los. Primeiro desconfiadas, logo se habituaram à sua presença. Ele sentava-se de cócoras e atirava comida, vendo-as aproximar-se cautelosamente. Com o passar dos dias, as cobras cresceram e outros espécimes juntaram-se. Ele convenceu-se de que era apenas uma coincidência.

Certa noite, decidiu resolver a situação sozinho para evitar represálias e partiu de viatura até ao sítio onde as encontrara. Quando regressou ao acampamento de madrugada, o silêncio era sepulcral. As tendas estavam manchadas de sangue e os seus camaradas jaziam sem vida: o inimigo atacara de surpresa enquanto ele estivera fora. Tinha sido salvo justamente por estar ocupado com as cobras, que o mantiveram longe dali.

Mais tarde, foi interrogado sob suspeita de traição, mas nada lhe puderam provar. AcCompreendeu então que o destino por vezes usa os caminhos mais improváveis para nos ensinar que a compaixão, mesmo a mais incompreendida, pode salvar-nos a vida.

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