Desaparecida Encontrada na NoiteAgora, ela segura minha mão com uma força que não perdoa, e eu seguro a dela de volta, prometendo nunca mais soltar.7 min de lectura

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Procurei pela minha filha desaparecida de 16 anos durante onze dias. A polícia deixou de atender as minhas chamadas há uma semana. Não tinha dormido mais de duas horas seguidas desde a manhã em que a encontrei com a cama vazia.

Na terça-feira apareceu um telemóvel descartável na minha caixa de correio. Uma mensagem. Um endereço. Uma hora. Duas da manhã. Vem sozinho.

Conduzi três horas até uma estrada secundária nos arredores de Leiria. O clube parecia uma antiga bomba de gasolina convertida. Doze Harley-Davidson estacionadas à porta. A música ecoava pelas paredes.

Entrei à espera do pior.

A Leonor estava atrás do bar. Com um top preto. O cabelo apanhado. Estava a servir uísque a um homem com uma barba grisalha e um crachá de veterano da Guerra Colonial no colete.

Ela viu-me e ficou branca.

Não pensei. Corri pela sala e agarrei-lhe o pulso. “Vamos embora. Agora mesmo.”

Ela não lutou. Apenas olhou para o homem com a barba grisalha e abanou a cabeça uma vez.

Foi então que três motociclistas se colocaram entre mim e a porta.

O maior deles levantou a mão. “Senhor, precisa de a largar e ouvir por dois minutos. Depois disso, se ainda quiser ir embora, deixamos.”

“Eu sou o pai dela.”

“Sabemos quem é. É por isso que ela está aqui.”

Ele tirou um telemódelo do bolso. Puxou um vídeo. Mostrou-mo.

Eu não queria olhar. Mas olhei.

Era um vídeo da minha filha. Filmado numa cave que não reconheci. O rosto dela estava com hematomas. O lábio estava partido.

Ela estava a nomear a pessoa que lho tinha feito.

E o nome que disse não era de um estranho. Não era um namorado. Não era alguém sobre quem a polícia alguma vez me tivesse perguntado.

Era o nome do meu próprio irmão.

Não me lembro de cair. Apenas me lembro do chão a chegar até mim.

Os meus joelhos bateram no cimento. O telemóvel escorregou-me da mão. Alguém o apanhou antes de atingir o chão.

“Não.” A palavra saiu-me torta. “Não, isso não. Isso é o Tiago. É o tio Tiago.”

O homem com a barba grisalha ajoelhou-se à minha frente. De perto, tinha olhos como os de um cão velho. Cansados, mas bondosos. O seu crachá dizia PADRE por baixo das asas da Guerra Colonial.

“Sim,” disse ele. “Nós sabemos quem ele é.”

“Ele vive na minha casa.”

“Também sabemos disso.”

Olhei para além dele. A Leonor continuava atrás do bar. Tinha as duas mãos pressionadas contra o balcão. Não olhava para mim.

Tentei levantar-me e as pernas não me obedeceram. O maior, aquele que tinha bloqueado a porta, pôs uma mão por baixo do meu braço e levantou-me como se eu não pesasse nada. O seu colete dizia TANQUE na frente.

“Calma, irmão,” disse ele. “Calma.”

Levaram-me para um banco no canto. Sentaram-me. Puseram um copo de água à minha frente. A jukebox no canto continuou a tocar uma velha canção do Amália Rodrigues como se o mundo não tivesse acabado.

O Padre sentou-se em frente a mim. Os outros dois ficaram em pé no final do banco, de braços cruzados, bloqueando a visão da sala.

“Miguel,” disse o Padre. “É esse o seu nome, certo? Miguel Almeida?”

“Como sabem isso.”

“A sua filha contou-nos. Também nos disse que não sabia. Nada disso. Precisávamos de ter a certeza disso antes de a chamarmos aqui.”

Comecei a chorar. Tenho 47 anos e sentei-me no bar de motociclistas de um estranho às duas da manhã e chorei como uma criança.

O Padre esperou.

Quando consegui respirar de novo, disse: “Há quanto tempo ela está aqui?”

“Onze dias. Entrou numa quarta-feira à tarde. Trazia uma mochila e um sapato. O outro tinha ficado para trás quando fugiu da paragem do autocarro.”

“Ela veio para cá? Porquê aqui?”

O Padre olhou por cima do ombro. O homem com a longa trança grisalha acenou uma vez. O Padre voltou-se para mim.

“Conhece o abrigo para animais na Estrada Nacional 19? Onde ela faz voluntariado aos sábados?”

“Sim. Sim, ela vai lá há dois anos. Adora.”

“Um dos nossos irmãos também faz voluntariado lá. Um homem muito velho, chamado Galo, é ele que está ali. Ele adota os cães que mais ninguém quer. Os maus, os partidos.”

O Galo ergueu o queixo na minha direção. Não sorriu. Mas também não parecia zangado.

“Há três semanas,” disse o Padre, “o Galo encontrou a sua filha atrás dos canis. Estava sentada no chão. Não chorava. Estava apenas sentada com os braços à volta de um pitbull chamado Amigo. Não queria largar.”

“Ele sentou-se ao lado dela. Não disse nada. Ao fim de uma hora, ela começou a falar. Levou mais uma hora para conseguir dizer as palavras.”

“Ele levou-a para casa nesse dia. Viu-a entrar. Depois veio direto para cá e contou-nos o que ela lhe tinha dito.”

Encostei o rosto às mãos.

“Não a trouxemos logo,” continuou o Padre. “Ela não estava pronta. Tinha de ser ela a vir ter connosco. Mas o Galo deu-lhe o endereço. Disse-lhe que se alguma vez precisasse de um lugar para ir, a porta estaria aberta.”

“Onze dias atrás, ela apareceu.”

Ergui a cabeça. “O que aconteceu? O que a fez sair nesse dia?”

O Padre apertou a mandíbula. Olhou para a Leonor. Ela ainda estava atrás do bar, mas agora observava-nos. Os olhos estavam vermelhos.

“Isso é algo que ela precisa de te dizer a ti próprio,” disse ele. “Se estiveres pronto para ouvir.”

Ela contornou o bar devagar. Como um veado a atravessar uma estrada.

Sentou-se em frente a mim, onde o Padre estivera. O Padre saiu e ficou com os outros. Perto o suficiente para nos ver, longe o suficiente para nos dar espaço.

Durante muito tempo nenhum de nós disse nada.

Então ela disse: “Tentei dizer à mãe.”

Fechei os olhos.

“Tentei duas vezes. A primeira vez tinha 14 anos. Desci as escadas depois de ele… depois daquilo. E fui à cozinha e ela estava a fazer um bolo de carne.”

“Disse: ‘Mãe, o tio Tiago toca-me.’ Assim. Seco. E ela nem sequer se virou. Continuou a misturar a carne com as mãos. E disse: ‘Leonor, o teu tio está a passar por uma fase difícil. Não comeces a inventar mentiras.'”

As minhas mãos estavam em cima da mesa. Abri-as.

“A segunda vez foi no ano passado. Entrei na casa de banho enquanto ela se maquilhava. Disse: ‘Mãe, por favor, tens de me ouvir.’ E ela baixou o batom. E virou-se. E deu-me um estalo.”

“Ela disse: ‘NUNCA mais digas isso sobre o Tiago. Entendeste? Ele é o irmão do teu pai. É família. Não vais destruir esta família com uma mentira.'”

Não consegui falar.

“Depois disso, parei de lhe contar. Parei de contar a qualquer pessoa. Apenas tentava trancar a porta do meu quarto.”

Ela olhou para as mãos.

“Na terça-feira passada ele chegou a casa mais cedo do trabalho. Tu ainda estavas na oficina. A mãe estava em casa da irmã. Eu estava no meu quarto com a porta trancada. Ele bateu. Depois ficou em silêncio. E depois ouvi-ona cozinha e voltou para cima com a coleira do Biscuit na mão, apenas a coleira, e disse que se eu não abrisse a porta, o próximo a perder a cabeça seria o nosso cão.

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