Hoje, enquanto escrevo neste diário, lembro-me do dia em que o meu mundo virou de cabeça para baixo. “A tua filha não está doente… foi a tua prometida que lhe rapou a cabeça”, disse o rapazinho da rua.
O senhor Eduardo Silva empurrava a cadeira de rodas da filha pelos caminhos do Parque da Floresta. O som das folhas secas sob as rodas parecia mais intenso do que o normal… ou talvez fosse o silêncio entre os dois que tornava tudo mais doloroso.
A Sofia, a minha menina de apenas 17 anos, já não era a mesma.
A jovem que antes corria a rir entre as árvores, agora mal conseguia manter a cabeça erguida. O seu cabelo… aquele cabelo negro, longo e brilhante que ela tanto cuidava… tinha desaparecido. A sua cabeça estava completamente rapada. Um soro pendia ao lado da cadeira, e a sua pele, pálida como papel, fazia-me sentir que a vida me escapava por entre os dedos.
— Aguenta, minha menina… — sussurrei, com a voz embargada. — Já falta pouco… já vais melhorar.
Mas nem eu próprio acreditava.
Foi então que um ruído interrompeu tudo.
Passos rápidos… descalços… desajeitados.
Um miúdo saiu a correr de entre as árvores, magro, sujo, com a roupa rasgada e os olhos cheios de medo… mas também de urgência.
Parou à nossa frente, ofegante.
E, sem pensar, soltou a frase que mudaria tudo:
— A sua filha não está doente!… — gritou —. Foi a sua noiva… ela cortou-lhe o cabelo!
O meu mundo parou.
Literalmente.
As minhas mãos crisparam-se no guião da cadeira. O coração batia-me no peito como se quisesse fugir.
— O que… o que estás a dizer, miúdo? — murmurei, quase sem conseguir falar.
A Sofia ergueu o olhar pela primeira vez em dias.
Algo… algo se acendeu nos seus olhos.
Esperança?
Medo?
Lembrança?
— Eu vi, senhor… — disse o rapaz, engolindo em seco. — Moro atrás da sua casa… escondo-me lá… e uma noite… eu vi…
Antes que pudesse terminar, uma voz cortou o ar como uma faca.
— Eduardo, não lhe faças caso!
Os saltos da Carolina bateram no chão com força enquanto se aproximava. Elegante, impecável… mas com o rosto tenso, quase desfeito.
— Esse rapaz está a mentir — disse, agarrando-me pelo braço. — De certeza que quer dinheiro. Sabes como são.
O rapaz abanou a cabeça, com lágrimas nos olhos.
— Não, senhora… eu não minto… a menina sempre foi boa para mim… a mãe dela também…
Esse nome caiu com peso.
A minha falecida esposa.
A única mulher que tinha amado verdadeiramente.
A Sofia sussurrou, fraca:
— Pai… eu… lembro-me de uma coisa…
A Carolina inclinou-se rapidamente, quase desesperada.
— Meu amor, estás confusa… são efeitos da medicação…
— Que medicação? — interrompeu o rapaz de repente.
O silêncio foi imediato.
O vento parou de soprar.
— Que médico a está a atender, senhor? — perguntou o rapaz, olhando diretamente para mim. — Porque eu ouvi a senhora ao telefone… ela disse que esse médico tem dívidas… de jogo…
Senti o chão a desaparecer sob os meus pés.
O médico…
O tratamento…
As medicações…
Tudo… tinha sido escolha da Carolina.
— Como sabes isso? — perguntei, com a voz a tremer.
— Porque eu observo… — respondeu o rapaz. — Se não o fizer… não sobrevivo.
A Carolina soltou uma risada seca, falsa.
— Por favor… Eduardo, isto é ridículo. Vamos embora.
Mas desta vez…
Eu não me mexi.
Pela primeira vez em semanas… olhei verdadeiramente para ela.
E algo não encaixava.
Demasiadas coisas não encaixavam.
— Pai… — sussurrou a Sofia, apertando a minha mão. — Eu senti… como se alguém me tocasse na cabeça uma noite…
A Carolina ficou tensa.
Só por um segundo.
Mas foi suficiente.
O rapaz deu um passo em frente.
— Não só isso, senhor… — disse em voz baixa. — Também a vi… a queimar o cabelo… no quintal… de madrugada…
O ar tornou-se pesado.
Irrespirável.
Eduardo virou lentamente a cabeça para a sua prometida.
— Carolina… — disse, muito devagar. — O que se está a passar?
Ela não respondeu de imediato.
E aquele silêncio…
Aquele pequeno, maldito silêncio…
Foi mais aterrador do que qualquer palavra.
O rapaz voltou a falar, quase sussurrando:
— Se não acredita em mim… posso mostrar-lhe onde ela guarda as coisas…
Os olhos da Carolina abriram-se apenas… mas o medo já não pôde ser escondido.
E naquele instante…
O senhor Eduardo percebeu algo que lhe gelou o sangue:
Talvez…
a sua filha nunca tivesse estado doente.
Talvez…
a estivessem a envenenar… alguém que vivia debaixo do seu próprio teto.
Mas o pior ainda não tinha vindo ao de cima.
Porque o que o rapaz sabia…
era apenas uma parte.
A mais suave.
A mais “inofensiva”.
O verdadeiro lado sombrio…
ainda estava escondido dentro daquela casa.
E estava prestes a revelar-se.
PARTE 2…
— O Segredo por Trás da Casa
O senhor Eduardo não disse mais uma única palavra.
Apenas deu meia-volta.
— Vamos para casa… agora mesmo.
A sua voz já não era a de um homem confuso. Era a de um pai… à beira de descobrir algo que poderia destruir tudo.
A Sofia respirou fundo, agarrando-se à cadeira.
O rapaz hesitou um segundo.
— Posso ir consigo, senhor?
Eduardo olhou para ele.
E acenou.
— Se estiveres a mentir… vais-te arrepender.
Mas se disseres a verdade… deverei-te a vida da minha filha.
A Carolina engoliu em seco.
— Isto é uma loucura, Eduardo… estás a perder a cabeça por causa de um vadio…
Mas ele já não a ouvia.
A casa dos Silva estava em silêncio quando chegaram.
Demasiado silêncio.
Aquele tipo de silêncio que não traz paz… apenas suspeita.
— Leva-a para a sala — disse-me Eduardo ao rapaz.
— Chamo-me Tomás… — respondeu ele em voz baixa.
— Obrigado, Tomás.
A Carolina seguiu-nos, cada vez mais pálida.
— Eduardo, por favor… vamos falar… isto não é necessário…
Mas ele já subia as escadas.
Direto ao quarto principal.
Direto ao pequeno armário branco… aquele que sempre estivera trancado.
Aquele que nunca questionara.
— A chave — disse, estendendo a mão.
A Carolina recuou.
— Deixei-a lá em baixo…
— A chave, Carolina.
Desta vez não era um pedido.
Era uma ordem.
As mãos dela tremiam enquanto tirava uma pequena chave dourada do seu colar.
O clique do cadeado soou… como um tiro.
Eduardo abriu a porta.
E o mundo… desmoronou-se.
Lá dentro havia frascos.
Pós brancos.
Seringas.
Medicamentos com etiquetas arrancadas.
E… mechas de cabelo negro.
O cabelo da Sofia.
Guardado… como se fosse um troféu.
— Meu Deus… — sussurrou Eduardo, sentindo náuseas.
Tomás empurrou a cadeira até à porta.
A Sofia viu tudo.
E um grito abafado saiu do seu peito.
—… F… foste tu que me fizeste isto…
A Carolina caiu de joelhos.
O teatro tinha terminado.
— Não… não é o que parece…
— CALA-TE! — rugiu Eduardo, com uma fúCom uma força renovada que nem ela própria sabia ter, Sofia levantou-se lentamente da sua cadeira, caminhou até à varanda onde a sua madrasta estava detida e, fitando-a nos olhos, disse com uma voz clara e firme que ecoou por toda a casa: “Agora, pai, estamos finalmente livres”.





