Aquele instante em que tudo que eu conhecia começou a ruirO menino apontou para a cicatriz em meu pulso, a mesma que minha filha tinha, e sussurrou: “Ela não cortou o próprio cabelo, ela herdou a sua dor”.6 min de lectura

Compartir:

Hoje, enquanto escrevo neste diário, lembro-me do dia em que o meu mundo virou de cabeça para baixo. “A tua filha não está doente… foi a tua prometida que lhe rapou a cabeça”, disse o rapazinho da rua.

O senhor Eduardo Silva empurrava a cadeira de rodas da filha pelos caminhos do Parque da Floresta. O som das folhas secas sob as rodas parecia mais intenso do que o normal… ou talvez fosse o silêncio entre os dois que tornava tudo mais doloroso.

A Sofia, a minha menina de apenas 17 anos, já não era a mesma.

A jovem que antes corria a rir entre as árvores, agora mal conseguia manter a cabeça erguida. O seu cabelo… aquele cabelo negro, longo e brilhante que ela tanto cuidava… tinha desaparecido. A sua cabeça estava completamente rapada. Um soro pendia ao lado da cadeira, e a sua pele, pálida como papel, fazia-me sentir que a vida me escapava por entre os dedos.

— Aguenta, minha menina… — sussurrei, com a voz embargada. — Já falta pouco… já vais melhorar.

Mas nem eu próprio acreditava.

Foi então que um ruído interrompeu tudo.

Passos rápidos… descalços… desajeitados.

Um miúdo saiu a correr de entre as árvores, magro, sujo, com a roupa rasgada e os olhos cheios de medo… mas também de urgência.

Parou à nossa frente, ofegante.

E, sem pensar, soltou a frase que mudaria tudo:

— A sua filha não está doente!… — gritou —. Foi a sua noiva… ela cortou-lhe o cabelo!

O meu mundo parou.

Literalmente.

As minhas mãos crisparam-se no guião da cadeira. O coração batia-me no peito como se quisesse fugir.

— O que… o que estás a dizer, miúdo? — murmurei, quase sem conseguir falar.

A Sofia ergueu o olhar pela primeira vez em dias.

Algo… algo se acendeu nos seus olhos.

Esperança?
Medo?
Lembrança?

— Eu vi, senhor… — disse o rapaz, engolindo em seco. — Moro atrás da sua casa… escondo-me lá… e uma noite… eu vi…

Antes que pudesse terminar, uma voz cortou o ar como uma faca.

— Eduardo, não lhe faças caso!

Os saltos da Carolina bateram no chão com força enquanto se aproximava. Elegante, impecável… mas com o rosto tenso, quase desfeito.

— Esse rapaz está a mentir — disse, agarrando-me pelo braço. — De certeza que quer dinheiro. Sabes como são.

O rapaz abanou a cabeça, com lágrimas nos olhos.

— Não, senhora… eu não minto… a menina sempre foi boa para mim… a mãe dela também…

Esse nome caiu com peso.

A minha falecida esposa.

A única mulher que tinha amado verdadeiramente.

A Sofia sussurrou, fraca:

— Pai… eu… lembro-me de uma coisa…

A Carolina inclinou-se rapidamente, quase desesperada.

— Meu amor, estás confusa… são efeitos da medicação…

— Que medicação? — interrompeu o rapaz de repente.

O silêncio foi imediato.

O vento parou de soprar.

— Que médico a está a atender, senhor? — perguntou o rapaz, olhando diretamente para mim. — Porque eu ouvi a senhora ao telefone… ela disse que esse médico tem dívidas… de jogo…

Senti o chão a desaparecer sob os meus pés.

O médico…
O tratamento…
As medicações…

Tudo… tinha sido escolha da Carolina.

— Como sabes isso? — perguntei, com a voz a tremer.

— Porque eu observo… — respondeu o rapaz. — Se não o fizer… não sobrevivo.

A Carolina soltou uma risada seca, falsa.

— Por favor… Eduardo, isto é ridículo. Vamos embora.

Mas desta vez…

Eu não me mexi.

Pela primeira vez em semanas… olhei verdadeiramente para ela.

E algo não encaixava.

Demasiadas coisas não encaixavam.

— Pai… — sussurrou a Sofia, apertando a minha mão. — Eu senti… como se alguém me tocasse na cabeça uma noite…

A Carolina ficou tensa.

Só por um segundo.

Mas foi suficiente.

O rapaz deu um passo em frente.

— Não só isso, senhor… — disse em voz baixa. — Também a vi… a queimar o cabelo… no quintal… de madrugada…

O ar tornou-se pesado.

Irrespirável.

Eduardo virou lentamente a cabeça para a sua prometida.

— Carolina… — disse, muito devagar. — O que se está a passar?

Ela não respondeu de imediato.

E aquele silêncio…

Aquele pequeno, maldito silêncio…

Foi mais aterrador do que qualquer palavra.

O rapaz voltou a falar, quase sussurrando:

— Se não acredita em mim… posso mostrar-lhe onde ela guarda as coisas…

Os olhos da Carolina abriram-se apenas… mas o medo já não pôde ser escondido.

E naquele instante…

O senhor Eduardo percebeu algo que lhe gelou o sangue:

Talvez…
a sua filha nunca tivesse estado doente.

Talvez…
a estivessem a envenenar… alguém que vivia debaixo do seu próprio teto.

Mas o pior ainda não tinha vindo ao de cima.

Porque o que o rapaz sabia…
era apenas uma parte.

A mais suave.

A mais “inofensiva”.

O verdadeiro lado sombrio…

ainda estava escondido dentro daquela casa.

E estava prestes a revelar-se.

PARTE 2…

— O Segredo por Trás da Casa

O senhor Eduardo não disse mais uma única palavra.

Apenas deu meia-volta.

— Vamos para casa… agora mesmo.

A sua voz já não era a de um homem confuso. Era a de um pai… à beira de descobrir algo que poderia destruir tudo.

A Sofia respirou fundo, agarrando-se à cadeira.

O rapaz hesitou um segundo.

— Posso ir consigo, senhor?

Eduardo olhou para ele.

E acenou.

— Se estiveres a mentir… vais-te arrepender.
Mas se disseres a verdade… deverei-te a vida da minha filha.

A Carolina engoliu em seco.

— Isto é uma loucura, Eduardo… estás a perder a cabeça por causa de um vadio…

Mas ele já não a ouvia.

A casa dos Silva estava em silêncio quando chegaram.

Demasiado silêncio.

Aquele tipo de silêncio que não traz paz… apenas suspeita.

— Leva-a para a sala — disse-me Eduardo ao rapaz.

— Chamo-me Tomás… — respondeu ele em voz baixa.

— Obrigado, Tomás.

A Carolina seguiu-nos, cada vez mais pálida.

— Eduardo, por favor… vamos falar… isto não é necessário…

Mas ele já subia as escadas.

Direto ao quarto principal.

Direto ao pequeno armário branco… aquele que sempre estivera trancado.

Aquele que nunca questionara.

— A chave — disse, estendendo a mão.

A Carolina recuou.

— Deixei-a lá em baixo…

— A chave, Carolina.

Desta vez não era um pedido.

Era uma ordem.

As mãos dela tremiam enquanto tirava uma pequena chave dourada do seu colar.

O clique do cadeado soou… como um tiro.

Eduardo abriu a porta.

E o mundo… desmoronou-se.

Lá dentro havia frascos.

Pós brancos.

Seringas.

Medicamentos com etiquetas arrancadas.

E… mechas de cabelo negro.

O cabelo da Sofia.

Guardado… como se fosse um troféu.

— Meu Deus… — sussurrou Eduardo, sentindo náuseas.

Tomás empurrou a cadeira até à porta.

A Sofia viu tudo.

E um grito abafado saiu do seu peito.

—… F… foste tu que me fizeste isto…

A Carolina caiu de joelhos.

O teatro tinha terminado.

— Não… não é o que parece…

— CALA-TE! — rugiu Eduardo, com uma fúCom uma força renovada que nem ela própria sabia ter, Sofia levantou-se lentamente da sua cadeira, caminhou até à varanda onde a sua madrasta estava detida e, fitando-a nos olhos, disse com uma voz clara e firme que ecoou por toda a casa: “Agora, pai, estamos finalmente livres”.

Leave a Comment