Aquela Voz Inesperada do Outro LadoUma risada estridente cortou a linha, seguida pelo som de um telefone sendo desligado com força.6 min de lectura

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A sala de reuniões no 42º andar da Torre Villalobos, situada no coração financeiro de Santa Fe na Cidade do México, tinha sido projetada com um único propósito: fazer com que qualquer pessoa que entrasse se sentisse insignificante. As janelas do chão ao teto ofereciam uma vista panorâmica do trânsito denso e do smog da capital, enquanto nas alturas reinava um silêncio absoluto. O ar estava saturado com o aroma de café especial, couro italiano e loções que custavam mais que o salário anual de um trabalhador médio. A imensa mesa de mogno refletia a luz fria do teto. À sua volta, estavam sentadas onze pessoas que construíram as suas carreiras projetando uma segurança implacável, mesmo quando estavam à beira do abismo.

Octávio Villalobos presidia a mesa. Aos 53 anos, com ombros largos, têmpras prateadas e um fato feito à medida em tom cinza-chumbo, ostentava aquela postura relaxada e arrogante dos herdeiros mexicanos. Parecia o tipo de homem que nunca tinha ouvido a palavra “não”. À sua volta, os executivos do Grupo Villalobos e os investidores da Capital Horizonte finalizavam os detalhes da compra da Herdade Santa Elena. O negócio vinha a ser preparado há meses. Relatórios ambientais, estudos de solos em zonas cobiçadas, subornos disfarçados de lobby e papelada suficiente para sepultar qualquer dúvida. Estavam a 48 horas de concluir a aquisição de 1200 hectares de terra fértil, prontos para se tornarem no desenvolvimento imobiliário e turístico mais exclusivo do país.

Tudo corria na perfeição até que a pesada porta de carvalho se abriu. Não foi uma entrada dramática. Simplesmente apareceu Diego, um jovem guarda de segurança privada, com o rosto pálido e suado, procurando desesperadamente o olhar de Renata, a assistente executiva de Octávio. Renata saiu para o corredor. Segundos depois, voltou com uma expressão de incerteza que rompia a sua impecável fachada profissional. Aproximou-se de Octávio e sussurrou-lhe ao ouvido. Uma senhora de idade tinha entrado desde a rua exigindo falar com ele. Os guardas tentaram tirá-la, mas ela agarrou-se aos torniquetes, avisando que o assunto envolvia as terras de Santa Elena.

Octávio ergueu uma sobrancelha, quase divertido com a insolência. “Que tipo de mulher?”, perguntou em voz alta. Renata engoliu em seco. “Uma senhora idosa, sozinha. De aspeto muito humilde, senhor”. Marcelo, o banqueiro principal, olhou para o seu relógio com fastio. Mas Octávio sorriu, mostrando os seus dentes brancos perfeitos. “Deixem-na passar”, ordenou. Queria um pouco de entretenimento antes de assinar o cheque da sua vida.

A porta abriu-se novamente. Entrou com passos lentos mas inquebrantáveis. Era uma mulher de cerca de 71 anos, de pele morena, com sulcos profundos no rosto que denunciavam décadas de sol e dor. Trazia um casaco negro desgastado por inúmeros invernos, sapatos rachados e um xaile tradicional escuro cuidadosamente arrumado sobre os seus ombros. No seu braço direito, segurava uma velha bolsa de pano daquelas que se usam para ir ao mercado. Não encaixava naquele santuário de vidro e soberba, e precisamente por isso, todos cravaram os seus olhos nela.

Parou a poucos metros da cabeceira da mesa, cravando o seu olhar diretamente em Octávio.

—Senhor Villalobos —disse. A sua voz era baixa, mas ressoou com uma firmeza que cortou o ar condicionado—. Sou Elena Bautista.

—Dona Elena —respondeu Octávio, recostando-se na sua cadeira de couro e cruzando os braços, a saborear o teatro—. Em que posso servi-la nesta bela manhã? Vem vender artesanatos?

—Venho para impedir a compra da Herdade Santa Elena —sentenciou ela sem pestanejar—. Esses 1200 hectares que está prestes a roubar. O senhor não pode avançar. Essa zona nunca esteve legalmente disponível para venda.

Uma gargalhada coletiva brotou na sala. Os executivos olharam-se com troça. Leandro, o diretor legal do grupo, juntou as mãos sobre a mesa e falou-lhe como se fosse uma criança pequena. “Senhora, com todo o respeito, todo o historial da propriedade foi avalado pelas melhores notárias da cidade. Não há erros”.

—Registos corruptos —corrigiu Elena, sem alterar o volume da sua voz—. A escritura original de 1961 contém uma cláusula de reversão no pacto territorial. As condições nunca foram encerradas. A transferência de 1987 foi uma fraude armada com assinaturas falsificadas e testas-de-ferro.

A sala ficou em silêncio por um instante. Não por acreditarem nela, mas porque a precisão dos seus dados técnicos era arrepiante vindo de alguém com o seu aspeto. Octávio inclinou-se para a frente, perdendo um pouco o sorriso. “Temos um exército de advogados, senhora. Se houvesse alguma coisa, eles a teriam encontrado”. Abriu as mãos num gesto de falso desamparo. “Ligue a quem quiser, se quiser reclamar. Ligue ao presidente, ao Papa. Garanto-lhe, isso não vai mudar absolutamente nada”.

As risadas educadas e cruéis voltaram a encher a sala. Elena permaneceu estoica. Esperou que o eco das troças se apagasse. Então, meteu a sua mão endurecida na bolsa de mercado, tirou um telemóvel velho, com teclas gastas, marcou um número de memória e carregou no botão de chamada.

A sala observava-a com escárnio, à espera da piada final. Mas ninguém imaginava quem ia atender. Ninguém podia antecipar a tempestade perfeita que acabava de ser desencadeada. Não vão acreditar no que está prestes a acontecer…

O telefone tocou 1, 2, 3 vezes em alta-voz. A atmosfera na sala tinha-se relaxado novamente. Octávio girou a sua cadeira, pronto para ordenar à segurança que escoltassem a senhora para fora do edifício, dando por terminada a obra de teatro comunitária. Mas no canto mais afastado da mesa, o doutor Anselmo Prado, um consultor de 74 anos com 4 décadas de experiência em direito imobiliário corporativo, sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias. A sua mão, que segurava uma caneta tinteiro de ouro, paralisou. O apelido Bautista tinha detonado uma memória obscura e profundamente enterrada na sua mente.

Ao quarto toque, alguém atendeu. Elena levou o velho aparelho à orelha. A sua postura manteve-se rígida, mas a sua voz adotou um tom quente, quase maternal, contrastando brutalmente com a frieza dos executivos.

—Filho, é o dia. Estão prestes a assinar —disse Elena em voz baixa. Ouviu a resposta do outro lado da linha, assentiu ligeiramente e acrescentou: —Sim, ele está aqui.

Gustavo, o diretor de aquisições, inclinou-se para Marcelo e murmurou uma piada classista que provocou uma nova ronda de risadas abafadas. Octávio, já a perder a paciência, ergueu a voz o suficiente para impor autoridade. “Quem é, senhora? O governador? O procurador?”.

Elena não respondeu de imediato. Baixou o telefone da sua orelha, olhou para Octávio nos olhos e, com uma calma que paralisava, estendeu-lhe o dispositivo através da imensa mesa de mogno.

—Atenda —ordenou ela.

Octávio soltou uma risada nasal. Levantou-se com pachorra, ajeitando os botões do casaco, e caminhou até ela como quem se aproximaEle tomou o telefone, mas a voz do outro lado não era de qualquer autoridade convencional, e sim da justiça que ele pensava ter comprado há muito tempo.

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