A Voz no Provador Antes do CasamentoMinha mão encontrou um envelope fino escondido sob o banco.6 min de lectura

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Chamo-me Tomás Silva, tenho setenta e dois anos e julgava que já nada podia partir-me.

Nasci num quarto de chapa na Amadora, fui pedreiro antes de empresário, carguei sacos de cimento com as mãos a sangrar, e com essas mesmas mãos ergui uma construtora que se tornou uma das firmas imobiliárias mais importantes de Lisboa.

Mas nada disso importava tanto como a Sofia.

A minha filha.

A minha única filha.

Desde que a mãe morreu, quando a Sofia tinha apenas seis anos, ela tornou-se a minha razão para respirar. Dei-lhe colégios privados, viagens, casa, carro, segurança. Se me pedisse a lua, eu arranjaria uma escada.

Por isso, quando me disse:

—Pai, tens que estar perfeito no meu casamento.

Eu obedeci.

Fui buscar um fato feito à medida na boutique da Dona Maria, uma velha amiga que alugava uma das minhas lojas no Chiado. O fato custava uma fortuna, seda italiana, botões de madre-pérola, corte impecável. Eu nunca teria gastado tanto em mim, mas a Sofia queria ver-me elegante ao entregá-la no altar.

Ao entrar, o sino da porta soou suavemente.

Dona Maria ergueu o olhar e ficou pálida.

—Senhor Tomás… chegou cedo demais —sussurrou.

—Só um bocadinho. Que se passa? Parece que viu o diabo.

Ela olhou para a rua, depois para mim. De repente saiu de trás do balcão, agarrou-me pelo braço e empurrou-me para os provadores.

—Esconda-se. Rápido.

—O que está a fazer, Maria?

—O Jorge vem com a Sofia. Eles acham que eu saí para almoçar. O senhor tem que ouvir.

O sorriso morreu-me no rosto.

Meteu-me no último provador e fechou a cortina de veludo. Mal havia uma fresta. Senti-me ridículo. Eu, Tomás Silva, um homem que negociara com bancos, sindicatos e ministros, escondido como um miúdo traquinas.

Então soou o sino.

—Afinal a velha saiu —disse uma voz masculina.

Era o Jorge, o meu futuro genro. À minha frente falava sempre com respeito, quase humildade. Agora soava arrogante, frio.

—Tens a certeza que o meu pai não está? —perguntou a Sofia.

A minha Sofia.

—Calma, amor. Temos vinte minutos.

Ouvi passos. Pararam em frente do meu provador.

—Já conseguiste que o velho assine a procuração notarial? —perguntou o Jorge.

Senti que o ar desaparecia.

—Ainda não —respondeu a Sofia, irritada—. Diz que quer que o advogado dele revise.

—Tens que pressioná-lo. Depois do casamento liquidamos a construtora, vendemos os terrenos e vamos para França. São milhões, Sofia.

—E o meu pai?

Por um segundo, o meu coração quis acreditar.

O Jorge riu-se.

—O teu pai tem setenta e dois anos. Declaramo-lo mentalmente incapaz. Conheço um médico que assina o que for. Depois metemo-lo num lar barato. Em seis meses ninguém se lembra dele.

Esperei que a Sofia gritasse, que lhe desse uma bofetada, que dissesse: “É o meu pai!”

Mas ela apenas suspirou.

—Está bem. Mas não quero cuidar dele. Deprime-me. Já estou cansada de fazer de filha obediente.

Senti algo partir-se dentro de mim.

A menina que eu carregara com febre, a que dormia abraçada à minha camisa quando sentia falta da mãe, a que eu amara mais que a minha própria vida… queria vender-me como se fosse um móvel velho.

Dei um passo em direção à cortina, pronto para sair e gritar-lhes na cara. Mas a Dona Maria apareceu, agarrou-me o pulso com força e abanou a cabeça. Num caderno escreveu:

“Se sair agora, vão dizer que está louco. Espere. Junte provas.”

Tinha razão.

Engoli a minha raiva.

E naquele provador morreu o pai ingénuo.

O homem que saiu vinte minutos depois já não era um pai emocionado com um casamento. Era um velho construtor a preparar uma demolição.

Liguei ao Joaquim Salgado, um investigador privado que conhecia desde os meus anos difíceis.

—Quero tudo sobre o Jorge Matos —disse—. Dívidas, amantes, empresas falsas, inimigos. Tudo. Para amanhã.

—Está assim tão grave?

Olhei para o fato de cerimónia pendurado à minha frente.

—Pior. A minha filha está prestes a casar-se com um lobo.

PARTE 2: O VENENO NO CAFÉ

O Joaquim marcou encontro para o dia seguinte num escritório velho perto de Campo de Ourique. Sobre a sua mesa havia fotos, extratos bancários e uma pasta grossa.

—Tomás, senta-te.

Não me sentei.

—Fala.

—A empresa tecnológica do Jorge não existe. É uma caixa de correio no Porto. Deve quase dez milhões de euros a agiotas perigosos. E isso não é o pior.

Tirou uma fotografia tirada de noite. O Jorge aparecia num beco a entregar dinheiro a um homem de bata.

—Esse é o Doutor Costa. Perdeu a licença por vender medicamentos controlados. O Jorge comprou-lhe uma substância que pode provocar uma falha cardíaca. Num homem da tua idade pareceria morte natural.

Fiquei a olhar para a foto.

Lembrei-me da noite anterior, quando o Jorge me serviu vinho com demasiada insistência.

Lembrei-me do seu sorriso.

Não me queria mandar para o lar.

Queria enterrar-me.

—Vamos à polícia —disse o Joaquim.

—Ainda não.

—Tomás…

—Se o prenderem hoje, a Sofia vai pensar que o fiz por despeito. Preciso que ela o veja com os próprios olhos.

Naquela manhã, ao voltar a casa, o Jorge estava na minha cozinha a preparar café.

—Bom dia, pai —disse com um sorriso perfeito—. Fiz-te a tua mistura favorita.

A chávena fumegava à minha frente.

O café cheirava forte, delicioso, mortal.

O Jorge não pestanejava. Esperava.

Agarrei na chávena com a mão trémula. Fingi sentir-me zonzo.

—Acho que… não me sinto bem.

A chávena caiu no chão e partiu-se. O café manchou a carpeta como sangue escuro.

Por um instante, o Jorge perdeu a máscara. Vi fúria pura no seu rosto.

—Não faz mal —disse apertando os dentes—. Faço outro.

Entrou o Capitão, o meu velho cão rafeiro, abanando a cauda. Antes que eu o pudesse impedir, lambeu o café derramado.

—Capitão, não!

Afastei-o, mas já era tarde.

Cinco minutos depois caiu de lado, a convulsionar.

Agarrei-o nos braços e saí a correr. Na clínica veterinária confirmaram o que eu já sabia: intoxicação por uma substância cardíaca.

O Capitão sobreviveu por milagre.

Eu chorei sentado numa cadeira de plástico, com as mãos manchadas de saliva e medo. Se eu tivesse bebido aquele café, a Sofia teria enterrado o seu pai dois dias antes do seu casamento.

Naquela noite, o Joaquim conseguiu uma gravação. O Jorge falava ao telefone com uma mulher chamada Verónica.

—O velho está quase a cair —dizia ele—. Depois do casamento liquido tudo e mando-te o dinheiro.

—E a noiva?

O Jorge soltou uma risada cruel.

—A Sofia é fácil. Está obcecada comigo. Se der problemas, tenho vídeos íntimos filmados sem ela saber. Destruo-a nas redes e pronto.

Senti raiva, mas não por mim.

Pela Sofia.

Sim, ela tinha-me traído. Sim, tinha sido egoísta, ambiciosa, cega. Mas também era uma vítima deEla sentou-se, e enquanto o pôr-do-sol pintava o Tejo de ouro, começámos a falar do futuro, não para apagar o passado, mas para aprender a viver com as suas cicatrizes.

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