A Mancha de um Segredo no InteriorAgora, aquela palavra cortante era um peso que eu carregava sozinha, enquanto os olhos deles sussurravam histórias que nunca ouviram.6 min de lectura

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Toda a gente na aldeia de São Brás de Alportel conhecia Zulmira pelo seu estigma. Não por maldade, mas por causa do velho hábito de etiquetar tudo o que se afastava do destino comum e monótono. Tudo aconteceu há muito tempo, quando ela acabara de entrar no nono ano. Um homem já de meia-idade, um negociante de madeira chamado Hermínio, começou a aparecer por aquelas bandas – um tipo da cidade, cheio de pose, com um anel de ouro no dedo mindinho e modos de gato bem alimentado. Ele reparou na Zulmira, magrinha e de olhos negros, na paragem do autocarro e, uma semana depois, levou-a para um armazém de alfaias agrícolas abandonado, na periferia da aldeia, cheio de ervas daninhas, prometendo-lhe um cachorro de raça rara. A verdade veio ao de cima depressa, e o pai dela, Inácio, inicialmente exigiu justiça com fúria. Mas o Hermínio apareceu três dias depois num “Land Cruiser” novinho, da cor do alcatrão molhado, e após meia hora de conversa atrás do portão bem fechado, o pai saiu, desviando o olhar, e a mãe, Teodora, silenciosamente aceitou as chaves e os papéis do negociante. A queixa foi retirada na polícia, o assunto abafado, e Zulmira ficou irreconhecível. Parou de ir às aulas, fechou-se no seu mundo e acabou o secundário como aluna externa, fazendo os exames à frente de uma comissão como se fosse uma ladra a roubar o seu próprio diploma.

Aquele dia, Zulmira decidiu enterrá-lo no fundo mais profundo da sua memória. O que foi, foi. Mas a partir daí, o mundo partiu-se em dois para ela: os que sabiam e desprezavam, e os que sabiam e tinham pena. E os primeiros eram a grande maioria. Ela passou a odiar a casa dos pais de um modo especial – todas as manhãs, ver aquele jipe brilhante pela janela era uma tortura insuportável. Inácio, pelo contrário, apaixonou-se por aquele carro de um modo doentio, até lhe tremerem as mãos, polia-o até ficar a brilhar, guardava-o na garagem, protegendo-o da chuva como se fosse uma vaca sagrada. A mãe aprendeu a viver com isso em silêncio, desviando o olhar da filha durante o jantar, justificando-se com mil pequenas tarefas domésticas.

Zulmira percebeu cedo que o único escape daquela casa era o casamento. E aceitou a proposta do primeiro homem que lhe pediu. Foi Pedro Valente, um vizinho dali a duas casas, que tinha acabado de regressar de uma longa empreitada nos cortes de madeira do norte. Era catorze anos mais velho, taciturno, com uma cicatriz profunda na sobrancelha esquerda e um jeito estranho e silencioso de olhar para ela – não com desejo, mas com uma espécie de avaliação prática. Pedro quase não bebia, trabalhava muito com as mãos e, de manhã, quando o nevoeiro ainda pairava sobre São Brás, saía com as canas de pesca para o rio Alcobaça. Trazia sempre peixe, sempre a mesma coisa – três ou quatro escalos prateados, que limpava logo na margem. Zulmira fritava-os numa frigideira de ferro, com sal grosso e endro seco esmagado por cima. A vida decorria de forma monótona e insípida, como a água parada do Alcobaça, mas, pelo menos, era só dela. Pedro quase não falava com ela, só às vezes pedia que lhe desse um herdeiro, e nesses momentos a voz dele quase parecia suplicante, até lamurienta. E ainda estava a construir um alpendre no quintal, com rendas de madeira e figuras de pássaros no frontão, e não deixava ninguém lá entrar.

E depois Pedro desapareceu. Simplesmente não voltou da pescaria. Toda a aldeia andou à sua procura durante três dias, vasculhando os caniços e os remansos fundos onde a água fria das nascentes borbulhava. Chamaram mergulhadores da capital de distrito. No quarto dia, umas crianças da terra encontraram o corpo – a correnteza tinha-o arrastado para uma antiga represa de moinho e emaranhado entre paus e troncos. Zulmira sentiu algo que, mais tarde, não se conseguiu perdoar durante muito tempo: um enorme alívio misturado com horror. Não chorou. Ficou na orla do bosque, onde a aldeia inteira se juntara, a ver o corpo a ser carregado para a ambulância, e sentiu como se uma corda esticada, que a mantivera em tensão todos aqueles anos, se partisse dentro dela. Agora, ficava-lhe a casa do Pedro – sólida, com telhado novo, com o alpendre por acabar, com um pomar de macieiras com raízes fundas na terra fértil de São Brás. E, sobretudo, uma cerca própria, que a separava, ainda que simbolicamente, da casa dos pais, do outro lado do beco.

O problema veio de onde ela menos esperava. Os pais, Inácio e Teodora, pareciam ter estado à espera da morte do genro para retomar o controlo. Primeiro, a mãe começou a aparecer sem bater, trazendo ora um alguidar de leite, ora uma torta de couves. Depois, o Inácio pôs-se a arranjar o portão, que já estava bom, demorando-se no quintal e a observar a propriedade.

“Volta para casa, Zulmira”, disse ele uma tarde, junto à cancela, limpando as mãos já limpas com um trapo. “Para quê andares aí sozinha? A casa está vazia, e o Egas com a Marina vão ter mais uma criança.”

O irmão Egas casara-se três anos antes com uma rapariga da vila de Pinhais, e ela estava mesmo para dar à luz de um dia para o outro. Na metade apertada da casa dos pais, os jovens não teriam espaço, e toda a gente, incluindo a família da Marina, já achava que libertar a casa do Pedro era o sagrado dever de Zulmira. Diziam: “Para que é que uma viúva sem filhos precisa de uma mansão?”. Zulmira ouvia isto, com os lábios apertados, e calava-se. Ela não tinha intenção de voltar a viver debaixo do mesmo tecto daqueles que lhe tinham vendido a infância por um jipe japonês. Mesmo que tivesse que tapar as janelas com tábuas e viver no celeiro.

“És uma egoísta!”, gritou a mãe por cima da vedação na manhã seguinte, quando Zulmira se recusou outra vez a discutir a mudança. “Deus castigou-te, agora sofre sozinha! Alma de Judas!”

Zulmira trancou todas as portas e sentou-se na sala vazia, a ouvir o vento cantar nos fios eléctricos. Por vezes, falava com o alpendre inacabado do Pedro, como se este lhe pudesse responder. Parecia-lhe que os pássaros no frontão ganhavam vida no crepúsculo.

O encontro que mudou tudo deu-se no início de Setembro, quando o ar em São Brás fica transparente e vibrante, como o primeiro gelo. Zulmira vinha do mercearia da vila, curvada sob o peso dos sacos com farinha, trigo-sarraceno e óleo de girassol. Agora trabalhava na queijaria local – lavava as cubas e as formas, ganhava pouco, mas chegava para viver. No dia do ordenado, fazia sempre compras a valer, e o caminho desde a loja até casa, a serpentear pela velha torre de vigia de incêndios, parecia-lhe a caminhada para o Calvário. Ouviu-se um ronco de motor atrás dela e Zulmira encostou-se instintivamente ao passeio, à espera de ver o “Land Cruiser” do pai.Mas era um velho “UMM” da cor de caqui desbotado, e da janela inclinava-se um homem—magro, com orelhas de abano, vestindo uma camisa às riscas descolorida.

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