A jovem enfermeira que mudou tudo: o retorno do marido e o mistério da amiga ausente28 min de lectura

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1940. A estação ferroviária estava cheia de gente, e Ana olhava ao redor, confusa. Nove, ela tinha apenas dezenove anos, recém-formada na Escola de Enfermagem de Lisboa, e recebia sua primeira colocação em uma pequena aldeia de Alentejo, perto de Sines. O destino não era dos mais sonhados, mas Ana não se deixava abater. Em sua cidade natal, na tranquila aldeia de Alvito, a vida era aconchegante e acolhedora, mas o desejo de autonomia a levava a buscar novos horizontes. E onde encontrar essa liberdade a não ser longe de casa?

— Com licença, você está à procura de alguém?

Ana virou-se e encontrou uma jovem de estatura baixa, com cabelos escuros soltos e um sorriso caloroso que imediatamente a fez relaxar.

— Sou enfermeira, estou aqui por causa da minha colocação. Devem ter me enviado alguém para me buscar…

— Sim, sou eu! Meu nome é Zita. Passei a manhã inteira me deslocando de carroça por você!

Ana sorriu e se apresentou, e juntas foram em direção à carroça que aguardava atrás da estação. Assim que partiram, Zita começou a falar sem parar:

— Não se assuste com nossa maneira de viver aqui. Tudo é simples, nada a ver com a grande cidade.

— Eu não sou da cidade — riu Ana. — Vim de uma aldeia. Estudei apenas em Lisboa.

— Sério? — Zita virou-se, os olhos brilhando. — Pensei que você fosse uma daquelas moças chiques da cidade.

— A culpa é do meu pai, que quis me embelezar antes de me apresentar ao mundo — respondeu Ana com um sorriso.

— Ah, entendo. Então você é uma daquelas camponesas. Fico feliz. Eu estava com medo de que mandassem uma dama que se enchesse de frescuras e não conseguisse cortar lenha ou acender o fogo.

— Eu sei fazer isso. Meu pai me ensinou — Ana riu, aliviada.

A pequena aldeia se mostrou ainda mais modesta do que Ana esperava. A aldeia se formando ao redor de uma serralharia, onde se ouviam sons altos de machados cortando madeira e árvores tombando.

— Você é daqui? — perguntou Ana.

— Sou. Mas vamos falar no “tu”, aqui não usamos esse formalismo.

— Está bem. Então pode me chamar de Ana, é como me sinto mais à vontade. Há quanto tempo você mora aqui?

— Desde a desapossamento das terras — Zita encolheu os ombros. — Minha família foi mandada para cá. Meus pais, meu tio e minha tia. Tive um irmão, Tiago, que faleceu no caminho. Mas tenho uma prima, a Lúcia, que agora tem treze, e eu acabei de completar vinte.

— Fez aniversário recentemente?

— O que significa “recentemente”? Desapossaram a gente?

Ana assentiu.

— Em 1929. Meu pai não quis se juntar ao coletivismo. No começo, a aldeia tinha apenas oitenta casas, mas agora, ouvi dizer que já passam de mil pessoas. Muitos são enviados e outros vêm trabalhar. Estamos nos estabelecendo aos poucos.

— E você, o que faz?

— Cozinheira na cantina da serralharia.

— E como você acabou vindo me buscar? — perguntou Ana, surpresa.

— Não vê os sacos? — Zita gargalhou. — É sal, açúcar e arroz para a cozinha. Fui buscar na estação e me mandaram te pegar.

— Entendi. Mas você carrega os sacos sozinha?

— Claro que não! — Zita revirou os olhos. — Para isso temos os carregadores.

Ao chegarem a um extenso edifício de madeira, com a pintura descascando, Zita disse:

— Aqui é o seu novo lar. Pode não ser muito, mas é só seu. Organize-se. O médico chegará em breve, e você poderá conhecê-lo, ele também lhe mostrará onde irá trabalhar. Eu preciso ir agora, meu Pedro está me esperando.

— Pedro? — Ana sorriu. — Seu namorado?

— Sim, espero que ele se atreva a me pedir em casamento — Zita lançou um olhar divertido para Ana.

Assim começou a amizade delas.

Ana começou a trabalhar no pequeno hospital local, que funcionava em uma cabana de madeira. Havia dois médicos, um atendia crianças e outro, adultos. Também havia uma parteira mais velha que ajudava nos partos. Antes da chegada de Ana, apenas duas enfermeiras cuidavam da aldeia e arredores, e a comunidade carecia de mão de obra.

Zita trabalhava na cantina da serralharia, cuidando dos operários. Ela morava perto do alojamento e frequentemente passava à noite na casa de Ana, às vezes trazendo leite da vaca que a família de Zita tinha adquirido há três anos.

Elas podiam conversar por horas. Ana falava sobre Alentejo — sobre os vastos campos, a colheita de uvas, sobre a abundância de frutas nas árvores. Zita escutava e suspirava.

— E nossa terra é árida — dizia ela. — Turfa, charcos. E os invernos são longos. Quando cheguei aqui, achei que não sobreviveria. Mas conseguimos. Meu pai virou um dos chefes de uma das brigadas, e minha mãe costura bem, assim vamos sobrevivendo.

— Meu pai é agricultor. Trabalha numa quinta, entrou nela logo no começo. Minha mãe não trabalha, somos seis filhos, e ela cuida de todos — disse Ana.

— É mesmo? E no nosso tempo, é possível não trabalhar? — perguntou Zita, intrigada.

— Parece que sim. Nunca parei para pensar porque minha mãe não está na quinta — respondeu Ana.

— E você não tem namorado lá?

— Não — Ana balançou a cabeça. — Tinha, mas foi para o exército e acabou se envolvendo com outra. Ah, não quero nem falar sobre isso.

— Ana, que tal eu te apresentar ao irmão do Pedro? Chama-se Miguel. Ele é artesão, sabe trabalhar bem com madeira e é bonito, como meu Pedro. Um par de irmãos.

Ana ficou envergonhada.

— Não, obrigada. Acabei de chegar, nem me estabeleci ainda, e já estou saindo com rapazes?

— E qual é o problema nisso? — perguntou Zita, surpresa. — Como dizia minha mãe, a vida é jovem. Além do mais, o Miguel já perguntou muito sobre você. Ele próprio pediu para ser apresentado.

Duas semanas se passaram. Os pais de Zita foram a um casamento em uma aldeia vizinha, e ela convidou Ana para sua casa. E pediu que Ana se arrumasse bem. Ana fez o que lhe pediram: vestiu um vestido que guardava para uma ocasião especial, prendeu o cabelo e calçou sapatos bonitos.

A noite correu rapidamente. Elas mal perceberam o tempo passar. Miguel era muito comunicativo quando o assunto era trabalho — como cortam a madeira, como constroem novas oficinas. Mas falou pouco de si mesmo. Pedro, o irmão, era barulhento e alegre, sempre abraçando Zita e sussurrando algo em seu ouvido.

Quando a noite chegou ao fim, Miguel se ofereceu para levar Ana ao alojamento.

Na porta, ele pediu:

— Venha amanhã na casa da Zita. Nós dois prometemos ajudar seu pai a construir um galinheiro.

— Estarei lá, até porque a Zita também me chamou — respondeu Ana, sorrindo.

E foi. Depois, se encontraram para passear pela aldeia, caminharam até a beira do rio que passava atrás da serralharia, e juntos foram a danças organizadas pela gente da aldeia.

O amor entre Ana e Miguel crescia rapidamente, de tal forma que no outono eles se casaram, junto com Zita e Pedro. Lamentavelmente, naquele dia especial, apenas o irmão e a irmã de Ana puderam comparecer, mas trouxeram presentes de seus pais. Miguel prometeu que no próximo ano eles iriam a Alentejo para que pudesse conhecer os pais de Ana.

Após o casamento, Ana e Miguel moraram no alojamento, enquanto Zita e Pedro viviam na casa dela. Os meninos não tinham um lar para si, moravam em um barracão para trabalhadores. Ambos eram órfãos, tinham chegado após o curso profissional e se adaptaram. Agora, casados, sonhavam em construir uma casa grande com dois entradas, para viverem próximos um do outro.

Porém, todos os planos dos jovens foram interrompidos — em menos de um ano, a guerra começou.

A GUERRA. A NOTÍCIA DE MORTE 🕯️

Em junho de 1941, Miguel e Pedro foram para o front junto com outros homens da aldeia. Ana estava grávida de sete meses e atormentada. Se não fosse pela ajuda de Zita, possivelmente teria dado à luz antes do tempo. Mas sua amiga sempre estava ao seu lado, oferecendo apoio incondicional.

No dia 12 de agosto de 1941, Ana deu à luz um menino, a quem chamou de Mateus, e imediatamente escreveu para Miguel. Para que essa batalha fosse mais amena, para que soubesse que em casa o esperavam não apenas sua esposa, mas também seu filho.

Ela não contava a Zita sobre o medo que sentia. Que todas as noites acordava com gritos e sonhava com Miguel — ferido, na neve, e não conseguia alcançá-lo. Ela rezava fervorosamente, sussurrando as palavras que a mãe lhe ensinara.

Em 1944, durante um profundo outono, Zita recebeu a notificação da morte de Pedro. Ela segurava a carta, incapaz de ler. Pensou que se não lesse aquelas palavras terríveis, tudo permaneceria inalterado. Pedro estava lutando e, um dia, certamente voltaria para casa. Ela ainda ouviria sua risada e sentiria o calor de seus braços. Ele a abraçaria e sussurraria palavras carinhosas em seu ouvido…

Ana estava com ela naquele dia. Chegou mais cedo do trabalho, deixou Mateus, que já tinha três anos, com a vizinha que cuidava das crianças enquanto as mães trabalhavam. Mateus já corria alegre, falava, e Ana era grata a Deus por ele crescer saudável, apesar das dificuldades da guerra.

— Zita, querida… Deixa eu…

— Eu mesma, Ana — Zita balançou a cabeça. — Preciso me controlar e ler.

Ana sentou ao seu lado, abraçou-a. Zita, por sua vez, desenrolou a notificação e leu linha por linha, seus ombros tremiam de tanto chorar.

— Meu Pedro… Meu Pedro… Ele morreu, Ana. Ele não voltará… Ele queria tanto viver, tanto construir uma casa, ele me prometeu que voltaria, que teríamos filhos, e agora…

Zita não conseguia mais continuar, engasgando-se com as lágrimas. Ana a abraçava, sentindo todo seu corpo tremer. Enquanto os pais de Zita lamentavam, se despedia do genro.

As semanas seguintes foram muito difíceis. Zita parecia uma boneca de pano sem sentimentos: trabalho, casa, trabalho. Era vazia. Às vezes, olhava para um ponto fixo e ficava ali parada. Outras, uma única lágrima escorria silenciosamente por seu rosto.

— Não tenho vontade de viver… — sussurrou Zita, na visita de Ana. — Hoje seria o aniversário de Pedro. Ele completaria vinte e seis anos.

— O que você está dizendo, Zita?

— E por que eu deveria viver, Ana? — os olhos da amiga estavam cheios de dor e tristeza. — Não me resta mais nada dele. Não tenho nem filhos. Pedro era tudo para mim, e agora ele se foi…

— Você ainda tem a mim! Você é como uma irmã para mim. Lembra-se de como me recebeu na estação? E como nos tornamos amigas em um instante? Eu nunca fui tão próxima das minhas irmãs quanto sou de você. E você esteve comigo quando eu despedia de Miguel, grávida. Se não fosse por você, talvez eu tivesse dado à luz antes da hora por conta dos nervos…

Zita segurou a mão de Ana e, de repente, perguntou:

— Ana, quer um chá? Feito de frutas secas.

— Quero sim, Zita. Quero sim — Ana assentiu e sorriu.

— E traga Mateus aqui. Quando ele está por perto, me sinto um pouco melhor.

O RETORNO DE MIGUEL. A DOLOROSA VERDADE DE ZITA.

Em agosto de 1945, Miguel voltou.

Zita ficou à parte, observando. Ana chorava e ria ao mesmo tempo, abraçando seu marido e seu filho. Miguel segurava Mateus nos braços e acariciava a cabeça da esposa. Ela observou e sentiu, lá no fundo, sua alma chorando.

— Você teve sorte, Ana — disse ela mais tarde, quando ficaram a sós. — Você teve seu marido de volta e um filho crescendo. E eu não tenho nada…

Ana olhou para ela com tristeza.

— Zita, você terá. Você é jovem e bonita. Você ainda tem toda uma vida pela frente.

— Sei, Ana. Mas sinto que o destino me arrancou a felicidade, levando Pedro. E você ainda terá momentos felizes, quem sabe até outro filho.

Ana então estremeceu. Será que só imaginou que havia um tom de inveja nas palavras da amiga? Não, com certeza era apenas uma impressão. Zita não era do tipo que sente inveja. E um dia, com certeza, ela conhecerá a felicidade novamente.

A DOENÇA, O CUIDADO E A FISSURA NA CASA 🏠

Em 1946, Ana e Miguel foram a Alentejo, onde foram recebidos calorosamente pelos parentes. No dia 26 de julho de 1948, Ana deu à luz uma menina chamada Marta, em homenagem à sua irmã caçula.

Enquanto isso, Miguel trabalhava dia e noite na serralharia. O tempo era difícil: havia muito trabalho após a guerra, mas poucos homens. E até a primavera de 1950, enquanto os grupos não eram preenchidos por novos jovens, Miguel ia para casa apenas para dormir. Mas depois as coisas melhoraram um pouco. Eles conseguiram construir a casa em um ano. Então, ocorreu um imprevisto com Ana.

Em 1951, ela adoeceu. Fiquei com um resfriado forte que se transformou em pneumonia. Para piorar, naquele tempo não havia médicos: o médico mais velho havia morrido, e a médica que tratava das crianças casou-se e foi embora para outra aldeia. Novos profissionais ainda não haviam sido enviados. Embora Ana tivesse formação em medicina, não era uma médica.

E então Miguel decidiu levá-la ao hospital da cidade.

— E as crianças? Mateus cresceu, mas ainda precisa de cuidados — perguntou Ana, tossindo e enxugando a testa suada.

— E quanto a mim? — Zita, surpresa, exclamou. — Ana, você realmente acredita que eu abandonaria suas crianças? Jamais! Como você pode pensar assim?

— Zita, mas você já tem tanto trabalho, precisa cuidar da sua mãe que está doente…

— Minha mãe está apenas com dor nas costas, isso é do trabalho pesado. Ela se passa pomadas que a Neta deu e fica boa. E na serralharia temos uma nova funcionária que pode me substituir quando for necessário. Então, cuide-se, Ana, e não se preocupe com a casa.

Assim, Zita começou a vir todos os dias à casa de Ana. Ela cozinhava para Miguel e as crianças, lavava, limpava. Também contava histórias para a pequena Marta de três anos, e Mateus, com dez, as ouvia com prazer.

Quando Ana finalmente se recuperou e voltou para casa, viu que seus filhos, limpos e bem alimentados, se agarravam a Zita.

— Obrigada, Zita. Não sei como te agradecer.

— Não precisa, Ana. O principal é que você se recuperou — Zita sorriu. — Você me ajudou muito, deu injeções na minha mãe à noite, quando ela estava doente…

Mas quando viu Miguel, seu sorriso se desfez e ela saiu correndo para casa.

— Zita, por que você está indo tão rápido? Fique um pouco, trouxe até uns bolinhos da cidade.

— Minha mãe melhorou e fez uns bolos, então vou tomar chá em casa. Descanse. Você vai precisar se recuperar bem.

Zita foi para casa, e Ana ficou pensativa. Parece que sua amiga olhava para Miguel de um jeito diferente? E ele desviava o olhar dela. Será que eles brigaram? Mas não perguntou nada. Sabia que o marido não falaria. Não era de seu feitio discutir desavenças ou problemas.

Zita não aparecia na casa de Ana quando Miguel estava lá. E se elas estivessem tomando chá e ele chegasse, Zita rapidamente se despedia e ia embora.

— Você vai me dizer o que aconteceu entre vocês duas? — Ana não conseguiu se conter e decidiu perguntar ao marido.

— Nada aconteceu, por que você acha isso?

— Porque você não a olha nos olhos e fica desviando o olhar, assim como um cachorro que aprontou alguma. E ela vai embora assim que você coloca os pés dentro de casa.

— Sim… — ele coçou a cabeça. — Teve uma pequena discussão. Eu cheguei em casa bêbado. Muito bêbado, e ela começou a brigar. Naquele dia, Zita estava colocando as crianças para dormir. Eu não me segurei e acabamos brigando.

— Que bobagem, — Ana respondeu, dando de ombros. — E não vale a pena ficar chateado por tanto tempo por uma coisa dessas?

Mas no dia seguinte, decidiu conversar com a amiga. Só que Zita tinha outra versão. Ela dizia que Mateus aprontou e que Miguel estava tentando corrigir da pior maneira. E Zita, como uma boa amiga, se colocou na defesa do menino e brigou com Miguel.

A versão do marido era mais confiável, pois Miguel jamais havia batido em crianças. E Ana não sabia em quem acreditar. O que realmente tinha acontecido?

— E sim, ele chegou bêbado e tentou corrigir Mateus com um cinto, — Zita se apressou a esclarecer. — Ana, não se preocupe, de verdade. Não guardo rancor de Miguel e espero que ele também não guarde de mim. Mas tem uma coisa que eu preciso te contar: estou indo embora.

— Indo embora? Para onde?

— Para Lisboa. Vou trabalhar com a Oksana.

Ana ficou surpresa. Por que trocar um bom lugar por um destino desconhecido? Essa era a pergunta que ela fez a amiga.

— Quero mudar um pouco minha vida, mesmo que por um tempo. Eu voltarei, mas um pouco depois. Oksana se inscreveu para um trabalho na cantina por dois anos, e eu vou com ela. Quem sabe eu arrumo um marido por lá e começo uma nova vida — Zita suspirou.

Ana pensou no que estava ouvindo. Oksana era uma prima de Zita. Os pais delas tinham sido enviados para cá do Volga. Oksana havia se casado logo após a guerra, mas não tinha filhos. Um ano antes, uma tragédia: o marido dela, Genésio, foi preso por quatro anos por ter agredido o filho do presidente da câmara.

— E quanto aos seus pais? Você vai deixá-los?

— Não é que eu vá deixar — Zita acenou com a mão. — Eles são fortes e ainda se viram. E você, se precisar, pode estar por perto. Eu estarei fora por dois anos, só isso.

Ana abraçou a amiga e assentiu. Apesar de querer muito que Zita ficasse, não ia convencê-la ao contrário. Além disso, Ana sentia que Zita apenas temia deixar a tranquila e gentil Oksana sem supervisão.

ZITA VAI EMBORA. RETORNA COM UMA CRIANÇA 👶

Zita e Oksana partiram. A vida de Ana e Miguel continuou seu curso: as crianças estavam crescendo, e os adultos trabalhavam. De vez em quando, Zita escrevia cartas. E, um ano e meio depois, retornou antes do prometido. Mas não veio sozinha; trouxe uma criança nos braços.

Ana ficou chocada ao ver Zita com o bebê.

— Quem é ele? Onde você o encontrou? Por acaso é seu? — disparou com perguntas.

Zita sorriu e apertou o menino contra si.

— Sim, é meu filho. Chamo-o de Tiago.

— Mas como… Quando você teve tempo? — Ana estava aturdida.

— Fiz o que era necessário, Ana. Não pergunte nada, está bem? Eu o tive para mim mesma. Não tem pai e nunca terá.

— Quantos meses ele tem?

— Dez… Oh, oito meses — Zita corrigiu-se.

Ana percebeu que sua amiga estava mentindo.

Ao caminho de volta para casa, Ana refletiu. O menino parecia ter dez meses. Era maior do que um bebê de oito. Então Zita estava errada com as idades. Mas um mês antes de sua partida, ela estava grávida.

Uma sensação estranha começou a consumir Ana por dentro. Lembrou-se de como Zita e Miguel estavam agindo após o retorno dela do hospital. Como Zita estava estranha daquele dia em diante… Será que… Não, não queria crer que seu marido e sua amiga pudessem ter algo. Não, isso era impossível, pois Zita era como uma irmã!

— O que está acontecendo com você? — Miguel perguntou quando ela entrou em casa.

— Zita voltou. E trouxe uma criança.

— É mesmo? — disse o marido, surpreso. — Ela se casou?

— Não.

— E de quem é o menino? Vamos ver, aposto que ele é o fruto de uma nova relação.

— E você está certo, porque não é daqui. Ela não estava em Lisboa, mas aqui.

Ana contou ao marido sobre a conversa com a amiga, mas nenhum músculo em seu rosto demonstrou que ele lamentou. Ele parecia perplexo.

— É estranho, nunca a vi com um homem.

— E eu também não. E assim, essas coisas as amigas costumam discutir entre si. A menos que…

— A menos que o filho não seja do marido da amiga…

Miguel ficou em silêncio. Ele logo entendeu o que Ana estava insinuando, e olhou para ela surpreso.

— O que você quer dizer? — Miguel se levantou e olhou para a esposa. — Você o que, comeu algo errado? — Miguel estava atordoado e, no fundo, não queria acreditar que Zita poderia trair a confiança dele. — Ela é como uma irmã para mim! Ela é viúva do meu irmão!

— Prometa, ouça, prometa que não houve nada entre vocês.

— Prometo que não houve nada entre mim e Zita.

Ana tentou encontrar paz, mas a dúvida continuava a devorá-la. Tentava descobrir que pai era o bebê, Zita não falava.

Mais dois meses se passaram. Tiago estava crescendo e começava a andar, e Ana notava com pavor que cada vez menos o menino se parecia com Zita. Seus olhos escuros, os cabelos e o formato do rosto eram dolorosamente familiares. Miguel jurava que nada havia acontecido entre eles. Mas e se a promessa não significasse nada? E ainda havia as vizinhas falando pelas costas.

Certa vez, a tia Cláudia, que sempre sabia de todas as fofocas da aldeia, abordou Ana no poço e perguntou:

— Ana, você está cega? Olhe para esse garoto. Ele é a cara do Miguel! É como se fossem irmãos!

— Ele não parece nada! O que tem de mais em nosso lugar haver homens com cabelo escuro e olhos castanhos? E a Zita estava grávida em Lisboa.

— Muito bem. Mas, parece que a Zita está escondendo alguma coisa… E aí vem a questão: ela só cuidou das suas crianças dois anos atrás, ou também do seu marido?

— Não fale assim sobre Miguel e Zita! Ela para mim é como uma irmã, e vocês estão espalhando mentiras! — Ana ficou furiosa e, levando o balde de água, correu para sua casa.

Então, de súbito, depois de deixar o balde no saguão, decidiu ir atrás da amiga.

Ela encontrou Zita no alpendre, dando comida a Tiago. O menino comia avidamente, com saboreando o queixo.

— Zita, eu imploro, me diga a verdade — Ana suplicou. — Quem é o pai deste garoto? Estou ficando louca com a ideia de que ele seja filho de Miguel.

— Ana, o que você está dizendo? Você está louca?

— Não sou louca. Não entendo por que você mente sobre a idade de Tiago. E naquela primeira vez, você não se enganou? Quer dizer que você estava grávida quando foi embora. Mas de quem? Diga… É de Miguel?

Zita hesitou por um instante, como se estivesse reunindo coragem, e então assentiu:

— Tudo bem. Vou te dizer a origem do menino. Eu não o tive. Eu o encontrei embaixo de uma ponte, a que passo todo dia do trabalho para o alojamento. Alguém o abandonou lá. Um bebê, enrolado em trapos. Ele estava faminto e molhado, acabou de nascer, pelo visto. A médica disse que ele tinha poucos dias. Parece que alguma moça teve um relacionamento e não conseguiu voltar para os pais com o bebê. E eu… Não tenho ninguém e não sei se sou capaz de ser mãe. Aqui estou, decidi ficar com a criança. O diretor ajudou a registrá-lo em meu nome. Nós duas, Oksana e eu, alternamos os cuidados enquanto trabalhávamos.

Ana olhou para a amiga, atônita.

— Por que você não disse antes?

— Porque tinha medo — Zita começou a chorar. — Medo de que a mãe aparecesse para exigir o bebê. Eu já me acostumei a ele, eu o amo como um próprio filho. Então, menti para todo mundo que eu o tive. Até para você.

Ana ficou em silêncio. Depois a tocou nos ombros.

— Está bem — disse ela ao final. — Eu guardarei seu segredo. Mas, por favor, não minta mais para mim.

Zita balançou a cabeça, limpando as lágrimas.

MEU SEGREDO QUE VEIO À TONA 🔥

Seis meses se passaram.

Ana estava sentada perto da janela, remendando a camisa de Mateus. A casa estava silenciosa: Mateus saiu para o rio com os meninos, Marta dormia após o almoço, e Miguel tinha ido para a aldeia vizinha ajudar um amigo a construir uma casa. De repente, Zita entrou no quintal com o filho. Ana, deixando a costura, foi ferver água para o chá. As duas conversavam divertidas, observando Tiago, quando alguém bateu na cerca.

— Aberto! — gritou Ana.

A porta se abriu, e uma mulher entrou.

Era Oksana. A prima de Zita.

A mão de Zita, que segurava a xícara, tremia. Ela olhou para Oksana e perguntou assustada:

— Você está aqui? Voltou? Mas ainda ia ficar mais um ano…

— Tudo mudou. Vamos para casa, não é apropriado conversarmos aqui.

Ana ficou confusa: desde quando era uma estranha? Embora… Nunca tivesse sido muito próxima de Oksana.

Zita agarrou Tiago e seguiu Oksana para dentro de casa, mas seu semblante era o de quem ia à guilhotina. Ana não entendeu nada, mas decidiu que depois perguntaria a Zita o que tinha acontecido.

Ela mal conseguiu esperar até a noite e, após preparar o jantar para Miguel, correu até a casa da amiga.

Quando entrou, ouviu a mãe e o pai de Zita discutindo com ela. Pareciam estar bravos. Ana estava prestes a sair, não queria fazer parte daquela briga, quando a porta se abriu de repente e a mãe de Zita, Raquel, apareceu.

Ela olhou para Ana e se virou para ver a filha:

— Você precisa dizer, Zita! Conte para ela! É melhor que saiba agora do que amanhã quando Oksana vai aparecer aqui para exigir dinheiro pela criança!

— Do que você está falando, Raquel? — Ana não compreendia. — Que dinheiro? Por que Oksana começaria a exigir e de quem?

Zita chorava, olhando para Ana, e murmurou:

— Desculpa…

— E eu nem sei o porquê de te perdoar. Alguém aqui me explica?

Zita pareceu decidida a revelar um segredo, mas ficou paralisada. Raquel decidiu que não poderia mais esconder nada. De qualquer jeito, a verdade viria à tona.

Conduzindo Ana até a sala, ela a fez sentar-se à mesa, serviu chá e começou a contar as palavras que quase fizeram Ana desmaiar.

Enquanto Ana estava no hospital, Zita, que estava cuidando das crianças, acidentalmente descobriu que Miguel estava saindo com Oksana. Assim, eles se declararam — havia começado há poucas semanas e ocorrido apenas algumas vezes. Zita não acreditou. Ela prometeu a eles que contaria tudo para Ana. Mas Miguel a implorou para não fazer isso e para não destruir a família. Oksana pediu o mesmo: que seu marido, que estava no campo de concentração, retornasse e matasse a ambos. Zita concordou em ficar em silêncio.

Mas passou um mês e Oksana percebeu que estava grávida. Era aterrorizante, pois aquele bebê era de Miguel. Então Zita teve a ideia: Oksana daria à luz e lhe entregaria a criança. Afinal, Zita não tem um marido. Ninguém sabe se terá ou não um filho. E ao mesmo tempo, não seria uma criança desconhecida. E Oksana poderia vê-lo de vez em quando. Com certeza, seria uma boa tia!

Então, as duas irmãs partiram em busca de emprego. Oksana deu à luz, e assim que desmamou, Zita ficou com a criança para si. A criança foi registrada rapidamente em nome de Zita, para que, quando o marido de Oksana saísse da prisão, nada tivesse que saber.

Oksana ficou trabalhando, enquanto Zita voltou para casa e disse a todos que “teve um filho”. E todos acreditaram. Mas… Oksana recebeu a notícia de que seu marido havia morrido na prisão devido a uma infecção intestinal.

— Então ela voltou, e exigiu que a criança voltasse para ela. Como não havia mais marido, não havia mais razões para esconder. Ela teve a audácia de dizer que iria até Miguel e lhe pediria dinheiro e ajuda para cuidar da criança. Muita calma aparente, mas quanto houve de realmente trêmulo! E essa menina, — Raquel acenou na direção de Zita, — estava encobrindo.

Ana olhava para Zita, sentindo emoções conflituosas. Por um lado, Zita estava salvando a família dela. Por outro, estava encobrindo a traição de Miguel, mantendo o silêncio durante tanto tempo. E ainda inventou a história de como encontrou a criança. Uma mentira puxou outra. E será que é possível confiar em alguém assim? Protegendo Miguel e Oksana, ela traiu sua fidelidade à amizade.

Ana saiu correndo para casa, sem olhar para trás. Miguel estava sentado à mesa consertando algo. Mandando Mateus levar Marta para brincar, Ana fez um escândalo com o marido. Ele inicialmente se defendeu, mas logo viu que não adiantava. Ele confessou que sim, havia algo, mas que Oksana não significava nada.

— Sim, mas do “nada” você teve um filho! Seu filho! E Oksana não virá hoje, virá amanhã e exigirá de você dinheiro para sustentar e ajuda na educação do seu filho.

— Eu ajudarei — Miguel abaixou a cabeça. — Ana, eu não sabia. Zita e Oksana não me disseram nada. Eu realmente pensei que Zita tivesse tido o filho e que os prazos que você mesmo disse estavam errados.

— Meus filhos não viverão isso… — sussurrou Ana.

— O que não viverão? — Miguel não entendeu.

— O que você esconde sobre o que nasceu fora do casamento. Eles não verão você ajudando duas famílias. Não verão, porque eu vou para Alentejo, com meu pai e minha mãe!

— O que está dizendo? E eu? Como viverei aqui sem vocês?

— Você agora tem Oksana e Tiago.

Por mais que Miguel tentasse convencê-la, Ana mantinha sua posição. Depois de expulsar o marido, mandando-o para um amigo, ela se organizou em uma semana e seguiu com os filhos para a aldeia em Alentejo.

O DIVÓRCIO E UMA NOVA VIDA EM ALENTEJO 🌾

Ana se separou de Miguel. Ela não conseguia perdoar a traição. Se tivesse sido apenas uma escapada, talvez tivesse tido forças para perdoar. Mas quando ele teve um filho fora, isso era uma história diferente.

O divórcio demorou muito, quase um ano e meio. Mas ao final, deu-se.

Dois anos após o divórcio, Ana se juntou a um viúvo chamado Simão, que tinha uma filha, Lúcia, que já estava crescendo.

Ela não mantinha contato com Miguel ou Zita. E quando Mateus, já crescido, foi visitar o pai, voltou com novidades: Miguel casou-se com Oksana. Eles tiveram mais um filho, o Fernando. Zita saiu da aldeia seis meses após Ana voltar a Alentejo.

Certa vez, três anos após o divórcio, uma carta de Zita chegou à casa dos pais de Ana. Ela se casou e está grávida. Junto à carta, uma fotografia onde Zita sorria ao lado de um homem. Sua amiga pedia desculpas novamente. Ana respondeu que havia perdoado, que agora tinha um novo marido e era feliz. Também desejou felicidade a Zita.

Desde então, elas começaram a trocar cartas. Mas só se encontraram duas vezes na vida seguinte, uma vez que moravam a três mil quilômetros de distância. Mas sempre se parabenizavam nas festividades.

EPÍLOGO. CARTAS, FOTOS E PERDÃO ✉️

O segundo casamento trouxe felicidade a Ana. Simão tornou-se um marido fiel, e viveram juntos até os oitenta e quatro anos. Embora não tivessem filhos, criaram Mateus, Marta, e Lúcia com amor e, mais tarde, também os filhos deles.

Assim foi a história. E o que se vê disso? Às vezes, a pessoa que parece ser a mais próxima se enreda em mentiras alheias tão profundamente, que nem sabe mais como sair. E pode ser que a vida não acabe após uma traição, mas comece de novo — só que agora com outras pessoas e em outro lugar.

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