A Moto Fugindo com uma CriançaEle acordou suando frio, percebendo que tudo não passava de um pesadelo terrível.6 min de lectura

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Oi, então imagina, eu estava a sair da padaria com o meu filho de quatro anos, o Martim, quando aconteceu uma coisa que me gelou o sangue. Um motociclista arrancou-o do passeio e meteu-o na mota tão depressa que nem dei por isso.

Um minuto estava o meu rapazinho a dar-me a mão, mesmo à porta daquela padaria ali na Avenida da Liberdade. No segundo seguinte, desapareceu. Só ficou o espaço vazio onde os dedinhos dele tinham estado.

Ouvi a mota antes de a ver. O rugido dela a afastar-se com o meu filho debaixo do braço, como se fosse uma bola de rugby.

E eu comecei a correr. Corri de sapatos de vestido pelo meio da avenida, aos gritos, a chamar por ele. Perdi um sapato. Nem parei.

A mota já estava dois quarteirões à frente quando cheguei ao cruzamento. Vi-a a desaparecer na curva e senti qualquer coisa a partir-se dentro de mim.

Uma senhora à porta da padaria estava a ligar para a polícia. Disse-me para me sentar, para respirar. Eu afastei-a e continuei a correr.

Corri até me faltar o ar. Corri até não sentir as pernas. Passei por pessoas que apontavam, que tentavam agarrar-me, que desviavam o olhar.

Depois ouvi as sirenes. Três carros da PSP passaram a alta velocidade na minha direção. Segui-os até a um parque de estacionamento, a oito quarteirões de distância, onde já se tinha juntado uma multidão.

O motociclista estava sentado no passeio. O meu filho estava no colo dele, a comer um gelado que uma paramédica lhe tinha dado, completamente tranquilo.

Caí de joelhos à frente deles. Tentei falar, mas não me saiu uma palavra.

O motard olhou para mim com uma expressão que não consegui decifrar. Depois apontou na direção de onde eu tinha vindo.

“Ó senhor, vá até à padaria e veja o que ficou do passeio onde o seu rapaz estava. O homem no sedan cinzento que subiu aquele passeio a cem à hora chamava-se Pedro Marques. Bêbado às onze da manhã. Terceira vez que era apanhado a conduzir embriagado. Estava em liberdade condicional da última.”

Disse isto sem se mexer. O meu filho nem sequer tirou os olhos do gelado.

Sentei-me no chão ao lado deles, ali no parque. O alcatrão queimava-me as calças e não me importei. Puxei o meu filho para o meu colo e abracei-o com tanta força que ele se começou a remexer.

“Pai, estás a apertar-me demais.”

Soltei-o e beijei-lhe a cabeça, tentando falar outra vez. Não saiu nada, só um som que nem reconheci como sendo a minha voz.

O motociclista levantou-se. Era mais velho do que eu pensava. Talvez sessenta e cinco anos. Barba grisalha até ao peito. Um colete de couro com emblemas que não percebi. Olhos que me olhavam, mas também me atravessavam.

“Vá até lá abaixo,” disse, acenando com a cabeça na direção da avenida. “A polícia vai querer a sua declaração. Vão querer a minha também. Depois tratamos do resto.”

Levantei-me com o meu filho ao colo. As minhas pernas não funcionavam bem. O motociclista segurou-me pelo cotovelo e estabilizou-me, sem fazer disso um grande drama.

Caminhámos os oito quarteirões de volta. Devagar. Eu agarrei o meu filho o caminho todo. O motard empurrou a sua Harley ao nosso lado, com uma mão no guiador.

As pessoas por quem passámos não paravam de nos olhar. Um pai com a camisa de vestido rasgada. Um homem descalço a carregar um miúdo de quatro anos. Um motard de barba grisalha a empurrar uma Harley. Devíamos parecer o desfile mais estranho da cidade.

A meio do caminho, o meu filho puxou-me a gola da camisa.

“Pai, o homem do capacete salvou-me do carro barulhento.”

Olhei para o motociclista. Ele não me olhou.

“Sim, filhote. Salvou.”

“Ele é bom, pai.”

“Sim, filhote. É.”

O motoclicista limpou a garganta. Continuou a andar.

Quando chegámos à padaria, percebi o que quase tinha acontecido.

O passeio onde o meu filho tinha estado estava destruído. Não estragado. Destruído. O cimento estava estilhaçado em pedaços do tamanho de pratos de jantar. Um poste de luz de metal estava dobrado a quarenta e cinco graus. A montra era um buraco. Vidro por todo o lado. Uma montra de amostras de bolos de casamento estava esmagada por aquilo que tinha sido um pneu.

O sedan cinzento ainda lá estava. Metido a dentro da padaria. O condutor estava a ser levado para um carro da polícia, com as mãos atrás das costas, a cabeça aos tombos como se não soubesse onde estava.

O alcatrão onde os pezinhos do meu filho tinham estado estava riscado de borracha e óleo.

Um agente aproximou-se e começou a fazer perguntas. Eu tentei responder. Não conseguia encontrar as palavras.

O meu filho acabou o gelado e mostrou o pauzinho ao motociclista.

“Ó homem do capacete, onde é que eu ponho isto?”

O motociclista pegou no pauzinho e meteu-o no bolso do colete sem dizer uma palavra.

O agente fez as perguntas de praxe. Que horas, para que direção, o que vimos. Eu disse-me o que me lembrava, que não era muito. O meu filho estava a dar-me a mão. Tínhamos acabado de comprar dois croissants. Eu estava a ver os emails durante dois segundos. Dois segundos. Talvez três. Tinha sentido o ar a mover-se ao meu lado. Tinha ouvido a mota. Tinha visto o meu filho a ser levado.

O agente anotou tudo.

Depois virou-se para o motociclista.

“Senhor, o seu nome?”

“Henrique Valadares.”

“Morada?”

“Já a tem no registo.”

“Agiu muito depressa, Sr. Valadares. Onde estava quando viu o veículo?”

“Do outro lado da rua. À frente da loja de ferragens. Eu estava a observar a rua.”

O agente assentou lentamente. “A observar a rua, senhor?”

“Pois. Faço isso.”

“Alguma coisa em particular que estivesse a observar?”

Henrique Valadares olhou para o agente com aqueles olhos cinzentos que tudo atravessam.

“Condutores bêbados.”

O agente anotou, sem comentar.

Quando terminou, deu ao Henrique um cartão e disse-lhe que iriam contactá-lo para a declaração de testemunha. Disse-me para ligar ao meu seguro, ao pediatra e à minha mulher. Disse-me para levar o meu filho para casa.

O motociclista virou-se para ir embora.

Agarrei-lhe a manga.

“Espere.”

Ele parou. Não se virou.

“Nem sei como lhe agradecer.”

“Não precisa.”

“Preciso. Tenho de o fazer. Não há nada que eu possa…”

“Ó senhor.” Ele virou-se. Olhou para mim. A sua cara era gentil mas os seus olhos estavam cansados. “Não me deve nada. Leve o seu rapaz para casa. Abrace-o. Diga à sua mulher. É tudo o que me deve.”

Libertou a manga.

“Henrique, por favor. Diga-me pelo menos onde o posso encontrar. Quero que o meu filho cresça a conhecer o homem que…”

“Oficina do Francisco na Rua Onze. Trabalho lá de terça a sábado. Se me quiser encontrar, encontre-me lá.”

Montou na Harley. O motor pegou com um som que eu nunca mais voltaria a ouvir sem pensar no meu filho a salvo.

Ele saiu do parque e desapareceu pela avenida abaixo.

Fui para casa. A minha mulEle saiu do parque e desapareceu pela avenida abaixo e, desde esse dia, nunca mais deixei de olhar para os motociclistas da mesma maneira.

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