**CAPÍTULO 1: O LONGO CAMINHO PARA CASA**
O ar no avião C-130 sempre cheira o mesmo: uma mistura de óleo hidráulico, suor velho e ansiedade. Mas desta vez, pela primeira vez em dezoito meses, cheirava a esperança.
Ajustei-me no assento de lona, tentando encontrar uma posição menos desconfortável para as pernas. Meus joelhos estavam arruinados—muitas patrulhas, muito peso carregado em terrenos irregulares. Mas a dor não importava hoje.
Eu estava voltando para casa.
Não apenas de licença por duas semanas. Para ficar. Meus papéis de baixa estavam assinados, selados e guardados no bolso da mochila. Acabava-se a guerra. Acabava-se a areia.
Olhei para a foto colada no interior do capacete. Era uma foto espontânea da minha mulher, Catarina, e da nossa filha, Beatriz. Beatriz tinha catorze anos na foto, assoprando velinhas em um bolo. Agora, estava prestes a fazer dezasseis.
Dois anos da vida dela perdidos.
“Nervoso, sargento?”
Olhei para cima. O miúdo sentado à minha frente, um soldado recém-chegado chamado Esteves, sorria.
“Podes dizer isso,” grunhi, conferindo o relógio pela centésima vez.
“Ela não sabe?”
“Não,” respondi, com um sorriso pequeno rachando os lábios secos. “Ninguém sabe. A Catarina acha que ainda estou na Alemanha resolvendo a papelada. A Beatriz acha que só volto no Natal.”
“Isso vai ser uma surpresa do caraças,” riu-se Esteves.
Acenei com a cabeça, virando-me para olhar pela pequena janela, embora só houvesse nuvens lá fora.
A verdade é que estava aterrorizado.
No exército, eu sabia quem era. Era o Sargento Cardoso. Dava ordens. Protegia os meus homens. Conhecia as regras de combate.
Mas em casa? Não tinha certeza se ainda sabia ser “Pai”.
A Beatriz estava naquela fase em que tudo muda. Na última chamada de vídeo, parecia distante. Calada. Respondia com palavras soltas. A Catarina dizia que era “coisa da idade”, mas o meu instinto dizia outra coisa. A intuição de um pai é estranha—funciona até a quatro mil quilómetros de distância.
O avião aterrou na base aérea local três horas depois. Quando a rampa desceu e aquele ar úmido de Portugal me atingiu, o peito apertou.
Não chamei um táxi. Não liguei para a Catarina. Um amigo da base veio buscar-me.
“Direto para casa?” perguntou, atirando o saco militar para trás da carrinha.
Verifiquei as horas no telemóvel. 11h45. Terça-feira.
A Catarina estaria no trabalho. A Beatriz, na escola. Escola Secundária de Oliveira.
Olhei para o uniforme. Empoeirado, amarrotado, cheirando a avião. Devia ir para casa, tomar banho, vestir roupa civil. Devia apresentar uma versão limpa de mim.
Mas não conseguia esperar. A vontade de vê-las era física, como uma dor de fome.
“Não,” disse, entrando no lugar do passageiro. “Leva-me à escola.”
“Tens a certeza, pá? Pareces que acabaste de sair de um bunker.”
“Foi exatamente o que fiz,” respondi. “Conduz.”
**CAPÍTULO 2: O CORREDOR**
A Escola Secundária de Oliveira não tinha mudado muito desde a minha formatura, vinte anos atrás. Os tijolos estavam um pouco mais escuros, as árvores mais altas, mas a sensação era a mesma.
Registrei a entrada na secretaria. A assistente administrativa era a Dona Fernanda. Já estava lá quando eu era estudante.
Olhou do computador, irritada com a interrupção, mas a expressão suavizou assim que viu o uniforme. Reparou no distintivo de combate no ombro direito, na patente no peito, na poeira nas botas.
“Posso ajudá-lo, senhor?” perguntou gentilmente.
“Vim ver a Beatriz Cardoso,” disse, a voz rouca. “Sou o pai dela.”
As mãos da Dona Fernanda voaram para a boca. “Oh! Meu Deus! Ela sabe?”
“Não, senhora. É surpresa.”
Sorriu, enxugando o canto do olho. “Está no quarto período agora. Estão no refeitório, ao fundo do corredor principal, à esquerda.”
“Obrigado.”
“Vá buscá-la, Sargento.”
Saí do gabinete e entrei no corredor principal. Vazio durante as aulas, mas o murmúrio distante de centenas de adolescentes ecoava pelos cacifos.
O coração batia com tanta força que parecia querer sair pelas costelas. Já entrei em edifícios sob fogo com menos nervos que estes.
Por que estava tão nervoso? Era a minha filha. A minha menina.
Mas já não era uma menina. E eu estive ausente muito tempo.
Dobrei a esquina em direção ao refeitório. As portas duplas estavam fechadas, mas tinham aquelas janelas estreitas com rede de arame.
Aproximei-me em silêncio. Não queria entrar a voar. Queria vê-la primeiro. Queria um segundo para me compor, para preparar o “sorriso de pai”.
Espreitei pelo vidro.
O refeitório era o caos. Tabuleiros a bater, gritos, comida a voar. Uma selva.
Varri o espaço à procura daquele rabo-de-cavalo desarrumado que conhecia tão bem.
E encontrei-a.
Estava sentada numa mesa perto da parede, perto dos caixotes do lixo. Sozinha.
Aquilo doeu. A Beatriz costumava ter tantos amigos. Era a miúda animada que convidava toda a gente para as festas de aniversário. Agora, estava curvada, a cabeça baixa, a mexer na crosta de uma sanduíche.
Parecia isolada. Derrotada.
Estava prestes a empurrar a porta quando vi o movimento.
Três raparigas. Caminhavam entre as mesas com um ritmo distinto. ConheçoElas cercaram a Beatriz com sorrisos falsos e palavras cortantes, mas antes que pudessem agir, empurrei a porta e entrei, e pela primeira vez em anos, senti que o meu verdadeiro dever como pai estava só a começar.





