Uma Verdade que Chocou o Funeral — Criança Revela Segredo Aterrador6 min de lectura

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A catedral brilhava com uma suave luz de velas, e o silêncio em seu interior era absoluto. Duarte Almeida estava sentado na primeira fila, o rosto marcado pela dor, enquanto o coro murmurava suas últimas notas. Era a despedida de um pai à sua única filha. Um serviço a que nenhum pai deseja comparecer. Aquele silêncio foi abruptamente quebrado quando as pesadas portas se abriram de repente e um rapaz magro, com roupas sujas de terra, tropeçou ao entrar.

Ele correu direto pelo corredor central. A voz falhou quando gritou, cada palavra tremendo de urgência.

—Parem o enterro. A sua filha está viva.

Uma onda de murmúrios varreu a multidão. Alguns convidados recuaram; outros olharam para ele com desdém, como se ele estivesse ali apenas para causar confusão. Duarte apenas ficou a olhar, com o ar preso no peito. O rapaz chegou ao caixão e caiu de joelhos, as mãos espalmadas sobre a madeira encerada.

—Chamo-me Emanuel Sousa —disse, respirando de forma irregular—. Eu sei o que aconteceu à Leonor. Eu vi a verdade. Ela não se foi.

Os seguranças moveram-se para o agarrar, mas Duarte ergueu a mão devagar.

—Deixem-no falar.

Emanuel engoliu em seco. A voz estabilizou-se o suficiente para continuar.

—Eu estava atrás do clube naquela noite. Vi um homem a arrastá-la para um beco. Ele deu-lhe uma injeção. Pensei que podia estar a ajudá-la, até ver o corpo dela a ficar mole. Ela estava viva, mas mal respirava. Ele deixou-a no chão porque achou que ninguém estava a ver.

Os sussurros encheram a sala. Duarte sentiu um calafrio subir-lhe pelo peito.

Emanuel prosseguiu.

—Tentei acordá-la. Gritei o nome dela. Pedi ajuda, mas ninguém vem ao meu bairro. A polícia apareceu horas depois e disse que ela estava morta. Eles enganaram-se.

Duarte deu um passo, depois outro, até ficar frente a frente com o rapaz.

—Porque esperaste até hoje para dizer isto?

Emanuel baixou os olhos.

—Ninguém ouve um miúdo sem casa. Tentei falar com os agentes, mas puseram-me de lado. Quando soube que o funeral era hoje, percebi que não podia deixá-los enterrá-la se ainda estivesse a respirar.

As palavras caíram sobre Duarte como pedras. Durante semanas, ele sentira que algo não batia certo na causa da morte. Que a Leonor lhe tinha sido roubada antes da hora. Agora, esse fio começava a desenrolar-se.

—Abram-no —disse Duarte, em voz baixa.

Levantou a tampa do caixão. A luz derramou-se para dentro e Duarte inclinou-se. À espera do silêncio. À espera do frio terrível da morte. Em vez disso, sentiu calor sob as pontas dos dedos. Calor onde não devia haver nenhum.

—Está quente —sussurrou.

Apoiou um dedo no pescoço dela. Lá, pulsava um batimento. Fraco, mas inegável.

—Chamem um médico. Agora mesmo.

Os convidados entraram em frenesi. Um médico que assistia ao serviço abriu caminho e confirmou com os próprios olhos.

—Tem pulso. Fraco, mas presente. Temos de levá-la para um hospital imediatamente.

Enquanto os paramédicos levantavam a Leonor e a levavam às pressas, Duarte virou-se para Emanuel. O rapaz parecia pronto para ser arrastado pelos seguranças.

—Tu vens comigo —disse Duarte.

Emanuel ficou tenso.

—Eu não fiz nada de errado.

—Vieste porque te importas. Isso basta.

Seguiram a maca até à ambulância e depois ao hospital. Passaram-se horas. Duarte percorreu o corredor de um lado para o outro. Emanuel permaneceu em silêncio, as mãos apertadas uma na outra, como se tentasse não invadir a dor de um homem rico. Finalmente, um médico de bata branca aproximou-se.

—Ela está estável agora —informou.— A sua filha foi posta num coma induzido por um agente externo. Os sinais vitais foram mal interpretados. Este rapaz manteve-a viva ao levantar a voz.

Duarte olhou para Emanuel com espanto e gratidão.

—Conta-me mais do homem que viste —pediu.

Emanuel anuiu.

—Usava um casaco escuro. Tinha uma cicatriz perto da sobrancelha. Ele empurrou-a para dentro de uma carrinha prateada. Eu memorizei a matrícula. Faço isso para sobreviver.

Duarte prendeu a respiração.

—Qual era o número?

Emanuel repetiu-o com clareza.

Duarte sentiu o ar faltar-lhe nos pulmões. Conhecia aquele número. Pertencia a Vasco Ribeiro. O seu sócio de longa data. O homem que insistira que o funeral fosse rápido para evitar o escândalo.

A traição estreitou-lhe a visão.

—Ele fez isto para ficar com a minha parte —murmurou Duarte.— Quis destruir-me.

Na manhã seguinte, Duarte sentou-se ao lado da cama da Leonor. O rosto dela estava imóvel, mas em paz. Emanuel esperava em silêncio perto da porta.

—Emanuel —disse Duarte.— Vais ajudar-me a derrubá-lo?

Emanuel anuiu sem hesitar.

—Por ela. Sim.

Os investigadores chegaram em poucas horas. Revistaram as gravações do clube e encontraram registos da carrinha de Vasco no beco. Mais provas surgiram nos registos financeiros. Vasco tinha muito a ganhar com a queda de Duarte. Com o testemunho de Emanuel, os detetives confrontaram Vasco e rapidamente fizeram a prisão. Acusaram-no de tentativa de homicídio e múltiplos crimes de fraude.

Duarte viu a reportagem nas notícias em silêncio. Emanuel estava sentado ao seu lado no sofá.

—Salvaste-lhe a vida duas vezes —disse Duarte, suavemente.— Primeiro no beco. Depois no funeral.

—Só fiz o que qualquer um devia —respondeu Emanuel.

—Nem todos se arriscariam para dizer a verdade.

Quando a Leonor finalmente abriu os olhos, encontrou Duarte ao seu lado. Ele apertou a mão dela com um alívio trémulo. Ela virou a cabeça e viu Emanuel parado junto à parede, como se temesse não pertencer ali.

—Pai —sussurrou.— Quem é ele?

Duarte sorriu com uma ternura que não sentia desde que ela era pequena.

—É quem te manteve viva. Não estarias aqui sem ele.

Leonor estendeu a mão, fraca, em direção a Emanuel.

—Obrigada —sussurrou.— Obrigada por não me deixares.

Emanuel piscou os olhos rapidamente, a voz a falhar.

—Nunca poderia ter deixado.

Duarte pôs a mão no ombro do rapaz.

—Não vais voltar para a rua. A partir de agora, ficas connosco. Agora tens um lar.

Emanuel olhou para ele como se não acreditasse no que ouvia.

—Tem a certeza?

—Tenho toda a certeza.

O rapaz anuiu devagar. Os olhos brilharam de um modo que lembrava a fome e as noites frias, mas, pela primeira vez, ele acreditava na promessa de segurança. E Leonor sorriu-lhe com uma compreensão silenciosa. A sua vida fora salva por um desconhecido que se recusou a calar-se. Agora, ele já não era um desconhecido. Era família.

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