Ela esfregava chãos para sobreviver. Ele era dono de metade da cidade e enterrava os seus inimigos sem pestanejar. Ela fugia de um monstro que jurou matá-la. Ele já tinha perdido tudo o que amava e contava os dias até que a morte também o levasse. Mas quando uma mãe desesperada, escondendo a sua bebé doente, tropeçou na mansão do homem mais perigoso do Porto, nenhum dos dois esperava o que viria a seguir.
Chamam-lhe Fantasma porque aqueles que o cruzam simplesmente desaparecem. No entanto, este assassino de sangue-frio que nunca demonstrou piedade descobriu-se incapaz de desviar o olhar de uma menina de oito meses com uns olhos que lhe lembravam o filho que tinha enterrado. O que acontece quando o homem que todos temem se torna o único em que ela pode confiar? O que acontece quando um coração de pedra começa a rachar?
Uma noite de janeiro no Porto era tão fria que a respiração parecia gelar no instante em que saía da boca. Matilde Silva estava de joelhos, a esfregar o chão de uma casa de banho no 12.º andar de um arranha-céus na Avenida da Boavista, quando o telemóvel vibrou no bolso.
Olhou para o relógio na parede: cinco da manhã. Ninguém ligava àquela hora a não ser que algo estivesse terrivelmente errado. O coração apertou-se num nó de pânico ao ver o número da creche a brilhar no ecrã. Depressa, arrancou as luvas de borracha, as mãos a tremer tanto que mal conseguiu atender.
A voz da educadora do outro lado era monótona e distante, como se estivesse a ler um comunicado oficial. A Leonor tinha desenvolvido uma febre alta desde a meia-noite. A bebé não parava de tossir. A política da creche era clara: não podiam aceitar uma criança com sinais de doença. A Matilde tinha de a ir buscar. Imediatamente.
Antes que a Matilde conseguisse articular uma palavra, um pedido, uma súplica, a chamada terminou. Levantou-se de um salto, o mundo a girar à sua volta. Leonor. A sua pequena filha de oito meses, a única pessoa que lhe restava neste mundo.
Matilde saiu a correr do edifício sem avisar ninguém, atirando-se à escuridão gélida. Uma chuva miudinha e persistente começara a cair, as gotas a chicotear-lhe o rosto como agulhas minúsculas. Correu durante três quarteirões porque não tinha dinheiro para um táxi ou uma Uber. Quando chegou finalmente à creche, os lábios estavam azuis e as pernas, dormentes.
Leonor estava nos braços da educadora, o rostinho corado pela febre. Os seus choros fracos soavam como os de um gatinho abandonado. Matilde pegou na filha ao colo, sentindo o calor a irradiar do pequeno corpo através das finas camadas de roupa. A filha estava a arder em febre.
Carregou a Leonor de volta para o quarto alugado e decrépito num prédio degradado em Rio Tinto. O quarto mal tinha dez metros quadrados, as paredes manchadas de bolor e humidade, a janela remendada com fita-cola porque o vidro se partira há muito tempo. O aquecedor estava avariado há duas semanas. O senhorio prometera arranjá-lo, mas nunca apareceu.
Matilde deitou a Leonor na cama, envolveu-a em todos os cobertores que possuía e abriu o armário dos medicamentos. Vazio. Usara a última dose do antipirético na semana anterior e não tivera dinheiro para comprar mais. Lágrimas quentes escorreram pelas suas faces enquanto observava a filha a contorcer-se em dor febril.
O telemóvel vibrou de novo. Desta vez, era a empresa de limpeza. Matilde atendeu e a voz do seu supervisor soou, áspera e irritada. Onde é que ela estava? Porque é que tinha abandonado o turno? Matilde tentou explicar sobre a Leonor, sobre a febre, sobre precisar de um dia de folga.
O supervisor cortou-lhe a palavra. Havia um trabalho especial naquele dia, um cliente VIP, uma mansão em Foz do Douro. Se ela não aparecesse, estava despedida. Sem exceções.
Matilde teve vontade de gritar. Teve vontade de atirar o telefone contra a parede, mas não podia. Se perdesse o emprego, não teria dinheiro para a renda, nem para o leite da Leonor, nem para os remédios. Ela e a filha estariam na rua, naquele inverno brutal. E o Ricardo, o seu ex-marido violento que a caçava pela cidade, encontrá-la-ia mais facilmente do que nunca.
Matilde olhou para a Leonor, que adormecia e acordava, exausta pela febre. Não tinha com quem deixar a filha. A sua mãe estava morta. Os amigos tinham desaparecido. Estava sozinha numa cidade de milhões de habitantes, sem uma única mão que a ajudasse.
Tomou a única decisão que podia.
Matilde vestiu a Leonor com camadas extras de roupa, envolveu-a em três cobertores e colocou-a no carrinho de bebé frágil que comprara numa loja de segunda mão por vinte euros. Enfiou um biberão, fraldas e o antipirético que pedira emprestado a uma vizinha na sua bolsa. Depois, empurrou o carrinho para fora do quarto escuro e entrou na chuva miudinha cinzenta.
O endereço na mensagem levou-a a Foz do Douro, onde viviam as pessoas mais ricas do Porto. Matilde nunca lá tinha estado. Passou por ruas impecavelmente limpas, montras de lojas de luxo, carros importados alinhados nas calçadas. Sentia-se como uma nódoa numa pintura perfeita.
Quando parou em frente ao endereço indicado, o coração quase parou. Diante dela, erguia-se uma mansão colossal, escura como a noite, com portões de ferro imponentes esculpidos com cabeças de leões a rugir. Matilde não sabia que estava diante dos portões do inferno, e o seu dono esperava-a lá dentro.
Matilde ficou parada diante do portão de ferro por um longo momento, sem coragem de entrar. A Leonor resmungou no carrinho, os seus choros fracos engolidos pelo vento e pela chuva. Matilde respirou fundo e empurrou o pesado portão. Este abriu-se sem um ruído, como se perfeitamente lubrificado, como se convidasse a sua presa a entrar.
Um caminho de pedras negras conduziu-a por um jardim árido. Estátuas de pedra estavam espalhadas por ambos os lados, os seus rostos frios salpicados de chuva miudinha, os seus olhos vazios a parecer seguir cada passo dela. Matilde estremeceu e puxou o cobertor com mais força sobre o rosto da Leonor. Andou mais depressa, as rodas do carrinho a bater contra as pedras, o som a ecoar pela quietude.
A porta da frente da mansão era de carvalho maciço, três vezes a sua altura, esculpida com padrões intrincados que ela não conseguia reconhecer. Matilde procurou uma campainha, mas não encontrou nenhuma. Empurrou levemente, e a porta abriu-se como se a casa estivesse à sua espera.
Lá dentro, Matilde teve de parar para os olhos se ajustarem à penumbra. Depois viu, e esqueceu-se de respirar. O salão principal era vasto como uma catedral. O teto altíssimo, com um enorme lustre de cristal suspenso no ar. Milhares de cristais capturavam o brilho fraco de velas espalhadas pelo espaço. O chão de mármore preto brilhava como um espelho, refletindo a sua figura pequena, suja e perdida em meio ao luxo frio. Ladeando a escadaria, havia antigas pinturas a óleo em moldEla inclinou-se para a frente, a sua testa a tocar a dele, e sussurrou: “Então vamos viver cada um deles, juntos”.





