*Fevereiro, 15, 1990*
A tempestade de neve rugia por Bragança como uma fera—implacável, selvagem, fria o bastante para parar um coração. Sob um poste de luz partido na Rua dos Combatentes, uma jovem encolhia-se contra o chão gelado, a respiração tão frágil quanto o vapor que escapava dos seus lábios.
Chamava-se Inês Teixeira.
Vinte e cinco anos. Sem lar. E completamente só.
As contrações vieram como trovoadas, dilacerando-a em ondas insuportáveis. Apoiou as costas contra um contentor, uma mão tremendo sobre a barriga inchada, a outra agarrada ao gelo, como se dele pudesse tirar força.
“Por favor… não aqui,” sussurrou para o vazio. Mas a natureza não conhece piedade.
Os minutos arrastaram-se como horas. Até que, por entre o uivo do vento, um som surgiu—pequeno, frágil, milagroso.
Um choro.
O choro de um bebé.
Inês olhou para a criança minúscula nos seus braços trémulos, enrolada no seu casaco rasgado. A pele da menina brilhava cor-de-rosa contra a neve, o choro ténue mas feroz, como se declarasse a sua vontade de viver.
Lágrimas escorreram pelo rosto de Inês.
“És o meu milagre,” murmurou, a voz quebrada.
Mas o corpo falhava-lhe. O frio entranhava-se mais fundo do que a dor—nos ossos, na alma. Sabia que o tempo se escoava.
Olhou para a rua escura, deserta. “Se alguém te encontrar… se alguém bom…” As palavras morreram-lhe nos lábios.
E então—
O silêncio desfez-se.
O rugido de motores ecoou pela neve, como trovões a rasgar a noite gélida. Dez motos surgiram na distância, os faróis a cortarem a tempestade.
O líder, Tiago Leal, ergueu o visor e gritou contra o vento: “Parem! Há alguém ali!”
Os motards travaram a fundo. Uma delas—uma mulher chamada Raquel Duarte—saltou da mota e arfou. “Meu Deus, Tiago! É uma mulher—e tem um bebé!”
Tiago ajoelhou-se ao lado de Inês. Os seus lábios estavam azuis, a pele pálida como a neve. Os olhos abriram-se por um instante—o suficiente para ver o homem de jaqueta de couro, um emblema de lobo, e olhos bondosos que não esperava.
“Estás segura agora,” disse suavemente.
Inês tentou falar. A voz era pouco mais que um sopro.
“Por favor… levem-na. Não tem ninguém. Prometam-me que vão cuidar dela.”
Tiago engoliu em seco. A voz baixou a um sussurro.
“Prometo.”
Um sorriso ténue tocou-lhe os lábios. “O nome dela é… Aurora…” murmurou. Depois, a mão escorregou da dele, e ela partiu.
A neve caiu em silêncio à volta deles. Nenhum dos motards falou. Tiago apertou a recém-nascida contra o peito, envolvendo-a na sua jaqueta de couro enquanto baixavam a cabeça em respeito.
Naquela noite, numa estrada gelada de Bragança, dez motards fizeram uma promessa a uma mãe moribunda.
Na manhã seguinte, a equipa—os Lobos de Ferro—seguiu pela tempestade até ao hospital mais próximo. Os médicos disseram que a bebé estava fria, mas forte. Inês Teixeira, porém, não resistira até à chegada.
Mais tarde, Tiago e os outros voltaram ao local. Trouxeram flores, uma cruz de madeira e uma pequena placa com uma única palavra: Inês.
Tiago sussurrou: “Vamos cuidar dela. Palavra de honra.”
As semanas passaram. Tiago iniciou o processo de adoção. Os Lobos de Ferro não eram ricos, mas juntaram o dinheiro que tinham—venderam peças, até mesmo uma mota. Raquel ofereceu o seu apartamento para a criança, enquanto os outros traziam leite, mantas e risadas.
Deram-lhe o nome de Aurora Teixeira, mantendo o apelido da mãe.
E pouco a pouco, ela tornou-se o seu mundo.
Os anos viraram páginas de um livro.
Aurora cresceu numa menina destemida, com caracois rebeldes e um sorriso que amolecia até o aço. Chamava a Tiago de Tio Tiago, a Raquel de Tia Raquel, e aos outros de “os meus tios barulhentos”. Todos os domingos, montava na garupa da moto de Tiago, o seu capacete cor-de-rosa pintado com a palavra “Anjinho”.
Para o mundo, os Lobos de Ferro eram homens duros—tatuagens, cicatrizes, couro, fumo. Mas com Aurora, suavizavam. Levavam-na a festivais, ajudavam nos trabalhos da escola, celebravam cada aniversário como se fosse Natal. O rude barco deles agora tinha um canto cheio de lápis de cor, ursinhos e desenhos tortos de motas e asas.
Quando Aurora fez dez anos, os Lobos de Ferro tinham mudado.
Já não brigavam, já não vagueavam sem rumo.
“Por causa dela,” Raquel disse um dia, “tornámo-nos homens melhores.”
Até que uma tarde, enquanto revirava uma sala de arrumos, Aurora encontrou uma caixa empoeirada, envolta num cobertor velho. Dentro, estava uma carta, selada mas nunca enviada. No envelope, em letra desvanecida, lia-se:
“Para quem encontrar a minha menina.”
As mãos de Aurora tremeram ao abri-la. O papel estava amarelo pelo tempo—mas as palavras eram claras.
“Se estás a ler isto, obrigada por salvares a minha filha.
O nome dela é Aurora. Não lhe posso dar muito, mas peço que alguém bom o faça.
Diz-lhe que a amei.
Diz-lhe que foi a melhor coisa que fiz.
— Inês Teixeira.”
As lágrimas encheram os olhos de Aurora. Apertou a carta contra o peito e correu para fora, onde Tiago e Raquelestavam a consertar uma velha mota, e ao vê-los, a voz de Aurora saiu mais suave que o vento: “Ela escreveu que eu fui a melhor coisa que ela fez,” e naquele instante, soube que, apesar de tudo, o amor da mãe nunca a tinha abandonado.





