**O Meu Nome é Tudo o Que Tenho**
Hoje, como sempre, o pó estava nos meus pulmões e o cheiro a limão nas minhas mãos. Mas nunca me importei.
A Quinta dos Albuquerque ficava no topo de uma colina, em Sintra, a quarenta minutos de Lisboa—um mundo à parte. Sebes altas, portões de ferro, colunas brancas. O tipo de lugar que as pessoas olhavam ao passar de carro, com um suspiro de inveja.
Há onze anos que eu percorria aquele caminho de entrada.
Conhecia cada estalido no chão, cada mancha nas portas de vidro, cada nódoa impossível no mármore branco da entrada. Sabia quais lâmpadas piscavam e quais torneiras pingavam. Sabia que, se não mexesse na maçaneta da casa de banho dos hóspedes no rés do chão, a água correria a noite toda.
Mas, mais do que tudo, conhecia as pessoas.
Miguel Albuquerque, quarenta e três anos, investidor em tecnologia, com um sorriso de um milhão de euros—quando se lembrava de o usar. Viúvo há três anos, ainda usava a aliança por hábito.
O filho, Tomás, sete anos, mais dinossauro do que menino na maioria dos dias—cotovelos afiados, perguntas sem fim e abraços repentinos.
E Margarida.
A mãe de Miguel.
A matriarca.
Rainha da casa, embora tecnicamente não vivesse lá—tinha um luxuoso apartamento na cidade—, mas aparecia com tanta frequência que eu às vezes me esquecia de qual era a sua morada oficial.
Margarida Albuquerque era o tipo de mulher que notava quando alguém mexia num vaso três centímetros para a esquerda. Usava pérolas na cozinha e bebia o café como se ele a tivesse ofendido.
Eu respeitava-a.
E também tinha medo dela.
Foi numa manhã de terça-feira que tudo mudou.
Cheguei às 7h30, como sempre. O ar de setembro era fresco o suficiente para me fazer enrolar-me mais no meu cardigã enquanto caminhava desde a paragem do autocarro até à entrada.
Dentro, a quinta estava silenciosa. A entrada da equipa levava ao hall e depois à cozinha—um espaço enorme e reluzente, com bancadas de mármore e eletrodomésticos de aço inoxidável que eu limpava quatro vezes ao dia.
Pendurei o casaco no pequeno armário da equipa, troquei de sapatos, prendi o cabelo e verifiquei a lista manuscrita em cima do balcão.
A lista da Margarida.
Todos os dias, uma nova.
**TERÇA-FEIRA:**
Polir a prataria na sala de jantar
Mudar a roupa de cama do quarto de hóspedes (suite azul)
Limpeza profunda à casa de banho do corredor superior
Pequeno-almoço às 8h—aveia, fruta, café (sem açúcar)
Eu sorri.
Gostava das listas.
Tornavam as coisas mais fáceis.
Enchi a cafeteira—forte, sem açúcar, duas chávenas sempre prontas para a Margarida às 8h05 em ponto—e comecei a preparar o pequeno-almoço.
Às 7h50, ouvi passos nas escadas. A voz do Tomás ecoou pelo andar de baixo.
“Claraaaa, há panquecas?”
“Não hoje”, respondi, abrindo o pote de aveia. “Aveia com fruta. Muito saudável.”
Ele apareceu à porta, de pijama de dinossauro, o cabelo em pé e a esfregar os olhos.
“Coisas saudáveis são aborrecidas”, queixou-se, subindo para um banco. “Ao menos há mirtilos?”
“Há sim”, disse eu, pondo-lhe uma taça à frente. “E se os comeres, vais ficar forte como um tiranossauro rex.”
Ele franziu os olhos. “O T-Rex não comia fruta.”
“Então forte como um… estegossauro”, corrigi.
“Eles comiam plantas”, admitiu, pegando na colher. “Bem. Gosto do estegossauro.”
Deitei-lhe sumo de laranja e coloquei uma chávena de café na ponta do balcão, exatamente onde a Margarida gostava.
Na hora certa, ouviram-se os tacões no corredor.
“Bom dia”, chamei.
Margarida entrou na cozinha, de blusa cor de creme e calças de fato, maquilhagem impecável e o cabelo apanhado num caracol suave. Olhou para o balcão, pegou no café sem me olhar e deu um gole.
“Está demasiado quente”, disse, voltando a pousá-lo.
“Desculpe, senhora Albuquerque”, disse eu rapidamente. “Da próxima vez deixo arrefecer mais.”
Ela resmungou, sem se comprometer.
Os olhos percorreram a cozinha, fazendo inventário, e pousaram por um momento no neto.
“Estás a derramar aveia”, disse.
Tomás parou a meio da colherada e verificou a camisa.
Não estava.
“Avó”, disse com paciência. “Não há aveia.”
“Bem, haverá”, respondeu ela. “Não te encolhas.”
Bebeu mais um gole de café e virou-se para a porta.
“O Miguel está em teletrabalho hoje”, disse-me por cima do ombro. “Há visitas esta tarde. Investidores.” O tom sugeria que não estava impressionada. “A casa tem de estar impecável. Como sempre.”
“Sim, senhora”, respondi.
Só já perto do meio da manhã é que me apercebi de que a porta do quarto das joias estava aberta.
A maioria das pessoas não sabia da existência de um quarto daqueles na casa dos Albuquerque. Não fazia parte do tour oficial que a Margarida dava aos convidados. Estava escondido atrás do escritório no andar de cima, um espaço pequeno com um armário climatizado e um cofre embutido na parede.
As relíquias dos Albuquerque viviam ali.
Dinheiro antigo, diamantes antigos, ouro antigo.
Eu só limpava o pó.
Hoje estava na minha lista: apenas uma camada fina, nada de importante.
Quando passei pelo escritório a caminho da lavandaria, vi a porta entreaberta.
Que estranho, pensei.
A Margarida mantinha-a sempre fechada.
Hesitei e depois abri-a mais um pouco.
O porta-joias estava fechado, o cofre escondido atrás do painel—tudo parecia estar como devia. Mesmo assim, os pelos da minha nuca arrepiaram-se.
Entrei, passei um pano macio com cuidado pelas prateleiras de vidro, tomando cuidado para não tocar em nada, depois saí, fechando a porta atrás de mim.
Nunca cheguei a ver a peça que faltava.
Não naquele momento.
Foi por volta das 14h que os gritos começaram.
Eu estava no corredor de cima, a aspirar.
Ouvi primeiro a voz da Margarida.
Alta. Afiada.
“Impossível! Estava mesmo aqui! Mesmo aqui!”
Depois o Miguel, mais grave, tentando manter a calma. “Mãe, podes…?”
“Não te atrevas a dizer-me para me acalmar”, rosnou ela. “O teu pai deu-mo. É a única coisa que me resta.”
Desliguei o aspirador.
Ouvi passos a aproximar-se do quarto das joias.
Recuei até à parede quando a Margarida quase esbarrou em mim.
“Clara”, berrou ela. “Mexeste no porta-joias hoje?”
Engoli em seco.
“Limpei as prateleiras, sim”, respondi. “Como faço todas as terças. Não abri nada. Porquê? Falta alguma…?”
“As lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto segurava o desenho do Tomás, sabendo que, no fim, a verdade valera mais do que qualquer riqueza que os Albuquerque pudessem oferecer.”





