Um Tiro Pelos Gêmeos: O Chefão e Seu Anjo da GuardaEla despertou no hospital com sua mão firme segurando a dela, seus olhos, outrora gelados, agora brilhando com uma devoção que prometia proteger aquela mulher corajosa para o resto de seus dias.4 min de lectura

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O tiro não era para ela. Estava destinado ao crânio de um menino de seis anos – o herdeiro do maior império criminoso de Lisboa. Mas o destino tem maneiras peculiares de intervir.

Quando o disparo ecoou, Sofia Valente não pensou em física ou em consequências. Não pensou que o homem ao lado da criança era Lorenzo Duarte – um homem que podia acabar com uma vida com um simples aceno. Viu apenas uma criança em perigo. E agiu.

Enquanto o seu sangue manchava o calçadão, não imaginava que acabara de iniciar uma guerra que incendiaria a cidade e derreteria o gelo em torno do coração do diabo.

Era uma terça-feira comum no “Garfo de Ouro”. Louças tilintavam, chefs gritavam, e Sofia sentia os pés latejarem nos sapatos baratos. O seu rendimento de sobrevivência estava atrasado há três dias.

Na mesa 12, no canto mais reservado, o ar era diferente. Lá estava Lorenzo Duarte. Os jornais chamavam-no de empresário de sucesso; as ruas, de “Chefe”. Era assustadoramente carismático, mas a frieza que emanava fazia as pessoas perderem o apetite.

Naquela noite, porém, o titã estava em “modo pai”. À sua frente, os seus gémeos de seis anos, João e Miguel, com pequenos fatos formais.

“Comam os vegetais”, ordenou Lorenzo, com uma voz grave que soava incomumente tensa. “Odeio estas árvores verdes”, resmungou João. “Quero nuggets.”

Sofia aproximou-se para servir água. “Sabem”, sussurrou, “se a cozinha cortar o frango empanado em quadradinhos e servir o molho de tomate à parte, ficam uns nuggets muito finos.”

Lorenzo ergueu o olhar, fitando-a intensamente. “A sério?”

Sofia sorriu para os meninos. “E as árvores verdes dão superpoderes. Foi assim que o Hulk ficou forte. Muito brócolis.” Os olhos de Miguel arregalaram-se. “A sério?”

Quando a conta chegou, Lorenzo deixou uma gorjeta de 500 euros. Sofia conteve a respiração. Era o valor da sua renda. Correu até à porta para agradecer.

Lá fora, o manobrista trouxe o SUV blindado. Lorenzo guiava os meninos pelo passeio, de costas para a rua. Foi então que Sofia viu: do outro lado, a janela de um sedã escuro abriu-se. Um silenciador brilhou sob a luz do candeeiro.

“Para baixo!”, gritou Sofia. Não pensou. Atirou-se, empurrando os dois meninos para o chão, protegendo-os com o seu corpo.

Puf, puf, puf.

Sofia sentiu um impacto no ombro, como se tivesse sido golpeada por uma marreta. O mundo mergulhou no caos. Lorenzo sacou da sua arma e disparou contra o carro em fuga, que desapareceu no trânsito.

Lorenzo virou-se. Sofia jazia imóvel sobre os seus filhos. A sua blusa branca ensopava-se de vermelho. “Meninos, magoaram-se?”, perguntou, puxando as crianças trémulas de debaixo dela. Estavam cobertos de sangue, mas não era o deles.

Ele levantou-a nos braços e entrou no segundo SUV. “Hospital de Santa Maria. Liguem ao Doutor Tavares. Se ela morrer, fecho aquele hospital.”

Ao acordar, Lorenzo estava ao pé da cama. “Tens um buraco no ombro”, disse ele, quando ela se preocupou com o turno. “Não vais voltar para aquele restaurante. Agora fazes parte da família. E a família não se preocupa com rendas.”

Semanas depois, Sofia estava na mansão dos Duarte na Comporta. Numa noite, Lorenzo confessou: “Matei-o, Sofia. O meu primo. Ele queria os miúdos.”

“Protegeste a tua família”, disse ela, fitando-o. “Isso não te torna um monstro. Torna-te um pai.”

A paz, porém, foi breve. Numa noite de temporal, a energia caiu. Os alarmes dispararam. Inimigos de Leste invadiram a propriedade. Sofia correu, trancou as crianças no quarto seguro e colocou-se no corredor.

Não se escondeu. Ativou o sistema de sprinklers, inundando o corredor com espuma para incapacitar os invasores. Do alto da varanda, viu Lorenzo encurralado. Um homem enorme avançava sobre ele. Sofia ergueu uma pesada escultura de mármore e atirou-a sobre o agressor.

Três dias depois, Lorenzo ajoelhou-se diante dela no terraço. “Sofia Valente, não te posso prometer uma vida normal. Mas prometo que ninguém te voltará a magoar. Aceitas casar comigo?”

Cinco anos depois, um vídeo caseiro mostra um churrasco no jardim. João e Miguel, agora com onze anos, filmam. Sofia ri com uma menina ao colo, enquanto Lorenzo vira as sardinhas na brasa.

“A vida não é sobre encontrar alguém perfeito”, diz Sofia para a câmara. “Mas sim alguém que lute por ti quando o mundo inteiro está em chamas.”

Sofia não salvara apenas duas crianças. Salvára uma linhagem e redimira um homem que se julgava irredimível. De empregada de mesa, tornou-se a rainha de um império – armada com a única força mais poderosa que uma bala: o amor.

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