Um milionário contrata uma sem-teto para ter um filho, mas o nascimento traz uma surpresa chocante6 min de lectura

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Os néons do centro de Lisboa brilhavam contra o céu da meia-noite, enquanto os arranha-céus de vidro se erguiam como monumentos de ambição. Dentro de um deles, sentava-se Henrique Almeida, um homem de quarenta e dois anos que tinha tudo—dinheiro, poder, influência. Mas, ao olhar para a cidade que nunca parecia dormir, Henrique percebeu que faltava algo: um herdeiro. Um legado de sangue e nome que nem os seus milhões podiam comprar.

Já tinha tentado o casamento—duas vezes. Ambos desmoronaram sob o peso das expectativas e traições. Henrique concluiu que o amor não passava de uma ilusão frágil, um jogo que terminava em perda. Mas uma criança—isso era diferente. Uma criança era um investimento, continuidade. E, ao contrário do amor, isso podia ser controlado, planeado, executado como qualquer outro negócio.

Na manhã seguinte, Henrique entrou no seu carro desportivo, os assentos de couro rangendo sob o seu peso, e percorreu as ruas movimentadas de Lisboa. A sua mente não estava nas palmeiras que alinhavam as avenidas nem nos anúncios de marcas de luxo. Estava no problema de encontrar alguém disposto a carregar um filho para ele. Alguém sem envolvimentos emocionais, sem complicações. Apenas um contrato.

Parado num semáforo perto do centro, algo chamou a sua atenção. No canto do passeio, uma jovem mulher sentava-se no chão, desenhando num pedaço de papel rasgado. Tinha cabelo castanho desalinhado a cair sobre o rosto, e os seus olhos azuis pareciam brilhar através da sujidade do cansaço. Ela parecia invisível para todos os que passavam apressados, mas Henrique reparou nela. Contra os seus instintos, demorou-se. Quem desenha num passeio como se o resto do mundo não existisse?, pensou ele, amargamente. Quando o semáforo mudou para verde, obrigou-se a avançar, mas, uns quarteirões à frente, a imagem dela curvada sobre o desenho recusava-se a sair-lhe da mente. Com um resmungo frustrado, Henrique virou o volante, fez o carro regressar e voltou.

Ela ainda estava lá, agora apoiando o papel na parede. Henrique parou junto ao passeio e baixou o vidro fumado. “Ó rapariga. Anda cá.”

A jovem ergueu a cabeça, o olhar estreitado pela desconfiança enquanto estudava o homem de fato feito ao volante. Hesitou.

“Não estou a pedir,” disse Henrique, com firmeza. “Não tenho todo o dia.”

Lentamente, relutantemente, ela aproximou-se. De perto, a sua magreza era chocante, as roupas gastas, mas a sua postura carregava uma dignidade silenciosa. “O que é que quer?”, perguntou, a voz baixa mas firme.

“Entra. Vamos falar noutro lugar.”

Ela soltou uma risada seca. “Não sou uma dessas. Se é isso que está a pensar.”

Henrique apertou o maxilar. “Não seja ridícula. Não tenho tempo para isso. Só quero conversar. Agora entra, ou volta para o passeio.”

A hesitação permaneceu, mas a autoridade no seu tom deixava pouco espaço para recusa. Ela entrou.

O silêncio no carro era pesado enquanto Henrique conduzia até um café tranquilo, longe do barulho da cidade. Sentaram-se num canto, o murmúrio das conversas à volta deles. Ele estudou o rosto dela na luz ténue.

“Como te chamas?”, perguntou.

“Maria Silva”, respondeu ela, afiada. “Mas porque é que isso interessa?”

“Porque preciso saber com quem estou a lidar. Diz-me, Maria—porque é que te sentas nos passeios a desenhar como se nada mais existisse?”

Ela encolheu os ombros, evitando o seu olhar. “O que mais há para fazer? Não tenho para onde ir. Perdi tudo. Mas isso não é da sua conta.”

Henrique inclinou-se para a frente. “Então vou direto ao assunto. Quero fazer-te uma proposta. Algo que pode mudar a tua vida.”

Os olhos dela estreitaram-se. “E o que seria isso?”

“Quero que tenhas um filho para mim.”

Maria piscou os olhos, convencida de que tinha ouvido mal. “Está a brincar, não está?”

“Estou completamente sério. Vou cobrir todas as tuas despesas, dar-te todo o apoio durante a gravidez, e quando acabar, receberás dinheiro suficiente para nunca mais te preocupares em sobreviver nas ruas.”

Maria soltou uma risada sem humor, cruzando os braços. “Está louco. Que tipo de homem oferece isto a uma desconhecida?”

“O tipo de homem que sabe exatamente o que quer. Não quero amor, Maria. Não quero drama. Só um filho. Simples assim.”

Ela fitou-o, as palavras dele ecoando na sua cabeça. A audácia da proposta deixou-a abalada. Mas por trás daquele olhar gelado havia uma determinação que ela não podia ignorar. Isto não era uma brincadeira.

“Isto é uma loucura”, sussurrou. “Nenhuma mulher em sã consciência aceitaria isto.”

Henrique não vacilou. “Nenhuma mulher na tua posição recusaria.”

As palavras caíram como um golpe. Por mais que quisesse desprezá-lo, a verdade martelava-lhe a mente. Ele estava a oferecer conforto, estabilidade, uma escapatória à fome e ao frio. Mas a que custo?

“E depois?”, perguntou finalmente. “O que acontece quando o bebé nascer?”

“Receberás uma quantia considerável. Suficiente para começares de novo. Sem amarras. Serás livre.”

Ela zombou, amarga. “E como sei que não vai mudar de ideias e arrastar-me para tribunal?”

“Sou um homem de negócios. Não faço acordos sem garantir que todas as partes beneficiam. Terás um contrato vinculativo. Nenhum de nós pode alterar os termos depois.”

O silêncio prolongou-se entre eles enquanto Maria absorvia as suas palavras. A voz da mãe ecoou na sua cabeça: As oportunidades só batem uma vez. Mas que tipo de oportunidade era esta?

Quando finalmente falou, a sua voz estava firme. “Preciso de tempo para pensar.”

Henrique levantou-se, abotoando o casaco. “Tens vinte e quatro horas. Depois disso, a oferta desaparece.”

Ele saiu, deixando-a dividida entre a desesperança e a dignidade.

Naquela noite, enquanto o ar de Lisboa ficava mais frio, Maria enrolou-se num banco de jardim, a olhar para o céu nublado. O dia seguinte traria a mesma fome, a mesma invisibilidade, a menos que ela aceitasse. Mas, dentro dela, a ideia de entregar uma criança—o seu filho—roía-lhe a alma.

Entretanto, Henrique sentava-se no seu escritório no último andar, a vista da cidade estendida diante dele. O contrato estava ali, redigido pelos seus advogados com precisão. Ele odiava esperar, mas estava certo. Se Maria recusasse, outra aceitaria. Mas havia algo nela—a artista com fogo nos olhos—que ficara na sua mente.

Na noite seguinte, o intercomunicador soou. “Sr. Almeida, a Maria Silva está aqui.”

O pulso de Henrique acelerou mais do que esperava. “Manda-a subir.”

Minutos depois, ela estava à sua porta. Os olhos estavam cansados, mas a voz era firme.

“Eu aceito.”

Henrique estudou-a, à procura de hesitação, mas não havia nenhuma. Indicou a mesa. “Então vamos tornar isto oficial.”

O contrato era claro. Henrique providaria alojamento, comida, cuidados médicos e compensação. Em troca, ela renunciaria a todos os direitos sobre a criança. Maria assinou o nome com um traço rápido, selando um pacto que alteraria para sempre as suas vidas.

E assim começou—o mais inesperado dos acordos, contra o pano de fundo da riqueza de Lisboa e da ambição portuguesa.E anos depois, enquanto os filhos corriam pelo jardim daquela casa que os acolheu a todos, Henrique segurou a mão de Maria e sorriu, sabendo que o destino, por vezes, escreve histórias mais belas do que qualquer contrato.

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