O milionário chegou sem avisar na hora do almoço e não pôde acreditar no que viu. O som das chaves caindo no chão de mármore ecoou como um tiro no silêncio do hall, mas ninguém ouviu. Rodrigo, um homem acostumado a fazer o mundo tremer diante de sua presença, ficou paralisado na entrada da sua própria sala de jantar, sentindo o sangue gelar em suas veias enquanto fervia em suas têmporas.
O que seus olhos viam não fazia sentido – era uma alucinação causada pelo estresse ou talvez uma piada cruel do destino. Ele havia voltado três horas mais cedo do que o normal, numa terça-feira comum, para buscar alguns documentos esquecidos e retornar ao gelo de seu escritório de vidro no centro de Lisboa. Não esperava encontrar vida em sua mansão, nem calor, e definitivamente não esperava encontrar aquilo. Diante dele, na mesa de mogno importada que ninguém usava desde o funeral de sua esposa cinco anos antes, desenrolava-se uma cena que desafiava todas as regras de sua casa.
Beatriz, a jovemp empregada doméstica de apenas 20 anos, com seu uniforme azul e branco impecável, não estava limpando o pó nem lustrando a prataria. Ela estava sentada, e não estava sozinha. Ao redor dela, ocupando as cadeiras reservadas a dignitários e sócios comerciais, estavam quatro crianças. Quatro meninos idênticos. Rodrigo piscou, incapaz de processar a imagem. As crianças não deviam ter mais de quatro anos. Vestiam camisas azuis que lhe pareciam estranhamente familiares, como se o tecido tivesse sido arrancado de seu próprio passado, e pequenos aventais claros improvisados que cobriam seus peitos.
Eram quatro gotas d’água, quatro réplicas exatas, com cabelos castanhos desalinhados e olhos grandes e expressivos que seguiam avidamente os movimentos da moça. “Abram bem os biquinhos, meus passarinhos”, sussurrou Beatriz com uma voz tão doce que doeu no peito de Rodrigo ao ouvir. Ela segurava uma colher grande cheia de um arroz amarelo brilhante, fumegante e simples – um contraste violento com a opulência da porcelana que os cercava. Não era comida de rico, era comida de sobrevivência, arroz tingido com corante barato, mas as crianças olhavam para ele como se fosse ouro em pó.
Beatriz, com uma habilidade nascida da prática diária, depositava uma porção no prato de cada um, garantindo que as quantidades fossem milimetricamente iguais. “Comam devagar, hoje tem para todos”, ela dizia, acariciando a cabeça do que estava mais perto. Suas mãos, enluvadas com aquelas luvas amarelas de limpeza que usava para lavar os banheiros, agora acariciavam rostos infantis com uma ternura maternal que fez Rodrigo sentir um nó na garganta. Ele deveria ter gritado naquele instante.
Deveria ter entrado em fúria, exigindo saber o que aqueles estranhos faziam em sua mesa, sujando seus móveis, invadindo seu santuário de solidão, mas seus pés estavam pregados no chão. Algo no perfil daquelas crianças o mantinha hipnotizado. Quando o menino da extremidade esquerda virou a cabeça para rir de algo que seu irmão fizera, a luz do lustre iluminou seu perfil. Rodrigo sentiu o chão se abrir sob seus pés. Aquele nariz, aquela forma de curvar os lábios ao sorrir, até mesmo a maneira como a criança segurava o garfo com uma elegância inata que não combinava com suas roupas remendadas.
Era como olhar para um espelho que distorcia o tempo e o levava 40 anos para trás. O coração de Rodrigo começou a bater com uma violência dolorosa, batendo contra suas costelas como um animal enjaulado. Quem eram eles? De onde tinham vindo? Sua mansão era uma fortaleza cercada por muros altos e sistemas de segurança. Ninguém entrava sem sua permissão, e ainda assim, ali estavam quatro intrusos minúsculos comendo arroz amarelo em sua mesa proibida, atendidos por sua empregada como se fossem a realeza oculta de um reino esquecido.
A cena tinha uma intimidade doméstica que lhe era estranha e apavorante. As crianças riam baixo, um som borbulhante que a casa não conhecia. Beatriz limpava os cantos de suas bocas com um guardanapo de pano – um daqueles guardanapos de linho egípcio com suas iniciais bordadas – e lhes falava de um futuro onde não teriam fome quando fossem grandes e fortes, dizia ela, servindo o que restava na panela. “Vocês vão mandar, vão ser importantes, mas nunca, nunca se esqueçam de dividir seu arroz.” Rodrigo apertou sua pasta de couro até os nós dos dedos ficarem brancos.
A mistura de indignação e uma curiosidade voraz o consumia. Sentia-se um intruso em sua própria casa. A luz dourada da tarde entrava pelas janelas, banhando a jovem empregada e as quatro crianças em um halo quase celestial, enquanto ele permanecia nas sombras do corredor, um espectro cinza em traje social. Deu um passo à frente. O couro de seus sapatos italianos rangeu no assoalho. O som era imperceptível para qualquer um, mas para Beatriz, que vivia em estado de alerta constante, foi como um trovão.





