Quando o milionário Eduardo viu o filho da sua empregada, o pequeno Rodrigo, afirmar que falava três línguas, desatou numa gargalhada estridente diante de todos os convidados. “Este miúdo mal sabe português direito”, gracejou com crueldade, mas o que se seguiu deixou a sala em silêncio absoluto. A luxuosa vivenda dos Albuquerque fervilhava com o burburinho de vozes elegantes quando um silêncio cortante interrompeu todas as conversas.
Eduardo Albuquerque, o magnata do imobiliário, soltara uma gargalhada tão potente que os cristais da sala de jantar quase estremeceram. Os seus olhos brilhavam com uma frieza que fez Isabel, a empregada doméstica, instintivamente avançar para proteger o filho de onze anos. “Repete lá, miúdo”, ordenou Eduardo, apontando o dedo para a cara de Rodrigo, que permanecia imóvel no centro da divisão.
“Acabaste de dizer que falas três línguas. Tu, o filho da minha empregada?”, a pergunta ecoou pela sala como um chicote, fazendo os quinze convidados presentes voltarem-se para assistir ao espectáculo que se desenrolava. Rodrigo engoliu em seco, mas manteve os ombros erguidos. Os seus olhos castanhos cruzaram-se com os da mãe por um breve instante antes de responder com uma voz firme que contrastava com a sua idade.
“Sim, senhor Eduardo. Falo português, inglês e francês.” As palavras saíram claras, sem hesitação, mas o ligeiro tremor nas suas mãos denunciava o nervosismo que tentava esconder. A reacção foi instantânea e devastadora. Eduardo desatou noutra gargalhada, desta vez acompanhado por alguns dos seus convidados mais próximos.
“Estão a ouvir isto?”, dirigiu-se aos presentes, gesticulando dramaticamente. “O miúdo que passa o dia todo a ver televisão acha que é poliglota.” As risadas espalharam-se pela sala como um vírus maligno, contaminando até os que inicialmente pareciam desconfortáveis. Isabel sentiu as lágrimas arderem-lhe nos olhos enquanto via o filho ser ridicularizado em público.
As suas mãos tremiam ao segurar a bandeja de aperitivos e fez um esforço sobre-humano para não a deixar cair. “Por favor, senhor Eduardo”, sussurrou, a voz quase inaudível. “O Rodrigo é apenas uma criança. Ele não quis faltar ao respeito.” Mas as suas palavras perderam-se no burburinho de comentários maldosos que começaram a circular entre os convidados.
“Três línguas”, continuou Eduardo, enxugando lágrimas imaginárias dos olhos. “E eu aqui que pago uma fortuna para a minha filha Leonor ter explicações de inglês e ela mal consegue dizer uma frase completa.” Leonor, uma adolescente de quinze anos que observava tudo do cimo da escada, corou intensamente e desapareceu nos corredores superiores da mansão.
O Dr. Henrique Matos, um dos sócios de Eduardo, pigarreou desconfortavelmente. “Eduardo, talvez devêssemos…”, começou ele, mas foi imediatamente interrompido por um gesto brusco do anfitrião. “Não, não, Henrique, isto é uma oportunidade educativa”, declarou Eduardo, circulando em volta de Rodrigo como um predador a cercar a presa. “Vamos ensinar a este menino a realidade da vida, a conhecer o seu lugar.”
O frio na sua voz fez vários convidados remexerem-se inquietos nas cadeiras. Carolina Vaz, esposa de um importante industrial têxtil, sussurrou à amiga Beatriz: “Isto está a ir longe demais. É apenas uma criança.” Mas a sua voz foi abafada pelo som da taça de cristal que Eduardo bateu repetidamente com uma colher de prata, exigindo atenção total.
“Senhoras e senhores”, anunciou Eduardo com a pompa de um mestre de cerimónias de circo. “Hoje teremos um espectáculo especial. O pequeno génio aqui presente vai demonstrar os seus dotes linguísticos.” A ironia na sua voz era tão espessa que quase pingava no ar. “Afinal, se a minha funcionária tem um filho prodígio, eu preciso de saber, não é verdade?”
Rodrigo mantinha-se firme, mas Isabel via o esforço que isso custava ao filho. O menino tinha os punhos cerrados ao lado do corpo e a sua respiração tornara-se ligeiramente mais rápida. Ainda assim, quando falou, a voz manteve-se surpreendentemente controlada. “Eu não quis causar problemas, senhor. Só respondi quando a senhora Beatriz perguntou o que eu queria ser quando crescesse.”
“Ah, é verdade”, exclamou Beatriz Lopes, uma das convidadas mais jovens, com evidente embaraço. “Perguntei-lhe sobre os seus sonhos e ele disse que queria ser tradutor para ajudar pessoas de diferentes países a comunicarem. Achei adorável.” A sua voz diminuiu conforme percebeu que inadvertidamente causara a situação. Eduardo virou-se para encarar Beatriz com um olhar gelado.
“Tradutor, que romântico! E acreditou nessa fantasia infantil?”, voltou-se novamente para Rodrigo, aproximando-se tanto que o menino pôde sentir o cheiro do whisky caro no seu hálito. “Ouve bem, miúdo. Pessoas como tu não se tornam tradutores. Pessoas como tu seguem os passos dos pais. A tua mãe limpa casas. Tu vais crescer para fazer trabalhos manuais. Esta é a ordem natural das coisas.”
As palavras atingiram Isabel como golpes físicos. Trabalhara durante anos em turnos duplos e triplos, a poupar cada cêntimo para comprar livros usados e pagar pela internet mais barata disponível. Tudo para que Rodrigo pudesse ter acesso ao conhecimento que ela própria nunca tivera oportunidade de adquirir. Ver os sonhos do filho serem esmagados publicamente era mais doloroso do que qualquer humilhação pessoal que pudesse suportar.
“A minha mãe ensinou-me que o conhecimento não tem classe social”, disse Rodrigo. E pela primeira vez a sua voz tremeu ligeiramente. “Ela disse que qualquer pessoa pode aprender qualquer coisa se tiver dedicação suficiente.” O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eduardo ficou imóvel por alguns segundos, a processar a resposta do garoto. Quando finalmente reagiu, foi com uma fúria que surpreendeu até os seus convidados mais próximos.
“A tua mãe encheu-te a cabeça de ilusões”, rugiu ele, o rosto a ficar vermelho. “E agora vens a minha casa à frente dos meus convidados fingir ser algo que não és.” Apontou o dedo acusadoramente para Isabel. “Isto é o que acontece quando pessoas simples tentam sonhar além da sua realidade.”
Foi então que algo mudou no olhar de Rodrigo. A tristeza e o medo deram lugar a uma determinação que parecia demasiado madura para a sua idade. Endireitou os ombros e olhou directamente nos olhos de Eduardo, sem desviar o olhar. “O senhor quer que eu prove?”, perguntou Rodrigo, a voz agora firme como pedra. “Quer que eu prove que sei as línguas que disse saber?”
A pergunta apanhou Eduardo completamente desprevenido. Esperara lágrimas, desculpas, talvez uma saída envergonhada. Mas não uma oferta directa de demonstração. Os convidados murmuraram entre si, claramente interessados no desenrolar dos eventos. Rui Santos, empresário do sector das exportações, inclinou-se para a frente na sua cadeira. “Bem, isso seria interessante”, comentou ele, ignorando o olhar fulminante que Eduardo lhe dirigiu.
“Prova”, repetiu Eduardo, a voz carregada de incredulidade e irritação. “Tens a coragem de desafiar um homem que constrói edifícios inteiros, que emprega centenas de pessoas?” “Eu não estou a desafiar ninguém”, interrompeu Rodrigo respeitosamente. “Só quero mostrar que a minha mãe não mentiu, que ela não me encheu de ilusões, que tudo o que me ensinou é verdade.”
IsEle olhou para a mãe, cujo rosto estava agora banhado em lágrimas de orgulho, e disse com uma voz que ecoou por toda a sala silenciosa: “A prova, senhor Eduardo, começa agora, não com as línguas que aprendi nos livros, mas com a língua universal do respeito que a senhora minha mãe me ensinou desde o berço.”





