**Quinta-feira, 12 de Maio**
Quase me perdi num orfanato, mas a madrasta arrancou-me das trevas.
Quando era pequena, a minha vida parecia um conto de fadas. Uma família unida, num casebre simples à beira do Tejo, perto da pacata vila de Constância. Éramos três: eu, a minha mãe e o meu pai. O cheiro do pão-de-ló dela enchia a casa, e à noite, ele contava histórias das suas aventuras no rio. Mas o destino é caçador traiçoeiro, e ataca quando menos esperamos. Um dia, a minha mãe adoeceu. O seu riso calou-se, as mãos tremeram, e depressa ficou presa a uma cama de hospital em Santarém. Desapareceu a pouco e pouco, deixando-nos num mar de dor. O meu pai afogou-se no vinho barato, e a nossa casa virou ruínas cobertas de garrafas partidas e silêncio.
O armário da cozinha ficou vazio, testemunha muda da nossa queda. Eu arrastava-me para a escola, em Constância, com roupa suja e a barriga a roncar. Os professores ralhavam por eu não fazer os trabalhos—mas como podia estudar quando só pensava em sobreviver? Os amigos afastaram-se, os sussurros deles doíam mais que facadas, e os vizinhos olhavam com pena. Até que alguém chamou a Segurança Social.
As assistentes sociais invadiram a casa, prontas a arrancar-me das mãos trémulas do meu pai. Ele ajoelhou-se, chorando, implorando por uma última chance. Deram-lhe um mês—um fio de esperança sobre o abismo.
Aquilo abalou-o. Cambaleou até à mercearia, trouxe comida, e juntos limpámos a casa até ela recuperar um pouco do seu antigo calor. Prometeu parar de beber, e por um instante, vi nele o homem que eu conhecera. Comecei a acreditar num milagre.
Num dia de ventania, ele murmurou que queria apresentar-me alguém. O meu coração gelou—já se esquecera da minha mãe? Assegurou que ninguém a substituiria, mas esta era a nossa única saída.
Foi assim que conheci a tia Rosa.
Fomos à casa dela, em Abrantes, um lar antigo à beira do rio, cercado de sobreiros retorcidos. Rosa era um furacão—carinhosa, mas forte, com uma voz que acalmava tempestades e um olhar que guiava como farol. Tinha um filho, o Zé, dois anos mais novo que eu, um miúdo enérgico cujo riso espantava o frio. Rapidamente nos demos bem—corríamos pelas ruas, deitávamo-nos na margem até cairmos de cansaço. No caminho de volta, disse ao meu pai que a tia Rosa era como um raio de sol. Ele anuiu em silêncio. Duas semanas depois, arrumámos as coisas, alugámos a nossa casa e mudámo-nos para Abrantes—uma tentativa desesperada de recomeçar.
A vida melhorou aos poucos. Rosa cuidava de mim com tanto amor que as feridas começaram a cicatrizar—remendava as minhas calças rasgadas, fazia caldo verde, e à noite, ríamos com as piadas do Zé. Ele tornou-se meu irmão, não por sangue, mas por dor partilhada. Brigávamos, sonhávamos, fazíamos as pazes—a nossa lealdade não precisava de palavras.
Mas a felicidade é frágil, e o destino adora destruí-la. Num dia gelado de Inverno, o meu pai não regressou. O telefone tocou—um camião atingira-o numa estrada escorregadia. A dor devorou-me, sufocante. A Segurança Social voltou, implacável. Sem um tutor legal, arrancaram-me dos braços de Rosa e mandaram-me para um orfanato em Santarém.
Aquele lugar era um inferno—paredes cinzentas, camas frias, preenchidas por suspiros de almas perdidas. O tempo arrastava-se, cada minuto um golpe na alma. Sentia-me um fantasma, invisível, torturada por pesadelos de solidão eterna.
Mas Rosa não desistiu. Todos os domingos, aparecia com pão, cachecóis e a determinação de me trazer de volta. Lutou como uma loba—invadiu gabinetes, preencheu papéis, chorou sobre documentos enquanto desafiava a burocracia. Os meses passaram, e o desespero corroía-me; temia apodrecer naquele lugar.
Até que, uma manhã, a diretora disse: «Faz as malas. A tua mãe veio buscar-te.»
Saí e vi Rosa e o Zé no portão—os seus rostos brilhavam com esperança. As pernas falharam quando me atirei para os braços deles. «Mãe…», sussurrei entre lágrimas. «Obrigada por me tirares desta cova. Juro que o teu sacrifício não será em vão.»
Naquele momento, entendi: família não é só sangue—é a alma que luta por ti até ao fim.
Voltei para Abrantes, para o meu quarto, para a escola. A vida acalmou. Formei-me, arranjei trabalho. O Zé e eu mantivemo-nos unidos, a nossa ligação inquebrável como granito. Crescemos, formámos as nossas famílias, mas a Rosa—a nossa mãe—continuou a ser a nossa âncora. Todos os domingos, invadimos a casa dela, onde nos enche de canja e bifanas, enquanto o seu riso se mistura com as vozes das nossas mulheres, agora suas amigas. Às vezes, ao vê-la, inundo-me de gratidão por este milagre.
Serei eternamente grato ao destino por esta segunda mãe. Sem a Rosa, teria desaparecido—perdido nas ruas ou quebrado na escuridão. Ela foi a minha luz nas sombras mais profundas, e nunca esquecerei como me puxou da beira do abismo.
**Lição:** O amor verdadeiro não conhece limites—nem de sangue, nem de tempo. Quem luta por ti, essa é a tua família.





