A sala de artes do Colégio Elite de Lisboa cheirava sempre a óleo importado e a lápis de cedro acabados de afiar. Um aroma fino, distante, quase arrogante… o tipo de cheiro que, para João Miguel Almeida, o único bolsista da turma, significava uma coisa: dinheiro que não era seu.
Enquanto os colegas abriam estoques de tinta que valham mais que o aluguel do pequeno quarto que dividia com a mãe, João escondia as mãos debaixo da mesa. Não por vergonha do seu trabalho, mas pelas unhas escuras, marcadas de fuligem. Tentara lavá-las mil vezes, mas o carvão teimava em ficar, como um segredo grudado na pele—a marca do fogão a lenha, da panela de barro, dos dias em que o gás não chegava.
O professor Guilherme Mendonça caminhava entre as mesas com a postura rígida, o olhar afiado. Era daqueles que não ensinavam, apenas julgavam. E não viam arte—mediam o preço dos materiais. Para ele, talento não era um dom: era um privilégio.
—Tema final: «A Essência da Alma» —anunciara uma semana antes—. Quero técnica, composição e, acima de tudo, materiais decentes.
A turma obedecera. Telas impecáveis, tintas reluzentes, pincéis de marta. Obras que gritavam «eu pertenço». João, porém, chegara com uma folha de papel pardo, amarelecida pelos vincos, e um retrato feito inteiramente com carvão.
Não carvão artístico.
Pedaços que recolhera do fogão onde a mãe preparara o café da manhã.
No desenho estava Dona Isabel Almeida: o rosto cansado mas sorridente, as rugas como rios de trabalho, o olhar aceso de quem se recusa a desistir. João desenhara cada traço com uma precisão que não vinha da escola, mas do amor. Pusera o coração ali, como quem abre o peito e deixa algo vivo no papel.
Quando o professor Mendonça parou à sua frente, a sala silenciou. Um silêncio que esmaga.
Mendonça pegou a folha com dois dedos, como se tocasse algo sujo, contagioso. Levantou-a para todos verem… mas não para elogiar.
—E isto, João Miguel? —perguntou, com um sorriso cortante—. Eu pedi arte, não lixo. Achas que podes vir à minha aula, gastar o meu tempo e insultar-me com restos de carvão?
Uma risada nervosa ecoou atrás. Depois outra.
João sentiu os olhos queimarem. Mordeu o lábio para não chorar. Não queria dar-lhes esse gosto. Não ali.
—É… é a minha mãe, professor —sussurrou—. Não tive dinheiro para lápis… mas usei o que tinha para mostrar a alma dela.
Mendonça soltou uma gargalhada seca, cruel.
—Alma? Só vejo sujidade. Isto mancha os dedos. Isto não é técnica, é preguiça. Gente como tu acha que arte é desleixo, mas a arte exige investimento, classe e refinamento… coisas que claramente te faltam.
João sentiu o mundo desabar. Os olhares dos colegas trespassavam-no. Alguns com pena, outros com diversão.
E então Mendonça fez o pior.
Lento. Calculado. Para doer mais.
Rasgou o desenho ao meio.
Depois em quatro.
Depois em oito.
Os pedaços caíram sobre a mesa como confete triste.
—Refazes com materiais decentes ou chumbas. E agora… limpa esta porcaria e sai da minha sala.
As mãos de João tremiam ao recolher os fragmentos. O ar faltava-lhe. Sentiu que lhe tinham arrancado mais que papel—como se tivessem rasgado o rosto da mãe em carne viva.
Correu sem olhar para trás. Lá fora, o cheiro de relva molhada e carros caros enchia o ar. Sentou-se no banco da praça em frente à escola e, chorando, tentou juntar os pedaços como se pudesse remendar o coração.
Mas o vento—cruel como quem sabe humilhar—arrancou-lhe um fragmento das mãos. Rodou pelo passeio e parou aos pés de um sapato de salto alto.
Uma mulher agachou-se.
Trazia um casaco bege impecável, óculos escuros, uma mala de couro que pesava mais pelo prestígio que pelo conteúdo. Pegou no papel com cuidado, e ao vê-lo, imobilizou-se.
Era só um pedaço: o olho da mãe de João.
Um olho feito de carvão grosseiro, imperfeito… e ainda assim vivo. Havia dor ali. Havia ternura. Havia verdade.
A mulher ergueu o olhar para o rapaz.
—Foste tu… quem fez isto? —perguntou, voz suave mas firme.
João enxugou o rosto na manga, envergonhado.
—Sim… mas… não importa —murmurou—. Já o rasgaram.
Ela sentou-se ao seu lado, indiferente ao chão.
—Importa —disse—. Muito.
Tirou os óculos. Os olhos brilhavam de algo parecido com revolta.
—Sou Catarina Vaz —acrescentou—. Crítica de arte do Diário de Notícias.
João fitou-a como se ela dissera ser astronauta.
—O que… o que faz aqui?
Catarina não respondeu. Tirou fita-cola da mala—como se o mundo estivesse sempre a rasgar coisas e ela, a colá-las—e pediu-lhe os outros pedaços. João entregou-os, mãos a tremer.
Ali, no passeio, sob o sol, Catarina reconstruiu o retrato como um puzzle ferido. As cicatrizes do papel ficaram visíveis, como veias.
Depois tirou uma foto com o telemóvel, tão nítida que João temeu que o desenho, finalmente visto, se desfizesse.
Catarina guardou-o com cuidado.
E fez-lhe uma pergunta.
—Quem fez isto? Quem o rasgou?
João engoliu em seco. Hesitou. Dizer era desafiar um gigante. Mas o gigante já o esmagara. O que mais podia perder?
—O professor Mendonça —disse por fim—. Chamou-lhe lixo.
Catarina apertou os lábios.
—Não é lixo —sussurrou—. É a coisa mais honesta que vi em anos.
Naquela noite, João chegou a casa com os olhos inchados. Dona Isabel esperava-o com um prato de feijoada. Quando viu o rosto do filho, alarmou-se.
—Que aconteceu, menino?
João quis mentir. Quis dizer «nada». Mas a voz falhou-lhe.
—Rasgaram o meu desenho… o que te fiz.
Dona Isabel abraçou-o com força, mãos ásperas de tanto trabalhar.
—O papel rasga-se, filho —disse-lhe ao ouvido—. Mas o que tu és… isso ninguém rasga.
João não dormiu. O peito pesava-lhe, como se a fuligem lhe tivesse entrado na alma.
Na manhã seguinte, o professor Mendonça entrou na sala com a arrogância de sempre, um jornal debaixo do braço. Parecia satisfeito, como se a crueldade fizesse parte do método.
—Hoje falaremos da nova exposição no CCB —começou, e parou.
Algo estava errado.
A sala estava em silêncio. Mas não o silêncio habitual. Era um silêncio carregado, expectante. Todos olhavam para o professor… depois para João.
Mendonça franziu a testa.
—O que se passa? Porque me olham assim?
A porta abriu-se.
Entrou a diretora, Margarida Costa, rostoE atrás dela, com os olhos flamejantes de indignação, estava Catarina Vaz segurando a edição da manhã do Diário de Notícias, onde o desenho de João, rasgado e remendado, estampava a capa com a manchete: **”A ARTE QUE O ELITISMO TENTOU DESTRUIR: UM GÉNIO SEM DINHEIRO E O PROFESSOR QUE NÃO VIU A SUA ALMA”**.





