Ninguém conseguia se aproximar dele sem sair machucado. Um cavalo selvagem, imponente e violento, estava condenado ao abate até que, do nada, apareceu uma menina sozinha, abandonada, invisível para todos. Mas o que ela fez deixou toda a aldeia sem palavras, e o final dessa história mudou seus destinos para sempre.
“Some daí, pivete!”, gritou o açougueiro, atirando um pano sujo que ela desviou por pouco. Joana correu com o pedaço de pão nas mãos, sem olhar para trás. Seus pés descalços batiam nas pedras do beco enquanto as risadas dos adultos se perdiam atrás dos muros.
Ela não sabia que horas eram nem quanto tempo havia passado desde sua última refeição. Sabia apenas uma coisa: não podia ficar muito tempo no mesmo lugar. Atravessou a praça principal e se escondeu nos arbustos atrás dos estábulos do sítio. Ali, atrás da cerca de madeira onde ninguém a via, encolheu-se com as pernas junto ao peito.
O pão estava duro, mas não importava. Comeu devagar, observando os movimentos do outro lado da cerca. Tempestade estava inquieto de novo. O cavalo negro relinchava forte, batendo os cascos no chão. Era maior que os outros, mais escuro, mais selvagem. Cada vez que um dos homens tentava se aproximar, o animal se erguia, ameaçador.
Um deles caíra na semana passada. Fraturou o braço. Desde então, ninguém mais entrava no curral sem um chicote. Joana via tudo. Sempre via. Dia após dia, do seu canto escondido entre a grama seca e as tábuas quebradas, acompanhava cada movimento do animal.
Ela se fascinava com sua força, mas ainda mais com o ar de solidão que parecia envolvê-lo. Não era raiva o que ele tinha, era outra coisa—talvez medo, talvez desconfiança. A mesma que ela aprendera a usar como escudo.
Um portão batendo interrompeu seus pensamentos. Da sede do sítio saiu Seu Carlos, o dono da fazenda. Andava com passo firme, acompanhado por dois empregados. Um deles segurava uma pasta, o outro uma corda grossa.
“Não podemos mais arriscar”, disse Seu Carlos sem levantar a voz. “Esse animal não serve. Está amaldiçoado ou simplesmente louco. Vamos sacrificá-lo na segunda.”
Joana sentiu um nó no estômago.
“Tem certeza, patrão?”, perguntou um dos peões. “Podíamos vender por um preço baixo. Talvez alguém o queira.”
“E quem vai querer uma bomba-relógio com patas?”, resmungou Seu Carlos. “Já está decidido.”
Os homens se afastaram. Joana não se moveu. Não conseguia. Seus dedos apertaram o tecido do vestido rasgado. A palavra “sacrifício” ecoava em sua cabeça como um vento frio.
Tempestade continuava agitado, batendo no chão com espuma no focinho e o olhar perdido em algum ponto do céu. A menina o observou por um longo tempo, até seus olhos começarem a arder.
Então, sem pensar, levantou-se, esgueirou-se pelos arbustos e desapareceu.
Naquela noite, o sítio dormia. As luzes estavam apagadas, os peões roncavam na senzala, e o vento agitava os galhos secos do eucalipto que guardava o portão. Joana esperou até que tudo estivesse em silêncio. Então cruzou a estrada e se arrastou pelo buraco que conhecia entre as tábuas soltas da cerca. Não levava lanterna. Não precisava. A luz da lua era suficiente.
Tempestade a viu imediatamente. Relinchou. Movimentou-se com força. Seus cascos golpearam o chão. A menina parou a três metros dele, sem se aproximar mais. Não disse nada. Apenas sentou-se, não fugiu, não estendeu a mão, não tentou tocá-lo—apenas baixou a cabeça e esperou.
O cavalo bufou forte, mas não se aproximou nem se afastou. Respirava rápido, nervoso, como se não entendesse o que aquela criatura pequena fazia em seu espaço.
Ela ergueu lentamente o olhar, e os olhos deles se encontraram. Minutos passaram. Talvez horas. Então o animal virou-se, abaixou a cabeça e deitou no chão, dando-lhe as costas.
Joana não sorriu, não chorou. Apenas ficou ali, respirando fundo.
Quando o céu começou a clarear, ela levantou-se devagar, saiu por onde havia entrado e desapareceu novamente entre os arbustos. Não disse nada, mas aquela noite algo mudara.
O sol mal havia despontado atrás das montanhas quando os primeiros raios iluminaram o curral. Joana já não estava lá. Ninguém notou sua ausência. Ninguém soube que ela estivera ali. E, no entanto, algo parecia diferente.
Tempestade permanecia deitado num canto do curral, com a cabeça baixa e os olhos meio fechados. Não se movia como antes. Não bufava nem chutava as cercas.
Os homens do estábulo, acostumados com sua energia violenta desde o amanhecer, pararam para observá-lo, desconfiados.
“O que ele tem?”, perguntou António, o capataz, coçando a barba.
“Não sei, mas não gosto”, respondeu outro, apoiando um saco de aveia na roda de uma carroça. “Parece estranho, calmo, como se estivesse doente.”
Seu Carlos chegou pouco depois, com seu chapéu de aba larga e seu passo firme, como todas as manhãs. Tinha a testa franzida e os olhos cansados.
Ao vê-lo, os homens se endireitaram, e um deles abriu o portão do curral.
“E este aqui?”, murmurou Seu Carlos ao ver o cavalo deitado.
“Acordou assim, patrão”, respondeu António. “Quase não se mexeu. Nem quis comer o feno.”
Seu Carlos franziu ainda mais a testa. Entrou no curral com cautela, as mãos nos bolsos, o olhar fixo no animal. Aproximou-se alguns passos.
Tempestade ergueu a cabeça ao ouvi-lo, mas não fez menção de levantar-se. Apenas olhou. Suas orelhas não estavam para trás. Seus músculos, antes tensos como cordas, agora pareciam relaxados.
“Se calhar já se cansou de lutar”, disse um dos peões junto à cerca. “Talvez tenha entendido.”
Seu Carlos abanou a cabeça. “Cavalos como este não entendem. Só esperam o momento para soltar a fúria.”
Ajoelhou-se, pegou um punhado de terra úmida e deixou-a escorrer entre os dedos.
“Já tomei uma decisão”, acrescentou, levantando-se. “Não vou correr mais riscos. Esse animal tem de ir embora.”
Os homens não responderam. Todos sabiam o que “ir embora” significava.
“Chama o veterinário”, ordenou. “Quero que ele esteja presente quando o fizerem. Nada de erros. Que seja rápido.”
António anuiu em silêncio e foi embora sem dizer mais nada.
Naquele dia, os rumores espalharam-se como vento seco entre as paredes do sítio. Alguns diziam que Tempestade estava enfeitiçado. Outros juE, assim, sob o céu alaranjado do entardecer, Joana montou Tempestade pela última vez, cavalgando em direção ao horizonte onde o sol e a esperança se encontravam para sempre.





