Posso Dividir Esta Mesa?”, Perguntou Ela — “Só Se a Conta For Minha”, Respondeu EleEle estendeu a mão, não com uma nota, mas com um cartão de visita, e um sorriso que prometia um novo começo.6 min de lectura

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A chuva de verão batia suavemente contra os vidros da Pastelaria Rosa, um lugar acolhedor no coração do distrito financeiro de Lisboa. Lá dentro, a luz quente dos candeeiros de pendente iluminava um espaço onde o aroma do café acabado de moer se misturava com o cheiro dos pastéis de nata. No meio do alvoroço da hora de almoço, Matilde Santos estava à entrada, com a sua filha de cinco anos, Leonor, a agarrar-lhe a mão.

A roupa estava ligeiramente húmida do aguaceiro, e as tranças loiras de Leonor pesavam com a água da chuva. “Mamã, estou com fome”, sussurrou Leonor, puxando a manga da mãe.

Matilde percorreu a pastelaria com o olhar. Todas as mesas estavam ocupadas, exceto uma no canto, onde um homem de fato cinzento-carbono, impecavelmente talhado, estava sozinho, concentrado no seu portátil. O cabelo escuro grisalho nas têmporas e a expressão severa fizeram-na hesitar.

“Só um minuto, querida”, disse Matilde, ajustando a saca de lona gasta ao ombro que continha os seus currículos e portfólio.

Tinha acabado outra entrevista de emprego dececionante, a terceira naquela semana. Com a renda a vencer em 5 dias e pouco mais do que o suficiente na conta para as compras, não podia permitir-se uma refeição numa pastelaria tão cara. Mas a Leonor precisava de almoçar, e o aguaceiro não dava tréguas.

Respirou fundo e aproximou-se da mesa. O homem não ergueu os olhos quando ela parou à sua frente, os dedos a moverem-se rapidamente no teclado.

“Desculpe”, disse Matilde, a voz quase inaudível no ruído de fundo da pastelaria. Limpou a garganta. “Posso partilhar esta mesa?”

Ele olhou para cima, os olhos azuis penetrantes a encontrarem os dela com surpresa ligeira. O olhar desviou-se brevemente para Leonor, semi-escondida atrás das pernas da mãe, e depois de volta para Matilde. Por um momento, pareceu estar a calcular algo.

“Só se eu pagar a conta”, respondeu, a voz profunda carregada de um traço de autoridade.

As faces de Matilde coraram. “Não é necessário. Nós pagamos a nossa refeição.”

“Insisto”, disse ele, fechando o portátil e estendendo a mão. “Gonçalo Montenegro.”

Matilde hesitou antes de a apertar. “Matilde Santos. E esta é a Leonor.”

Gonçalo gesticulou na direção das cadeiras vazias. “Por favor, juntem-se a mim.”

Relutantemente, Matilde ajudou Leonor a sentar-se e sentou-se em frente a ele. Aceitar a oferta dele parecia uma desvantagem, mas o orgulho não alimentaria a sua filha.

Uma empregada aproximou-se. Gonçalo pediu um café para si e perguntou o que elas queriam.

“Nuggets de frango e sumo de maçã, por favor”, disse Leonor.

“Eu quero só uma salada pequena”, acrescentou Matilde, escolhendo deliberadamente um dos itens mais baratos.

Gonçalo ergueu uma sobrancelha. “Acrescente uma sanduíche completa ao pedido da senhora.”

“Não pedi uma sanduíche”, disse Matilde.

“Parece-me que precisa de mais do que uma salada”, respondeu Gonçalo, com ar objetivo. “A entrevista não correu bem?”

Matilde ficou tensa. “Como é que—”

“Saca de portfólio. Traje formal um pouco demasiado usado para quem já tem emprego. O ar de desapontamento.” Encolheu os ombros. “É o meu negócio ler pessoas.”

“E que negócio é esse, exatamente?”

“Dirijo a Montenegro Group.”

Matilde reconheceu o nome. A Montenegro Group era uma das maiores empresas de desenvolvimento imobiliário do país. Era dona de metade dos arranha-céus de Lisboa, incluindo o edifício onde ela acabara de ser entrevistada.

“É aquele Montenegro?”

“O próprio.”

Leonor, que tinha estado a observar em silêncio, falou subitamente. “A minha mamã é a melhor designer gráfica do mundo inteiro.”

A expressão de Gonçalo suavizou ligeiramente. “É verdade?”

“Ela faz desenhos bonitos para os computadores, mas ninguém a quer contratar porque são estúpidos.”

“Leonor”, repreendeu Matilde, embora com um sorriso.

“Bem, acho que as pessoas que não contrataram a tua mãe podem ter cometido um erro”, disse Gonçalo, depois olhou de novo para Matilde. “Design gráfico? Qual é a sua especialidade?”

“Identidade de marca e design UI/UX. Trabalhei para a Pereira & Costa durante 5 anos antes de reduzirem pessoal no inverno passado.”

O reconhecimento brilhou nos seus olhos. “Eles fizeram trabalhos impressionantes. Tem amostras consigo?”

A comida chegou antes que ela pudesse responder. Leonor concentrou-se imediatamente nos seus nuggets. Matilde pegou na sua saca e tirou o tablet.

“Estes são alguns dos meus projetos recentes.”

Gonçalo percorreu o seu portfólio com foco intenso. Matilde estudou-o. Apesar da presença intimidante, havia um cansaço em volta dos seus olhos, talvez solidão. O anel de casamento que ela notara antes parecia gasto e ligeiramente solto.

“Isto é muito bom”, disse ele, parando numa campanha abrangente de redesign de marca para uma cervejaria local. “Muito bom. Porque é que ainda não a contrataram?”

“O mercado é competitivo. E tenho limitações de disponibilidade. Mãe solteira.” Acenou na direção de Leonor.

Gonçalo acenou com a cabeça. “Não ofereceram horários flexíveis?”

“A maioria dos sítios quer alguém no escritório das 9 às 6. O ATL é caro, e o pai da Leonor não está na picture.”

Uma sombra passou pelo seu rosto. Olhou para o relógio caro, depois para a janela, onde a chuva começava a abrandar.

“A Montenegro Group está a lançar uma nova subsidiária focada em desenvolvimento de habitação sustentável”, disse ele. “Precisamos de uma identidade de marca distinta, separada do nosso trabalho corporativo. O nosso departamento de marketing é adequado, mas este projeto requer uma perspetiva fresca.”

Matilde pousou o garfo. “Está a oferecer-me um emprego, Engenheiro Montenegro?”

“Estou a oferecer-lhe a oportunidade de apresentar uma proposta para um contrato. Estamos a entrevistar empresas de design para a semana. Posso adicioná-la à agenda.”

A esperança cresceu, temperada pela cautela. “Porque é que faria isso?”

Ele olhou para Leonor. “Digamos que tenho um fraquinho por pais solteiros determinados.”

Entregou-lhe um cartão de visita. “Quarta-feira, 14h. Pergunte por mim na receção.”

Ao pegá-lo, os seus dedos roçaram nos dele. Ele pediu a conta.

“Não me agradeça ainda”, disse ele. “Vai competir contra empresas estabelecidas. O campo de jogo não é nivelado.”

“Nunca é”, respondeu Matilde. “Mas nunca deixei que isso me parasse.”

Enquanto ele pagava, Matilde reparou que ele observava Leonor com algo entre tristeza e saudade.

“Tenho de ir”, disse ele.

“Nós também”, respondeu Matilde.

Ele hesitou, depois escreveu algo no verso de outro cartão. “Este é o meu número pessoal. Caso tenha perguntas.”

Ao sair, Leonor correu à volta da mesa e abraçou-lhe as pernas.

“Obrigada pelos nuggets, Engenheiro Montenegro.”

Ele ficou gelado, surpreendido. Por uma fração de segundo, a sua expressão composta quebrou-se, revelando emoção crua. Depois, acariciou-lhe a cabeça com um gesto desajeitado.

“De nada, Leonor.”

Ao sair, Matilde sentE, meses depois, sob a luz suave do entardecer no jardim da sua nova casa, longe da influência da família Montenegro, os três riram-se de uma piada sem graça, um som simples e comum que, para eles, soava como a mais rara das vitórias.

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