Peguei uma Garota Faminta Invadindo Minha Casa. Em Vez da Polícia, Pedi Para Ela Tocar Piano. O Que Aconteceu Depois Me Chocou.6 min de lectura

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CAPÍTULO 1: Uma Sombra no Palácio de Vidro

O champanhe era uma safra de 98, o caviar vindo diretamente do Cáspio, e eu estava profundamente entediado.

Esse é o preço de ter tudo—no fim, nada mais te surpreende.

Meu nome é Vasco Monteiro. Se moras em Lisboa, conheces este nome. Já o viste em placas de hospitais ou arranha-céus imponentes. Esta noite era o meu Baile de Inverno anual na minha propriedade em Cascais. Lá fora, uma tempestade engolia o caminho com quase um metro de neve. Dentro, o termóstato marcava vinte e dois graus, e o ar carregava o perfume de riqueza herdada.

Eu estava junto à lareira, circulando o copo distraidamente enquanto um político falava sobre buracos fiscais, quando os gritos começaram.

Não eram suspiros refinados ou choque educado—eram berros crus, guturais.

“Tira as mãos de mim! Estou com fome! Só quero o pão!”

O quarteto de cordas—no meio de um concerto de Beethoven—parou imediatamente. As conversas morreram em silêncio.

Do outro lado da sala, perto das mesas de jantar, o meu chefe de segurança, Rui, lutava com algo pequeno e furioso.

Suspirei, deixando o copo no mármore da lareira. “Com licença, Senhor Ministro.”

Caminhei pelo salão. Convidados vestidos com roupas que valiam mais que um carro afastavam-se como o Mar Vermelho, expressões de nojo nos rostos.

“O que se passa aqui?” exigi, a voz cortando a tensão.

Rui olhou para mim, ofegante. Tinha o braço de uma criança agarrado com força.

Não devia ter mais de dez anos.

Era uma mancha na perfeição da noite. O rosto sujo de fuligem, vestida com um casaco masculino que lhe chegava aos joelhos, rasgado e manchado de algo que parecia óleo.

Mas foram os pés que me congelaram a atenção.

Descalços.

No meio do inverno, com uma tempestade lá fora, ela não tinha sapatos. Os dedos estavam vermelhos, inchados, rachados, deixando marcas húmidas no meu soalho polido.

“Senhor Monteiro,” Rui disse, com os dentes cerrados, apertando o punho enquanto ela se debatia. “Encontrei esta… ratazana a entrar pela porta de serviço. Estava a encher os bolsos de pães.”

A garota parou de lutar quando me viu. Olhou para cima, e os olhos surpreenderam-me—velhos demais para aquele rosto. Não com medo. Com raiva.

“Não estava a roubar,” ela gritou, a voz rouca. “Estava a levar as sobras. Iam deitá-las fora mesmo.”

Um murmúrio de choque percorreu a sala. Uma mulher de vestido de veludo vermelho agarrou as pérolas. “Que audácia,” sussurrou.

Olhei para a mesa atrás dela—transbordando de lagosta, vitela, pastéis de nata. Ela não mentia. Desperdiçávamos comida suficiente para alimentar uma vila.

Mas eu não era caridade. Era um homem de negócios. E odiava interrupções.

“Rui,” disse friamente. “Chama a polícia. Tira-a da minha frente.”

“Não!” Ela gritou, caindo de joelhos e arrastando Rui consigo. “Por favor! Não a polícia. Eles vão nos separar. Não posso voltar para o sistema. Por favor!”

“Nos?” Franzi a testa. “Estás sozinha.”

“O meu irmão,” ela soluçou, as lágrimas lavando a sujidade do rosto. “Ele está lá fora. Está doente. Precisa de comida. Por favor, senhor. Eu faço qualquer coisa. Posso limpar o chão. Só me dê um prato.”

Olhei à volta. Os convidados observavam, curiosos para ver se o “Lobo de Ferro de Lisboa” tinha um coração.

Eu não tinha. Corações são um risco.

Mas tinha curiosidade. E um senso de humor perverso.

Revirei a sala. Limpar chão? Chato. Lavar pratos? Inútil.

Então os meus olhos pousaram no centro da sala.

O meu piano de cauda Steinway & Sons—elegante, negro, imponente—repousava no palco. Uma obra-prima de duzentos mil euros, intocada a noite toda depois do pianista cancelar.

Uma ideia surgiu. Cruel. Divertida.

“Larga-a, Rui.”

Rui hesitou. “Senhor?”

“Eu disse para largares.”

Ele soltou-a. Ela recuou, esfregando o braço ferido, os olhos saltando para a porta como um animal encurralado.

“Disseste que fazias qualquer coisa por um prato de comida,” disse, aproximando-me. Inclinei-me sobre ela. “É verdade?”

Ela anuiu, desesperada, olhando para um prato de bacalhau. “Sim. Qualquer coisa.”

“Bom.” Apontei para o Steinway. “Toca.”

A sala ficou em silêncio.

Ela piscou, confusa. “O quê?”

“O piano,” disse, o tom carregado de desafio. “Queres comer como rainha? Então entretém-nos. Senta-te e toca-me uma música. Se for boa—se conseguires prender a atenção dos meus convidados por cinco minutos—podes levar toda a comida que conseguires carregar.”

Alguns convidados riram, nervosos. Achavam que era uma piada. Um espetáculo para humilhar uma miúda da rua.

“E se não conseguir?” ela murmurou.

Abaixei-me, olhando-a nos olhos. “Então o Rui atira-te para a neve, e eu chamo a polícia por invasão de propriedade.”

Impossível. Ela era sem-abrigo. Provavelmente não sabia ler, muito menos tocar um piano de concerto.

Esperei lágrimas. Suplícios.

Em vez disso, ela olhou para o piano—realmente olhou—com uma intensidade que me surpreendeu. O medo desapareceu, substituído por algo perturbadoramente calmo.

Olhou para as mãos sujas. Mexeu os dedos congelados.

“Está bem,” disse.

Arqueei uma sobrancelha. “Está bem?”

“Eu toco.”

Virou-se e caminhou para o palco, mancando ligeiramente, os pés descalços batendo suavemente no chão. Os convidados recuaram, afastando as roupas caras para não tocarem na “imundície”.

Ela subiu os dois degraus. O banco era alto demais, mas não o ajustou—apoiou-se na ponta.

Parecia ridícula. Um pontinho sujo diante de um monstro negro.

“Isto vai doer,” murmurou um homem ao meu lado, tapando os ouvidos com ironia. “Aposto cinco euros que ela bate nas teclas como um bebé.”

“Dez que ela o estraga,” riu outro.

Cruzei os braços, sorrindo. “Vamos lá, miúda,” gritei. “Impressiona-me.”

Ela não olhou para trás. Fechou os olhos. Respirou fundo, trémula.

As mãos pairaram sobre as teclas—unhas negras de sujidade, nós dos dedos feridos.

Olhei para o relógio, pronto a ordenar a Rui que a tirasse dali no primeiro erro.

Então ela baixou as mãos.

E o mundo parou.

CAPÍTULO 2: Sangue no Marfim

Não era uma melodia infantil. Não era “Pirilampo” ou “O Meu Chapéu Tem Três Bicos”.

O primeiro acorde que saiu do Steinway atingiu-me como um trovão. O Prelúdio em Dó Sustenido MenE, enquanto as notas do piano ecoavam pela casa, finalmente entendi que a verdadeira riqueza não estava nos milhões que acumulei, mas nas duas vidas que, por acaso do destino, agora dependiam do meu amor.

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