Os trigémeos da limpeza não se chegavam a ninguém, até se afeiçoarem ao empresário que sofria. Naquela noite, enquanto Henrique assinava papéis importantes, três crianças de camisas azuis tomaram uma decisão que ninguém ali seria capaz de entender. E foi isso mesmo que mudou tudo.
Henrique estava sozinho naquela sala enorme há mais de três horas, e o silêncio pesado só era quebrado pelo som da caneta a raspar no papel. Assinava documento atrás de documento, sem conseguir tirar da cabeça o rosto de cada colaborador que seria despedido na segunda-feira. Eram 342 nomes que tinha decorado sem querer, de tanto olhar para aquelas listas.
Pessoas que trabalhavam com ele há anos, que o cumprimentavam todos os dias no corredor com um sorriso, a pensar que os seus empregos estavam seguros. E agora ele tinha de acabar com tudo isso por causa de más decisões que tinha tomado nos últimos meses.
Investimentos que pareciam brilhantes no papel, mas que na prática tinham sangrado a empresa até quase acabar com tudo. O pai dele tinha morrido há dois anos, deixando tudo nas suas mãos. E Henrique tinha a certeza absoluta de que estava a desapontar o velho, mesmo depois de morto. A pressão no peito apertou com mais força e ele atirou a caneta para cima da mesa, fechando os olhos por um instante, a tentar respirar fundo, mas o ar não descia.
Ficava preso na garganta, como se o corpo se estivesse a recusar a funcionar. Foi nessa altura que ouviu a porta a abrir-se devagar e uma voz feminina a sussurrar qualquer coisa que não conseguiu perceber. “Dr. Henrique, desculpe incomodar. Só vim buscar os meus meninos que ficaram a brincar aqui perto.”
A voz era baixa, quase envergonhada, e Henrique abriu os olhos devagar, virando a cabeça para ver quem tinha entrado. Era Clarisse, a senhora que limpava o escritório todos os dias depois de toda a gente ir embora. Ela estava parada na porta, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo e os olhos fixos no chão, como se tivesse medo de olhar diretamente para ele. Henrique conhecia-a de vista, cumprimentava-a sempre que a cruzava nos corredores, mas nunca tinha parado para conversar a sério.
Sabia apenas que ela trabalhava no turno da noite e que fazia sempre o seu serviço em silêncio, sem incomodar ninguém. Ia responder qualquer coisa educada e voltar para os papéis quando reparou em três crianças pequenas atrás dela, três meninos idênticos, com cabelos louros e camisas azuis, a olhar para tudo com aquela curiosidade típica dos mais pequenos.
Trigémeos, pensou Henrique automaticamente. E pela altura deles deviam ter dois anos, no máximo. “Pode entrar, sem problema”, disse Henrique, fazendo um gesto com a mão. A voz saiu mais cansada do que ele queria. Clarisse deu um passo para dentro da sala e os três meninos entraram com ela.
Mas, em vez de ficarem perto da mãe, como Henrique esperava, os três começaram a caminhar devagar em direção à mesa onde ele estava sentado. Clarisse arregalou os olhos e deu um passo rápido à frente, a tentar agarrá-los. “Pedrinho, Paulinho, Carlinhos, voltem aqui já. Não mexa em nada.”
Falou com aquela voz de mãe que tenta soar firme, mas que na verdade está a morrer de vergonha. Os meninos não ligaram nenhuma a ela. Continuaram a andar até chegarem bem perto da cadeira de Henrique. Ele ficou sem saber o que fazer, porque nunca tinha sido muito bom com crianças. Não sabia como conversar com elas ou que tipo de coisas dizer.
Mas antes que pudesse pensar em alguma coisa, os três meninos simplesmente agarraram-se a ele. Um subiu-lhe para o colo sem pedir licença. Outro segurou-lhe a gravata com as mãozinhas pequenas e o terceiro apoiou os braços na perna dele, a olhar para cima com um sorriso enorme no rosto.
Henrique ficou completamente paralisado, sem saber como reagir. Clarisse estava vermelha, de vergonha, a tentar tirar os meninos de cima dele. “Meu Deus, desculpe, doutor. Eles nunca fizeram isto antes. Juro, eles não se aproximam de ninguém assim, nem do meu irmão que mora comigo.” Falou depressa enquanto tentava agarrar o menino que estava no colo de Henrique, mas a criança agarrou-se ao fato dele com uma força impressionante para alguém tão pequeno.
“Pedrinho, larga. Pelo amor de Deus. Larga o doutor agora.” Clarisse insistiu com a voz a tremer de nervosismo, mas o menino não largou, antes pelo contrário, encostou a cabecinha no peito de Henrique e fechou os olhinhos como se estivesse no lugar mais seguro do mundo. Os outros dois fizeram a mesma coisa.
Um deles começou a brincar com a gravata enquanto o outro subiu para a cadeira para ficar mais perto. Henrique sentiu algo estranho a acontecer dentro dele. Uma sensação que não conseguia nomear. O peito que estava apertado há horas de repente pareceu afrouxar um pouco. A respiração que estava presa começou a sair mais facilmente. E pela primeira vez naquela noite horrível, ele não estava a pensar nos malditos documentos ou nos colaboradores que seriam despedidos ou na empresa que estava a ir por água abaixo.
“Fica quieto, pelo amor de Deus.” Clarisse estava quase a chorar de vergonha. Agora puxou o braço de um dos meninos, a tentar afastá-lo de Henrique, mas a criança começou a choramingar e agarrou-se ainda com mais força. Henrique levantou a mão num gesto calmo. “Não precisa de os tirar, está tudo bem”, disse, e até ele se surpreendeu com o tom da própria voz. Estava mais suave do que tinha estado o dia inteiro.
Clarisse parou a meio do movimento e olhou para ele com uma expressão confusa. “Mas, doutor, eles estão a atrapalhar o senhor. O senhor está a trabalhar?” E começou a falar. Mas Henrique abanou a cabeça. “Não estão a atrapalhar nada. Pode deixá-los ficar um bocado?” Disse. E desta vez até esboçou um meio sorriso.
O primeiro sorriso genuíno que conseguia dar há semanas. Clarisse ficou ali parada sem saber o que fazer, as mãos ainda estendidas no ar, como se estivesse pronta para arrancar os meninos dali a qualquer momento. “Tem a certeza, doutor? Eles podem sujar o fato do senhor ou amassar os papéis ou…” tentou argumentar, mas Henrique já tinha voltado a sua atenção para as crianças.
O menino que estava no seu colo tinha aberto os olhos e estava a olhar para ele com aquela intensidade que só as crianças pequenas conseguem ter. Os olhos azuis a brilhar cheios de curiosidade. Henrique reparou que o pequeno estava a esticar a mãozinha na direção da caneta que estava em cima da mesa. “Quer a caneta?”, perguntou Henrique, pegando no objeto e mostrando-o ao menino.
A criança deu um gritinho de alegria e pegou na caneta com as duas mãos, como se fosse o brinquedo mais incrível do mundo. Começou a balançá-la no ar, fazendo barulhinhos com a boca. Os outros dois meninos viram aquilo e imediatamente fizeram a mesma coisa. Começaram a puxar a camisa de Henrique e a apontar para a caneta, fazendo uma bela trapalhada.
“Calma, calma, há para toda a gente.” Disse Henrique, pegando em mais duas canetas da mesa e entregando uma a cada um. As três crianças ficaram extasiadas com aquilo. Começaram a brincar com as canetas, como se fossem espadas ou aviões, fazendo sons estranhos e a rir muito. ClarO anoitecer caía sobre Lisboa quando Henrique, olhando para os três pequenos adormecidos no sofá da nova sala, percebeu que a sua maior herança não era a empresa, mas a família improvável que o destino, com uma pitada de ironia e três pares de mãozinhas, lhe tinha colocado no colo.





