O Viúvo Rico Jurou Nunca Mais Amar — Até Ver a Bondade de uma Estranha5 min de lectura

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Ricardo Santos ficou imóvel na entrada do restaurante do Hotel Vista do Tejo, como se o ar à sua volta tivesse endurecido. Ali viu algo que não via há semanas: sua filha Beatriz, de quatro anos, abrindo a boca com entusiasmo para receber uma colherada de sopa. Não uma colherada qualquer, mas a que uma jovem empregada lhe oferecia com paciência, sorrindo como se aquela cena fosse a coisa mais natural do mundo. Beatriz, que transformara as refeições numa batalha desde a morte da mãe, agora engolia sem protestar, com as bochechas coradas, e até erguia o polegar com a solenidade de uma rainha em miniatura.

“Olha, pai! Está bom!” disse Beatriz, limpando o queixo com o guardanapo que a empregada lhe entregou antes que uma gotinha caísse.

Ricardo sentiu um golpe no peito. Aquele “pai” não era novo, mas a forma como ela o dissera, com brilho e não com resignação, era como ouvir uma canção esquecida. Ao lado dele, uma babá de roupa impecável recolhia suas coisas com o rosto tenso.

“Senhor Santos… Lamento muito, mas demito-me. Sua filha é… difícil demais para qualquer um,” murmurou, sem esperar resposta.

Ricardo nem sequer a olhou. Fez apenas um gesto automático, como se falasse de um contrato e não da quinta desistência em menos de um mês.

“O acerto estará pronto amanhã.”

A babá saiu, e Ricardo continuou a observar. A empregada sussurrava algo para Beatriz, como um segredo partilhado. Beatriz ria com uma risada pequena, meio tímida, mas verdadeira. Ricardo sentiu que, se piscasse, a cena se desfaria.

“Quem é ela?” perguntou ao gerente, António Lopes, quando o viu aproximar-se.

“Uma nova empregada. Carolina Oliveira. Contratei-a há um mês. Algum problema?”

Ricardo abanou a cabeça sem desviar o olhar.

“Pelo contrário… acabou de resolver um.”

António franziu a testa, desconfortável. Notava-se que lhe incomodava ver a sua equipe “fora do lugar”.

“Ela devia atender as mesas sete a doze, não brincar de babá. Vou falar com ela.”

“Não,” deteve-o Ricardo, com uma calma que soou a ordem. “Eu trato disso.”

Ricardo caminhou até à mesa sentindo os últimos dois anos golpeá-lo por dentro. Marta, sua esposa, morrera subitamente, e desde então ele refugiara-se em reuniões, voos, contratos. Expandir a cadeia de hotéis pelo mundo era mais fácil do que olhar a filha nos olhos e aceitar que ele também estava destroçado. Regressara a Lisboa buscando “um novo começo”, mas só encontrara a sua incapacidade de se aproximar de Beatriz sem que a menina o olhasse como se fosse um estranho de fato caro.

“Como conseguiste que ela comesse?” perguntou, direto, sem rodeios.

Carolina ergueu os olhos e assustou-se ao reconhecê-lo. Apertou a colher como se fosse uma prova de exame.

“Senhor Santos… eu… peço desculpa se extrapolei…”

“Perguntei como conseguiste,” insistiu ele, mas a voz não era dura, era desesperada.

Carolina respirou, e a sua expressão mudou, como se lembrasse que ali estava uma criança, não o dono de um hotel.

“Contei-lhe uma história,” disse, acariciando o cabelo de Beatriz. “Disse-lhe que as princesas guerreiras precisam de energia para as suas aventuras. Não é, Bia?”

“Sim! Como a Vaiana!” saltou Beatriz, orgulhosa, abrindo a boca para outra colherada.

Ricardo sentiu um calor estranho atrás dos olhos. Não era só o facto de ela estar a comer. Era ver que confiava. Que se deixava cuidar.

“Tenho de voltar ao trabalho, senhor,” murmurou Carolina, levantando-se com o desconforto de quem sente que cruzou um limite invisível.

Ricardo anuiu, mas antes que pudesse dizer mais, António apareceu com tom severo.

“Menina Oliveira, preciso falar consigo. Agora.”

Carolina seguiu-o até à cozinha. Ricardo ficou com Beatriz, e a menina, como se o mundo fosse desmoronar-se, franziu a boca.

“Quero que a Carolina me dê comida, não tu!” protestou, cruzando os braços.

Naquela tarde, na suíte presidencial, Ricardo tentou concentrar-se em documentos, mas a imagem de Beatriz a rir não o deixava. Então recebeu uma chamada da receção: uma jovem insistia em despedir-se da sua filha. Chamava-se Carolina Oliveira.

Quando Carolina entrou, Beatriz correu para ela como se reencontrasse o seu porto seguro.

“Carolina, vamos brincar!”

Carolina abraçou-a com um sorriso triste.

“Olá, princesa… vim dizer-te adeus.”

Ricardo levantou-se de repente.

“Adeus? De que estás a falar?”

Carolina olhou para o chão.

“O senhor Lopes despediu-me. Disse que abandonei as minhas funções.”

Ricardo sentiu a raiva subir-lhe pelo pescoço. No seu mundo, despedir alguém era um formalidade. Mas despedir a única pessoa que conseguira chegar a Beatriz era… sabotagem.

“Despediu-te por ajudares a minha filha?” perguntou, incrédulo.

“Foram as regras, senhor Santos. Não devia ter deixado o meu posto.”

Beatriz agarrou-se à perna de Carolina como se a vida dependesse disso. Ricardo olhou para ela e, pela primeira vez em muito tempo, tomou uma decisão impulsiva sem pedir permissão ao próprio medo.

“Ofereço-te o dobro do salário para seres a babá temporária da Beatriz.”

Carolina olhou para ele como se não tivesse ouvido bem.

“Senhor… eu não tenho certificações…”

“E então?” interrompeu ele, indicando Beatriz com um olhar. “A minha filha confia em ti. Isso vale mais que qualquer papel.”

Carolina hesitou. Os seus lábios tremeram antes de falar.

“A minha mãe está doente,” confessou. “Precisa de tratamentos caros. Eu estava a juntar dinheiro… e agora…”

Ricardo aproximou-se, mais humano que empresário.

“O hotel vai cobrir o seguro como empregada direta,” disse. “E podemos discutir um adiantamento para o urgente.”

Os olhos de Carolina humedeceram-se, mas ela manteve-se firme.

“Aceito… mas que fique claro que é temporário.”

Ricardo estendeu a mão.

“Bem-vinda à família. Temporariamente.”

Nenhum dos dois imaginou, ao apertarem as mãos, que aquela palavra começaria a doer mais que qualquer contrato. Porque a cada dia que passava, “temporário” parecia menos uma regra e mais uma ameaça. E a ameaça tornou-se mais real quando se aproximou o baile anual do hotel, aquela noite elegante onde todos olhariam, julgarRicardo e Carolina, de mãos dadas, olharam para Beatriz e o pequeno Mateo correndo pelo jardim do Hotel Vista do Tejo, sabendo que, depois de tantas perdas, finalmente encontraram um amor que transformava até os erros do passado em passos firmes rumo a um futuro que construíram juntos.

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