Acordei na escuridão, com uma dor que latejava como uma sirene dentro da minha cabeça e a clara sensação de que a minha vida pendia de uma decisão alheia.
A voz do meu marido atravessou a névoa, tranquila em excesso, perigosamente serena.
— Boa noite, agente. Foi um incidente na estrada secundária.
Um batimento.
Depois a verdade, afiada como uma ideia impossível de ignorar:
— Ela já não é um problema. Amanhã tudo ficará em meu nome.
O sussurro de uma mulher tremeu perto de mim.
— E se ainda estiver viva?
Ele soou quase divertido.
— Não está. Eu verifiquei.
O medo inundou-me o peito, mas contive-o. Segurei a respiração e fiquei imóvel, à escuta, à espera do momento exato em que tomariam a próxima decisão.
A primeira coisa que notei foi a areia entre os dentes e um sabor metálico na boca. Tinha a face pressionada contra o cascalho frio. Algures acima de mim, um motor mantinha-se ao ralenti, firme, paciente, como se o tempo não importasse.
Não abri os olhos. Deixei que os cílios repousassem sobre a pele e concentrei-me em não me mover. A cabeça latejava-me em ondas lentas e profundas, e quando tentei engolir, um incómodo agudo percorreu-me o pescoço.
Então ouvi o Jorge.
— Boa noite, agente. Um percalço na estrada municipal — disse com aquela voz entrecortada que sempre usava com empregados de mesa, vendedores ou funcionários do banco.
Um segundo depois, baixou o tom.
— Já não é um problema. Amanhã tudo ficará resolvido.
Uma mulher soltou uma risada suave. Não era polícia. Demasiado casual. Demasiado perto.
— E se ainda respirar? — perguntou ela.
— Não — respondeu o Jorge —. Verifiquei o seu estado.
O estômago contraiu-se-me com força. Forcei-me a permanecer quieta, contendo a respiração como quando era criança e brincava às escondidas, como quando te mergulhas debaixo de água e temes que alguém te veja.
O cascalho moveu-se perto da minha orelha. Um sapato roçou a minha face. Lutei contra o impulso de estremecer.
— Meu Deus… — sussurrou a mulher, quase com admiração —. Conseguiste, realmente.
O Jorge exalou.
— Tinha de ser discreto. Se reagisse, ia falar.
A voz dela tornou-se prática.
— O agente vai fazer perguntas. Precisas de uma versão clara.
— Já a temos — disse o Jorge —. Ela insistiu em conduzir. Apareceu um veado. Deu uma guinada. A carrinha capotou. Trágico.
Imaginei a nossa carrinha, a que comprámos na primavera passada depois de ele me ter convencido de que era “um bom investimento”. A mesma que ele insistiu em segurar em meu nome, porque era “mais simples”.
Uma radio crepitou ao longe. Então sim, havia um agente perto, ou pelo mesmo a aproximar-se. O meu coração batia com força, suplicando-me que me mexesse, que falasse, que fizesse algo.
Mas o Jorge conhecia os meus sinais. Sabia como eu encolhia os ombros quando entrava em pânico, como me custava fingir calma.
Uma mão tocou o meu pulso.
Quis afastar-me, mas não o fiz. Deixei que o braço pende sem força.
Os dedos do Jorge pressionaram o interior do meu pulso, à procura. Depois cantarolou, satisfeito.
— Vês? Nada.
A mulher disse:
— Então sigamos antes que passe mais alguém.
E de repente, suficientemente perto para perceber a colónia do Jorge e o hálito a cigarro dela, ouvi o clique metálico de algo que se abria — como o fecho de uma bagageira —, seguido pelo roçar do plástico contra o cascalho.
O som parou ao meu lado.
Mantive os olhos fechados, mas a minha mente reconstruiu a cena: um toldo. Algo para cobrir. O Jorge sempre odiou desarrumação.
— Tens a certeza que não a queres deixar aqui? — perguntou ela —. Já parece um acidente.
— Não — a voz do Jorge tensou-se —. Os incidentes são revistos. As pessoas… são procuradas. Ela precisa de desaparecer por um tempo. Só até que se resolvam as papeladas.
A minha garganta secou. Desaparecer.
Uma porta bateu nalgum ponto da estrada. Uma voz masculina ouviu-se entre as árvores.
— Está tudo bem aí?
O Jorge recuperou o tom num instante.
— Sim, agente! Por aqui!
Passos a aproximarem-se. Soube que era um agente local pela forma como as suas botas analisavam o terreno.
— Minha senhora? — perguntou —. Ouve-me?
Relaxei o corpo. Separei ligeiramente os lábios, como inconsciente. Não respirei. A ardência no peito foi intensa, mas resisti.
O Jorge interpôs-se; ouvi-o no crujir do cascalho.
— Ela… partiu, agente. Fiz o que pude. Verifiquei o seu estado.
O agente suspirou.
— Lamento. Esta estrada é complicada de noite. Vou chamar apoio e o reboque. Senhor, o que aconteceu?
O Jorge repetiu a história do veado com a fluidez de algo ensaiado. Enquanto falava, a mulher aproximou-se novamente dos meus pés.
— O toldo está pronto — murmurou, como se organizasse algo trivial.
O agente pediu documentos. O Jorge afastou-se uns passos. Isso criou espaço.
A mulher agachou-se junto a mim.
— Estás a fazer muito bem — sussurrou, referindo-se ao plano —. Isto vai resultar.
A sua mão deslizou por baixo do meu ombro para calcular o meu peso.
Então soube que não podia continuar à espera.
Deixei que o meu peito se elevasse ligeiramente e tossi, suave, débil, como um reflexo.
A mulher ficou imóvel.
Tossi de novo e abri os olhos. A dor foi intensa, mas consegui focar. O seu rosto estava a centímetros do meu. Não era autoridade. Apenas alguém que tinha ajudado o meu marido a tentar silenciar-me.
— Não… não, não — murmurou.
A minha boca formou uma única palavra:
— Ajuda.
A voz do agente cortou a noite.
— O que foi isso?
Ela endireitou-se demasiado depressa.
— Ela… ela só…
Levantei a mão, a tremer, e apontei.
— Ele… foi ele.
As botas do agente rangeu ao correr.
— Minha senhora, fique comigo! Senhor, para trás! Mãos visíveis!
O Jorge protestou.
— Ela está confusa! Bateu com a cabeça!
O agente ajoelhou-se ao meu lado e tocou-me o pescoço com cuidado. A sua expressão mudou.
— Tem pulso. Central, preciso de assistência médica imediata. Possível agressão prévia.
Pensei que já estava a salvo. Enganei-me.
Parte 2 …
Vi o olhar da mulher desviar-se para as árvores.
Os passos do Jorge recuaram.
Então, de forma repentina, o Jorge lançou-se sobre o agente e a noite encheu-se de vozes alteradas.
Tudo ocorreu ao mesmo tempo.
O agente conseguiu afastá-lo, mas o Jorge tinha a vantagem da surpresa e do desespero. Forcejaram, as botas a resvalarem sobre o cascalho. A radio do agente emitiu um apito ao balouçar contra o seu peito.
A mulher levantou as mãos de imediato, fingindo ser apenas uma testemunha, como se não tivesse estado envolvida segundos antes.
Ergui-me apoiada num cotovelo. O mundo inclinou-se e as bordas da minha visão turEnquanto a mulher tentava fugir, o agente, com uma destreza surpreendente, agarrou-a pelo braço e puxou-a para o chão, imobilizando-a ao lado do meu marido, enquanto as sirenes das viaturas que se aproximavam preencheram finalmente a noite com o som da segurança.





