O milionário fingiu viajar, mas descobriu o que a sua empregada estava a fazer com o seu filho deficiente, o seu regresso inesperado e o segredo da cozinha. O motor do carro morreu a duas ruas da mansão. Rui não quis anunciar a sua chegada. Planeou este momento com a precisão de um cirurgião prestes a operar um tumor maligno.
Ajustou o nó da sua gravata vermelha, sentindo-a apertar-lhe a garganta quase tanto como a angústia que carregava no peito desde a semana passada. Três dias, sussurrou para si mesmo, olhando para o seu reflexo no espelho retrovisor. Os seus olhos estavam vermelhos de falta de sono.
Disse-lhes que ia viajar durante três dias para uma conferência no estrangeiro. Eles têm a casa só para eles, têm o lugar todo só para eles. Agora vamos ver quem é aquela mulher na realidade. Saiu do carro e caminhou sob o sol da manhã, mas sentia frio, um arrepio que parecia subir-lhe do estômago. Fazia apenas um mês que contratara Leonor, uma jovem recomendada por uma agência barata, porque nenhuma enfermeira registada queria aturar o seu mau feitio ou o ambiente sombrio daquela casa.
Leonor era diferente, demasiado sorridente, demasiado colorida, demasiado viva para um lugar onde a esperança morrera há muito tempo. A dúvida fora lançada pela Dona Amélia, a vizinha do lado, uma mulher que vivia a espiar por detrás das cortinas. Rui, aquela rapariga faz coisas estranhas. Ontem ouvi gritos e depois música.
Música alta com uma criança doente. Tenha cuidado, aqueles que sorriem tanto costumam esconder as piores intenções. Essas palavras tinham perfurado a mente de Rui. O seu filho, Pedrinho, era a sua única razão de viver, mas também a sua maior dor. Um menino de um ano condenado, de acordo com os principais especialistas do país, a nunca ter força nas pernas.
Paralisia parcial irreversível, lia o relatório médico que Rui guardava no seu cofre como uma sentença de morte. Pedrinho era frágil. Se aquela mulher o estivesse a negligenciar, se estivesse a fazer festas enquanto ele estava fora, Rui jurou que não a despediria apenas, iria destruí-la legalmente. Abriu a porta da frente com a sua chave mestra.
Girou-a lentamente para evitar o clique metálico. A casa recebeu-o com aquele cheiro característico de desinfetante caro e solidão. Deu o primeiro passo no chão polido. Silêncio. Deu o segundo passo. Nada. Depois ouviu. Não foram os gritos de dor que ele temia. Nem foi o som de uma televisão ligada por uma empregada preguiçosa.
Era um som que ele não reconhecia, um som gutural, agudo, explosivo — uma risada, mas não uma risada qualquer. Era uma risada limpa, vibrante, daquela que faz sacudir o corpo todo. E vinha da cozinha. Rui sentiu o sangue ferver-lhe nas veias. “Está a rir-se do meu filho?”, pensou, apertando a pasta de cabedal com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Está a troçar da condição dele enquanto eu estou fora. A fúria cegou-o momentaneamente. Imaginou a mulher ao telefone com algum namorado, a ignorar o bebé na sua cadeira de rodas, a rir-se da vida fácil que tinha à sua custa. Caminhou rapidamente, esquecendo-se da discrição. Os seus sapatos de sola dura ecoaram no corredor como os golpes de martelo de um juiz a proferir uma sentença.
Chegou à entrada da cozinha, pronto para gritar, pronto para a expulsar, pronto para defender o seu filho da negligência. “Que raio se passa aqui?” A frase morreu-lhe na garganta. Rui parou de repente. A pasta escapou-se dos seus dedos suados e caiu no chão com um baque surdo que ninguém ouviu, porque a cena à sua frente era tão surreal.
que parecia ter congelado o tempo. A cozinha, normalmente um espaço estéril e de aço inoxidável, estava banhada por uma luz dourada que entrava pela grande janela, e ali, no centro daquela cena, estava o crime. Leonor não estava a roubar dinheiro, não estava ao telefone; estava deitada no chão, de costas nos azulejos frios, no seu uniforme azul-turquesa e luvas de borracha cor-de-rosa berrante.
O seu cabelo escuro estava espalhado no chão, e o seu rosto estava iluminado por um sorriso tão largo que parecia doer. Mas não foi Leonor quem fez o coração de Rui parar por um segundo. Foi o que estava acima dela. Pedrinho, o seu filho, o bebé frágil, o infante que os médicos disseram que tinha de ficar seguro na sua cadeira para evitar lesões.
Pedrinho não estava na cadeira. A cadeira de rodas prateada, aquele esqueleto de metal que Rui odiava e amava porque era a única coisa que sustentava o seu filho, estava vazia, encostada ao frigorífico, as suas almofadas coloridas parecendo tristes e inúteis. Pedrinho estava de pé. Estava equilibrado na barriga de Leonor, balançando-se precariamente, os seus pezinhos a enterrarem-se no uniforme da rapariga.
Estava a usar o seu pijama às riscas e um chapéu de chef torto na cabeça. Os seus braços rechonchudos estavam levantados para o teto num gesto de vitória, e a sua boca, normalmente fechada num esgar de tédio ou choro silencioso, estava aberta num perfeito “o” de euforia. O menino estava a rir. Estava a rir enquanto pressionava um pé contra a barriga de Leonor, e ela, em vez de o afastar, segurava-lhe os tornozelos com firmeza e suavidade, cantando, “O campeão, levanta o gigante, que o chão trema!”
Rui sentiu o chão mover-se debaixo dos seus pés. O seu cérebro não conseguia processar a informação. “Impossível!” gritou a sua mente lógica. Os relatórios, os especialistas, as radiografias. Ele não consegue fazer aquilo. Ele não tem força suficiente. Ele vai cair, vai matar-se. Mas os seus olhos viram outra coisa. Viram uma criança a conquistar o Evereste no meio da cozinha, o peso do diagnóstico, e a traição da esperança.
O choque inicial deu lugar a uma vaga de terror gelado. Para entender o pânico que paralisou Rui naquele limiar, era preciso entender o inferno que ele vivera nos últimos 12 meses. Ele não era apenas um pai preocupado; era um homem traumatizado. A mente de Rui viajou numa fração de segundo para aquele consultório branco e estéril do Dr.
Vasconcelos, o neurologista mais caro da cidade, lembrou-se do zumbido do ar condicionado, do cheiro a café requentado, e com uma clareza dolorosa, da voz monótona do médico enquanto apontava para uma mancha cinzenta numa radiografia. “Sr. Rui, precisa de ajustar as suas expectativas. A conexão nervosa nas extremidades inferiores do Pedro é deficiente, não inexistente, mas muito fraca.”
Se o forçar, se tentar fazê-lo andar prematuramente, poderá causar danos irreparáveis na coluna vertebral ou nas ancas. O seu filho precisa de apoio, precisa da cadeira, precisa de aceitar a sua realidade. Aceitar a sua realidade. Essas três palavras tinham destruído Rui. Ficara viúvo durante o parto, e a ideia de que tudo o que lhe restara da sua mulher era uma criança que iria sofrer a vida toda transformara-o num homem amargo.
Construíra uma fortaleza à volta de Pedrinho. Comprou a melhor cadeira de rodas importada da Alemanha. Contratou enfermeiras que pareciCom uma gargalhada que ecoou pelos corredores outrora silenciosos da mansão, Pedrinho correu para os braços abertos do pai, não para ser apanhado, mas para iniciar, finalmente, a sua primeira e verdadeira partida de futebol no jardim.





