O que a Babá Fazia com seus Filhos Deixou o Pai sem PalavrasA lágrima que rolou em seu rosto não foi de tristeza, mas de profunda gratidão ao vê-la ensinando suas crianças, com paciência infinita, a lerem a primeira palavra.4 min de lectura

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O dia começou como tantos outros para Matias Almeida, um próspero empresário conhecido pelos seus vastos empreendimentos imobiliários e construções de luxo.

Contudo, aquela manhã sentiu-se diferente. A sua agenda estava repleta de reuniões até bem tarde, mas uma quietude invulgar perseguiu-o.

A lógica ditava que prosseguisse como planeado, mas algo mais calmo e profundo levou-o a regressar a casa mais cedo. Raramente cedia ao instinto, mas naquele dia assim fez.

O que Matias não sabia era que esta decisão simples iria alterar a sua vida, revelando verdades sobre o amor, a perda e o que realmente importa.

Matias vivia numa mansão imponente nos arredores de Lisboa, com paredes de vidro a brilhar como um monumento ao sucesso. Do exterior, a sua vida parecia perfeita.

Lá dentro, tudo era diferente.

A sua mulher falecera anos antes, deixando-o sozinho a criar os dois filhos, Leonor e Guilherme.

Ele garantia que nada lhes faltasse a nível material, mas não lhes dava o que mais desejavam: a sua presença. Os seus dias esvaiam-se entre reuniões e contratos, enquanto as crianças cresciam em silêncio sob o peso da sua ambição.

A casa assemelhava-se mais a uma montra do que a um lar. Beatriz Silva, a governanta, mantinha tudo impecavelmente limpo. Trabalhava ali há quase três anos, a sua voz suave, a sua eficiência agora largamente ignorada.

Para Matias, ela era simplesmente a mulher que mantinha a ordem. Para a Leonor e o Guilherme, ela era consolo, paciência e calor: a presença constante que preenchia o vazio que a mãe deixara.

Beatriz carregava a sua própria dor. Uma mãe solteira que perdera o seu único filho num trágico acidente, raramente falava disso. Mesmo assim, a tristeza pairara nos seus olhos.

Contudo, quando estava com as crianças, algo doce regressava a ela, como se cuidar delas aliviasse as suas feridas mais profundas.

Naquela tarde, o carro de Matias deslizou pela entrada enquanto o sol ainda banhava a casa dourada. Ele esperava encontrar silêncio.

Mas uma gargalhada fez parar.

Proviera da sala de jantar: uma risada alegre e genuína que não ecoava na casa há anos. Aproximou-se, e o que viu tirou-lhe o fôlego.

Beatriz estava junto à mesa, o seu vestido verde-esmeralda imaculado e o cabelo apanhado com rigor. Leonor e Guilherme sorriam, radiantes, para ela.

Um bolo de chocolate, decorado com fruta e natas, estava entre eles. A Beatriz cortava-o de forma desastrada enquanto as crianças batiam palmas. Cacau manchou a camisa do Guilherme e as natas sujaram o vestido da Leonor: prova de que ela tinha ajudado a confeccioná-lo.

Não estavam apenas a comer. Estavam a celebrar.

Beatriz ria com eles, limpou o creme da face da Leonor, desarrumou o cabelo do Guilherme, tratando-os como se fossem seus. O amor enchia a sala, puro e tangível.

Matias ficou imóvel, com lágrimas nos olhos.

Não foi o bolo que o comoveu. Foi perceber que aquela mulher, a quem mal dava atenção, tinha dado aos seus filhos o que ele lhes negara há anos: um sentido de família.

A culpa apertou-lhe o peito. Ao construir um futuro para eles, negligenciara o presente. Lembrou-se da sua falecida mulher, Isabel, que sempre dizia que as crianças precisavam mais de presença do que de presentes.

Após a sua morte, ele mergulhara no trabalho para fugir da dor.

Permaneceu na porta, deixando que o momento penetrasse na sua alma.

Quando finalmente deu um passo em frente, a sua presença surpreendeu-os. Beatriz endireitou-se, nervosa. As crianças viraram-se, curiosas.

A voz de Matias tremeu. “Obrigado.”

Leonor e Guilherme correram para ele, a falar-lhe ao mesmo tempo. Ele ajoelhou-se e abraçou-os, lágrimas a escorrerem-lhe pela face. Pela primeira vez em anos, viram o pai chorar e sentiram-se mais próximos dele por isso.

A partir daquele dia, Matias mudou. Arranjou tempo para brincar, ouvir e simplesmente estar presente. Pediu à Beatriz que lhe mostrasse as rotinas que ela criara: cozinharem juntos, ler histórias antes de dormir, passar as tardes no jardim.

A casa transformou-se. Tornou-se quente, ruidosa, viva.

Matias também começou a verdadeiramente compreender a Beatriz. Por detrás da sua natureza tranquila escondia-se uma resistência e uma força invulgares. Uma tarde no jardim, ela partilhou a história do seu filho perdido.

Matias ouviu-a, profundamente comovido. Ela dera aos seus filhos o amor de uma mãe, nascido da sua própria dor.

Beatriz tornou-se mais do que uma governanta. Tornou-se família.

Uma tarde, Matias viu a Leonor e o Guilherme a ensinarem à Beatriz uma dança na mesa da sala de jantar, com a luz do sol a reflectir-se no lustre. A alegria enchia o espaço.

Ele recordou o dia em que chegou a casa mais cedo.

Uma pequena decisão que mudou tudo. Esperava sentir-se vazio, mas em vez disso encontrou uma plenitude, um amor e uma gratidão que lhe encheram os olhos de lágrimas, não de tristeza, mas de felicidade.

Assim se percebe que a verdadeira riqueza não está no que se constrói com as mãos, mas no que se edifica com o coração.

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