O Presente Escondido que Mudou Seus Destinos para Sempre6 min de lectura

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Era uma tarde fria de outono em Lisboa. João, um menino de onze anos, passeava junto aos contentores do bairro à procura de garrafas vazias para vender. A mãe dele, Beatriz, trabalhava como empregada de limpeza e mal conseguiam pagar a renda. Enquanto passava por uma rua chique, viu um homem de fato caro atirar um casaco de couro para um caixote do lixo.

João parou. Aquela peça parecia nova, daquelas que só se vêem nas montras do Chiado. Com timidez, aproximou-se e perguntou:
—Senhor, posso levar este casaco? É para a minha mãe, ela tem frio.

O homem, nem sequer a olhar para ele, respondeu com um gesto indiferente e afastou-se, entrando num carro preto. João pegou no casaco com cuidado, feliz por poder dar uma surpresa à mãe. Quando chegou a casa, Beatriz ralhou com ele no início.
—Filho, não deves andar a pegar coisas do lixo.
—Mas está limpo, mãe —insistiu ele—. Olha, parece novo.

Beatriz suspirou, vencida pelo gesto terno. Pendurou o casaco numa cadeira e continuou a preparar o jantar. Entretanto, João meteu a mão no bolso para ver se havia mais alguma coisa. Tirou um envelope grosso, bem fechado. Abriu-o com curiosidade infantil e o coração quase parou: dentro havia maços de notas.

—Mãe! —gritou com a voz a tremer—. Olha isto!

Beatriz correu e, ao ver o dinheiro, ficou sem fôlego. Contaram as notas uma a uma: trinta mil euros. Por uns segundos, reinou um silêncio pesado. A tentação era enorme. Com aquele montante, podiam sair da pobreza, pagar dívidas, começar de novo. Mas Beatriz apertou os lábios.

—Isto não é nosso —disse com firmeza—. Vamos devolver amanhã.

No dia seguinte, com o envelope na mão, apresentaram-se no prédio elegante onde João tinha visto o homem. O porteiro, desconfiado, chamou o dono do apartamento. Quando o homem apareceu no hall, o olhar dele cruzou-se com o de Beatriz. O rosto dele perdeu a cor.

—Beatriz? —sussurrou ele, estupefacto—. És tu?

Ela também ficou imóvel. Tinham passado mais de dez anos, mas nunca conseguiria esquecer aquela voz. Era Diogo, o homem que fora o seu grande amor e o pai que João nunca conhecera.

Diogo convidou-os a entrar na sala. Tudo naquele lugar falava de riqueza: móveis antigos, quadros de coleção, um piano junto à janela. João, impressionado, não se atrevia a sentar-se. Beatriz segurou o envelope com as duas mãos.

—Isto estava no bolso do seu casaco —disse com serenidade—. O meu filho encontrou-o no lixo.

Diogo olhou para ela com uma mistura de culpa e surpresa.
—Não era lixo —explicou—. Foi um impulso… uma estupidez. Tinha discutido com o meu sócio, senti que tudo desabava. Levava aquele dinheiro para um investimento, mas, num ataque de raiva, deitei-o fora.

Beatriz anuiu, sem saber o que dizer. Ele observava-a com intensidade.
—Não acredito que seja tu. Pensei que tinhas desaparecido.

Ela baixou o olhar. Há mais de uma década, quando Diogo ainda era um jovem empresário sem fortuna, tinham estado apaixonados. Mas um mal-entendido, somado à pressão da família rica dele, separou-os. Beatriz descobrira que estava grávida pouco depois, sem conseguir encontrá-lo.

Diogo olhou para João.
—Ele é…?

Beatriz hesitou uns segundos antes de anuir.
—Sim. O teu filho.

O silêncio que se seguiu foi quase insuportável. Diogo levantou-se, a tremer, e ajoelhou-se diante do miúdo.
—Não sei o que dizer… Não sabia que existias.

João, confuso, olhou para ele de olhos arregalados.
—O senhor é o meu pai?

Diogo abraçou-o com força. Beatriz, num canto, segurava as lágrimas. Aquele reencontro era tão inesperado quanto impossível de evitar.

Nas semanas seguintes, Diogo tentou aproximar-se deles. Convidou João para conhecer a empresa, comprou-lhe livros, levou-o ao estádio para ver o Benfica. Com Beatriz foi mais difícil. Ela temia que tudo acabasse como antes, com promessas quebradas. Mas Diogo insistia em que tinha mudado.

—Aprendi o que realmente vale —disse-lhe uma tarde—. E não é o dinheiro.

Apesar das feridas do passado, algo nela começou a ceder. Ver a alegria do filho lembrava-lhe o que ambos tinham perdido.

Mas a vida não pára quando o coração quer acreditar. Uma sombra do passado de Diogo regressou para os testar.

Uma noite, enquanto Beatriz e João jantavam no pequeno apartamento, alguém bateu à porta com força. Era Sofia, a ex-mulher de Diogo. Tinha um olhar frio e um tom venenoso.

—Então tu és a famosa Beatriz —disse, cruzando os braços—. Ele não pára de falar de ti.

Beatriz manteve a calma.
—Não quero problemas. Só quero o melhor para o meu filho.

Sofia sorriu com desprezo.
—Não faças-te de santa. Diogo quer dar-te parte da empresa, não é? Pois eu não vou permitir.

Antes de ir embora, lançou-lhe um aviso:
—Se te meteres na vida dele, arruino a tua.

No dia seguinte, os rumores espalharam-se. Na empresa, os sócios de Diogo desconfiavam das suas decisões. Sofia vazou documentos, fez parecer que Diogo desviava fundos. Em poucos dias, ele perdeu quase tudo.

Quando Beatriz soube, foi procurá-lo. Encontrou-o no escritório antigo, agora vazio.
—Não vou deixar-te sozinho —disse—. Já o fizemos uma vez e foi um erro.

Diogo olhou para ela, exausto mas com um brilho de esperança.
—Ainda assim confias em mim?

—Sim. Porque agora somos uma família.

Com a ajuda de Beatriz, Diogo recomeçou. Venderam o pouco que restava, abriram uma pequena loja de roupa em segunda mão. Ironicamente, o mesmo tipo de peças que ele um dia tinha deitado fora com desdém.

João ajudava depois da escola. A loja cresceu graças ao esforço e à honestidade. Um dia, enquanto fechavam, um cliente deixou um envelope em cima do balcão. Dentro havia uma carta:

“A vida devolve o que se dá. Obrigado por me mostrarem que ainda há gente boa.”

Era um antigo sócio que descobrira a verdade sobre Sofia e queria compensá-los.

Com o tempo, Diogo recuperou a estabilidade, mas, mais importante, recuperou algo muito mais valioso: a família.

Um ano depois, no mesmo sítio onde tudo começou, João caminhava ao lado do pai.
—Pai —disse a sorrir—, lembras-te daquele casaco?

Diogo anuiu.
—Sim, filho. Graças a ele encontrei-vos.

Beatriz juntou-se a eles e, pegando-lhes no braço, acrescentou:
—E graças a ti, João, aprendemos que a honestidade pode mudar um destino.

O vento de outono voltou a soprar, mas desta vez não trazia frio—apenas promessas de um futuro novo, construído não com dinheiro, mas com amor e verdade.

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