O insónia tinha a forma de uma roda.
Afonso Albuquerque passava há dois anos a ouvir, na escuridão do seu quarto nas Avenidas Novas, o mesmo som: o ligeiro ranger do aro da cadeira quando a Ana Sofia se mexia no corredor para ir à casa de banho ou quando a Mónica a acomodava com cuidado para que as pernas não adormecessem.
Todas as noites, Afonso ficava a olhar para o teto, contando os “se calhar” como quem conta ovelhas: se calhar tivéssemos ido mais cedo ao hospital… se calhar tivesse sido outra inflamação… se calhar o médico não tivesse dito “irreversível” com aquela tranquilidade de quem não vive nesta casa.
Naquela terça-feira de manhã, obrigou-se a funcionar. Fato impecável, olheiras disfarçadas com café, e a Ana Sofia com o seu vestido amarelo —o que ela mais gostava porque “parece o sol”— já pronta na cadeira, com o laço torto e o olhar apagado.
— Pronta para mais um médico, minha princesa? — perguntou Afonso, tentando que a voz soasse firme.
A Ana Sofia olhou-o sem drama, sem choro, como se aos cinco anos já tivesse aprendido a palavra “resignação” sem que ninguém lha tivesse ensinado.
— Se tu quiseres, pai.
Foi isso que o partiu por dentro.
Saíram para o carro e, justo quando Afonso ia a ligar o motor, viu um miúdo parado em frente ao portão. Teria oito, talvez nove anos. Pele morena do Alentejo, cabelo encaracolado e olhos muito negros. Usava uma t-shirt vermelha desbotada, demasiado grande, e uns ténis gastos com os atacadores amarrados em nós desajeitados.
O miúdo não pedia esmola. Não fazia a pantomina da tristeza.
Olhava para a cadeira de rodas como se estivesse a ver algo que lhe doía… e que ao mesmo tempo entendia.
Afonso pensou em acelerar. Qualquer coisa para evitar mais “esperanças” que depois se transformam em ruínas. Mas o miúdo aproximou-se da janela com passo decidido.
— Senhor… dá-me um minutinho?
Afonso baixou o vidro, mais por curiosidade do que por paciência.
— O que queres? Tenho pressa.
O miúdo apontou para os pés da Ana Sofia, que mal se viam por baixo do vestido.
— Eu posso lavar-lhe os pés… e ela vai voltar a andar.
A gargalhada escapou-se a Afonso, alta, seca. Era absurdo. Era cruel, até, vir oferecer milagres onde já tinham deixado mais de cem mil euros e toda a fé do mundo.
— Olha, miúdo… não sei que burla é esta, mas—
— Não é burla, senhor — interrompeu o miúdo, sem perder a calma. — A minha avó ensinou-me. Chamava-se dona Remédios. Ela curava pessoas por lá, em Santa Eulália. Eu sei fazer massagens com ervas. Se não resultar, o senhor manda-me embora. Mas se resultar… — e aí o miúdo olhou-o fixamente, sem pestanejar — a princesa vai correr.
Afonso sentiu, pela primeira vez em meses, uma pontada de algo que não era dor. Era aquela mistura perigosa de esperança e desespero, como quando se está prestes a apostar a única coisa que nos resta.
A Ana Sofia, que estivera calada, inclinou-se para a frente.
— Pai… quem é ele?
O miúdo sorriu, e o sorriso mudou-lhe a cara. De repente já não parecia um miúdo de rua, mas um miúdo… miúdo.
— Olá, princesa. Chamo-me Mateus. Mateus dos Santos.
Afonso franziu a testa.
— E como sabes o nome dela?
Mateus encolheu os ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Bom… toda a gente sabe. A senhora da mercearia contou que a filha do senhor Albuquerque já não anda. Disse que o senhor anda muito triste.
O peito de Afonso apertou-se. Não queria que a sua dor se tivesse tornado mexerico, mas a dor, em Portugal, viaja mais depressa que um táxi.
A Ana Sofia levantou a mão, como a pedir licença.
— Tu é que me podes ajudar?
Mateus ajoelhou-se para ficar à sua altura.
— Posso tentar. Mas tu também tens de querer. A minha avó dizia que as pernas são teimosas… mas o coração é mais teimoso.
Afonso engoliu em seco. Olhou para a filha. Olhou para o miúdo. E tomou uma decisão que não parecia de empresário, mas de pai.
— Está bem. Mas fazemo-lo bem. Com a minha esposa presente. E se algo não me agradar, acaba-se.
Mateus hesitou um segundo, como se não acreditasse que o portão se iria abrir para ele.
— Eu sou pobre, senhor… não quero incomodar.
— Se realmente podes ajudar a minha filha — disse Afonso, e surpreendeu-se a si próprio com a firmeza — nunca mais serás um incómodo nesta casa.
O portão abriu-se. O carro entrou devagar. Mateus olhava para os jardins como se fossem um museu: a relva perfeita, a piscina a brilhar, as buganvílias a trepar por uma parede branca. Um mundo alheio.
Na sala, a Mónica recebeu-os com uma revista de decoração nas mãos e o olhar partido de quem já não acredita em nada.
— Afonso… o que é isto?
— Chama-se Mateus. Diz que pode ajudar a Ana Sofia.
Mónica soltou uma gargalhada amarga, aquela risada de “já não me dói porque já me doeu tudo”.
— Vais acreditar num miúdo da rua?
Mateus adiantou-se com educação, tirando dos seus calções um caderninho pequeno, de capa gasta.
— Senhora… entendo a sua desconfiança. Mas aqui tenho as receitas da minha avó. Se quiser ver.
Mónica abriu o caderno. Desenhos de plantas, nomes estranhos, instruções sobre pontos nos pés e nos tornozelos. Havia algo… demasiado detalhado para ser invenção.
— Onde está a tua avó?
A cara de Mateus entristeceu de repente.
— Ela foi-se há três meses. Adoeceu. Antes de ir, fez-me prometer que ia continuar a ajudar. Disse que se não o fizesse, o conhecimento morreria comigo.
Mónica sentiu um aperto no coração. Um miúdo sozinho. Um miúdo com um caderno por herança.
— Vamos tentar — disse ela por fim, respirando fundo. — Mas com condições. Aqui, no quarto da Ana Sofia. Eu presente. E ao primeiro sinal estranho, para-se tudo.
Mateus anuiu, aliviado.
— Sim, senhora.
Nesse mesmo dia, com uma bacia, água morna, alecrim e hortelã do jardim, começou.
Mateus preparou uma infusão forte e verteu-a na água. O quarto encheu-se de cheiro a campo. Ana Sofia fechou os olhos e suspirou quando os pés tocaram na água.
— Cheira bem… como quando chove.
Mateus massageou com cuidado, pressionando pontos exatos, sem pressa. Mónica segurou a mão da filha, a tremer. Afonso observava de pé, com os punhos cerrados, pronto a gritar “alto!” por qualquer coisa.
— Sentes alguma coisa, princesa? — perguntou Mateus.
— Como… comichão por dentro.
Mónica ficou gelada. Afonso deu um passo.
— Tens a certeza?
Ana Sofia anuiu.
— Sim. Sente-se estranho… mas bonito.
Não era um milagre. Não era uma cena de filme. Era algo pequeno, quase invisível. Mas para eles, depois de dois anos de nada, era como ver uma faísca num quarto sem luz.
Naquela noiteaquela noite, enquanto todos tentavam dormir com aquela esperança nova — que também dava medo —, Afonso perguntou ao Mateus onde é que ele vivia.





