O Peso do Abandono: Trinta Anos Depois, o Preço de um AdeusEle descobriu, atordoado, que os filhos que um dia desprezara haviam se tornado pessoas bem-sucedidas e realizadas, que o receberam não com rancor, mas com uma indiferença que foi seu castigo final.6 min de lectura

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O ABANDONO (1995)
Era 1995.
Numa pequena casa degradada no campo, cinco bebés choravam ao mesmo tempo.

A Maria tinha acabado de dar à luz quíntuplos. Estava extremamente magra, pálida, e não tinha nada para comer.

Em vez de sentir alegria, o seu marido Rui ficou furioso.

“Cinco?! Maria, cinco?!” gritou o Rui, fazendo as malas. “Mal conseguimos alimentar uma boca, e agora mais cinco?! Vamos morrer à fome!”

“Rui, por favor, não nos deixes”, suplicou a Maria, segurando dois dos bebés enquanto os outros três jaziam numa esteira. “Ajuda-me. Vamos trabalhar juntos. Nós conseguimos.”

“Não!” O Rui afastou a Maria com rudeza. “Eu não quero esta vida! Quero ser bem-sucedido! Esses filhos são um fardo! São uma maldição na minha vida!”

O Rui pegou nas poupanças que a Maria tinha debaixo da almofada — o dinheiro destinado a comprar leite.

“Rui! Esse dinheiro é para as crianças!”

“Isto é o meu pagamento pela miséria que me trouxeste!”

O Rui partiu.
Entrou num autocarro com destino a Lisboa. Nunca olhou para trás, para os choros da mulher e dos cinco filhos. Só pensava em si mesmo.

LEVANTAR-SE SOZINHA
A vida da Maria tornou-se um inferno.

Para manter os cinco filhos vivos — João, José, Marco, Lucas e Gabriel — trabalhava como lavadeira de manhã, vendedora ambulante à tarde e empregada de limpeza à noite.

Os vizinhos troçavam dela.
“Lá vai a mãe-galinha. A dar à luz sem parar, por isso é que o marido a abandonou.”

Mas a Maria nunca desistiu.

Todas as noites, antes de adormecerem no seu quarto apertado, dizia aos filhos:

“Não odiem o vosso pai. Mas prometam-me uma coisa… um dia, vamos provar que não são um fardo. Que são uma bênção.”

Os cinco irmãos cresceram inteligentes, trabalhadores e tementes a Deus. Testemunharam o sofrimento da mãe, o que os inspirou a estudar com afinco — mesmo nos dias em que a única refeição era arroz com sal.

O REGRESSO DO PRÓDIGO (2025)
Trinta anos passaram.

O Rui tinha agora 60 anos. O seu sonho de sucesso em Lisboa nunca se concretizou. Caiu em vícios, adoeceu e acabou na pobreza. Não tinha família — a amante também o abandonou quando o dinheiro acabou.

Estava a sofrer de insuficiência renal e precisava de uma quantia avultada para a operação.

Um dia, viu uma manchete no jornal:

“MÃE DO ANO: MARIA SILVA SERÁ HOMENAGEADA NO HOTEL LISBOA GRAND.”

Os olhos do Rui arregalaram-se.
Maria! A sua mulher! E na foto, ela parecia abastada.

“Eles estão ricos agora…” sussurrou o Rui. “Eu tenho direito. Sou o pai! Posso pedir dinheiro para a minha operação. Tenho a certeza que me aceitam.”

O Rui vestiu-se o melhor que pôde (embora as roupas fossem velhas) e dirigiu-se ao Hotel Lisboa Grand.

A GRANDE CELEBRAÇÃO
À entrada do hotel, um segurança parou-o.

“Senhor, convite, por favor?”

“Não preciso! Sou o marido da mulher que dá a festa — a Maria Silva! Deixe-me entrar!” gritou o Rui.

Devido ao alvoroço, uma senhora idosa e elegante, adornada com joias, saiu. Era a Maria.

“Rui?” perguntou a Maria, em choque.

“Maria!” O Rui correu para ela e ajoelhou-se. “Perdoa-me! Eu errei! Voltei. Vamos reconstruir a nossa família. Estou doente… Preciso da tua ajuda.”

Os convidados sussurravam.
Aquele era o marido que a abandonara?

A Maria olhou para o Rui. Não havia raiva no seu coração — mas também não havia amor.

“Rui”, disse a Maria com calma, “trinta anos. Nem uma única carta. E agora que precisas de dinheiro, voltas?”

“Ainda sou o pai deles!” argumentou o Rui. “Onde estão os meus filhos? Quero vê-los! Tenho a certeza que me vão entender!”

Subitamente, as luzes apagaram-se. Um foco de luz iluminou o palco.

“Queres ver os teus filhos?” perguntou a Maria. “Cá estão eles.”

OS CINCO ‘FARDOS’
Um a um, cinco homens e mulheres fortes e bem-sucedidos subiram ao palco.

JOÃO, vestindo uma toga de juiz:
“Sou o Juiz João Silva, o mais jovem Desembargador do Tribunal da Relação.”

JOSÉ, de uniforme da polícia coberto de medalhas:
“Sou o Comissário José Silva, Comandante da PSP de Lisboa.”

MARCO, de fato de negócios:
“Sou o CEO Marco Silva, proprietário da Silva Construções — a empresa que construiu este hotel.”

LUCAS, vestindo uma batina de padre:
“Sou o Padre Lucas Silva, sacerdote ao serviço de orfanatos.”

GABRIEL, de bata de médico:
“Sou o Doutor Gabriel Silva, o nefrologista (especialista em rins) mais conceituado da Europa.”

O Rui ficou paralisado.
Os cinco filhos que outrora chamara de “fardos” e “maldições” eram agora pilares da sociedade.

O Rui subiu ao palco, trémulo.
“M-Meus filhos… Sou eu… o vosso pai…”

O Gabriel — Doutor Gabriel — avançou e examinou a ficha médica que o Rui segurava.

“Pai”, disse o Gabriel, “vi o seu nome na lista de pacientes que precisam de um transplante de rim no meu hospital.”

“S-Sim, meu filho!” disse o Rui, animado. “És o médico! Salva-me! Opera-me! Sou teu pai!”

O Doutor Gabriel sorriu com amargura.

“Lembra-se de 1995?” perguntou ele. “Quando a Mãe lhe implorou que deixasse o dinheiro para o nosso leite — mas o Pai levou-o e fugiu?”

“Por não termos leite, fiquei doente. Quase morri de desidratação. A Mãe vendeu o seu próprio sangue só para pagar o meu tratamento.”

Os outros irmãos avançaram.

O Juiz João:
“Aos olhos da lei, o abandono é um crime. Mas não o vamos mandar para a prisão. A própria vida já o puniu de forma mais cruel.”

O CEO Marco:
“Está a pedir dinheiro? Eu podia dar-lhe milhões. Mas o meu dinheiro é só para aqueles que acreditaram em mim quando não tinha nada.”

O Padre Lucas:
“Eu perdoo-o, Pai. Vou rezar pela sua alma. Mas o perdão não significa que vamos permitir que perturbe novamente a paz da Mãe.”

O Doutor Gabriel voltou a enfrentar o pai.

“Pai, eu sou o melhor médico para a sua condição. Sou o único que o pode salvar.”

O Rui ajoelhou-se.
“Por favor, meu filho… tem piedade.”

O Doutor Gabriel abanou levemente a cabeça.

“Como médico, jurei um juramento para curar todos. Vou operá-lo. Vou salvar a sua vida.”

O rosto do Rui iluminou-se.
“Obrigado! Obrigado, meu filho!”

“Mas,” continuou o Gabriel, “depois de se recuperar, nunca mais apareça à nossa frente. Esta cirurgia é a última ajuda que receberá de nós. Estamos quites pela vida que nos deu. A partir de amanhã, somos estranhos.”

FINAL
A operação foi realizada. O Rui sobrevE, assim, ele partiu sozinho, levando consigo apenas o peso de um arrependimento que nenhum sucesso alheio poderia jamais aliviar.

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