PARTE 1
Nunca esquecerei o som do meu coração a martelar nos ouvidos, ensurdecedor como um batuque de festa popular, quase a abafar a voz do juiz. Sentada naquela cadeira de madeira gélida, as mãos suadas cerradas até os nós dos dedos branquearem, via diante de mim o Doutor Rui Carvalheira, juiz da vara de família com fama de intransigente, a analisar os papéis que meus cunhados apresentaram.
A disputa pelo apartamento da minha falecida sogra, Maria do Carmo, tornara-se um pesadelo que já durava meses. No fundo, eu sabia que minhas chances eram mínimas. Como eu, uma viúva desempregada, poderia lutar contra os recursos e a malícia de Vítor e João, irmãos do meu falecido marido? Eles tinham advogados caros, fatos impecáveis e uma narrativa cruelmente construída. Eu só tinha a verdade, mas naquele tribunal, a verdade parecia não valer um tostão.
Foi nesse momento, quando senti o abismo a abrir-se sob os pés, que o meu Afonso, de apenas seis anos, fez algo que parou o tempo.
Ele ergueu-se da cadeira ao meu lado. Não com medo de criança, mas com uma determinação que jamais vira nos seus olhos. Ajeitou o blazer bege que eu lhe comprara num brechó – aquele que ele insistia em usar para parecer “a sério” – e, com voz que ecoou pelas paredes da sala, declarou:
—Eu sou o advogado da minha mãe.
O juiz Carvalheira parou abruptamente de ler. Baixou os óculos e encarou o miúdo loiro que o desafiava. Um silêncio tenso pairou na sala.
Senti o sangue fugir-me dos pés. O pânico agarrou-me.
“Afonso, senta-te, filho”, sussurrei, puxando-lhe suavemente pela manga. Não queria que fosse repreendido, exposto à crueldade dos tios.
Mas o meu filho não se mexeu. Firme como um carvalho no meio de uma tempestade. Em vez de obedecer, meteu a mãozinha no bolso do blazer e tirou uns papéis amarrotados, dobrados com a despreocupação da infância, mas guardados como um tesouro.
Do outro lado da sala, ouvi a gargalhada sarcástica de Vítor.
—Agora até as crianças brincam aos advogados — comentou, buscando cumplicidade no irmão, João, que riu com desdém.
Aquele som doeu-me mais que qualquer insulto. Estavam a gozar com o meu filho, com a sua inocência, com a sua coragem.
“Silêncio!” A ordem do juiz Carvalheira cortou o ar como um estalo. “Continue, rapaz.”
Afonso respirou fundo. Vi-o encher o peito, imitando o que me vira fazer antes de enfrentar algo difícil.
—Tenho algo importante para mostrar — disse ele, enquanto os dedinhos desdobravam os papéis com cuidado. —A avó Maria do Carmo deu-me isto antes de ir para o céu.
Os meus olhos encheram-se de lágrimas ao ouvir o nome dela. A minha sogra morrera três meses antes, depois de uma longa batalha contra a diabetes. Eu cuidara dela até ao último suspiro, mas não fazia ideia de que ela entregara algo ao neto.
“O que é isso, Afonso?”, perguntou o juiz, num tom que, pela primeira vez, soou gentil.
—Uma carta. A avó pediu-me para a guardar em segredo e só mostrar se alguém tentasse tirar-nos a casa.
O advogado dos meus cunhados, Henrique Alves, levantou-se como se tivesse levado uma picada de cobra.
“Meritíssimo, isto é inaceitável!”, berrou ele, vermelho de raiva. “Uma criança não pode apresentar provas numa audiência. Além disso, não há como verificar a autenticidade deste suposto documento. É ridículo.”
O meu coração parou. Eles tinham razão do ponto de vista legal, pensei. Iriam desvalorizar o meu filho.
“Deixem o jovem falar”, disse o juiz, ordenando que todos se sentassem. “Continua, Afonso.”
O meu filho olhou para mim. Eu estava pálida, a tremer. Depois olhou para os tios, que o fitavam com raiva e arrogância. Mas o Afonso não tinha medo. Lembrara-se das palavras da avó: “Sê corajoso como o teu pai”.
“Uma semana antes de ficar muito doente, a avó chamou-me ao quarto dela”, começou ele a contar, com uma clareza impressionante. “Ela disse-me que ia contar-me um segredo muito importante e que eu só poderia contá-lo se alguém fizesse a minha mãe chorar.”
Afonso acabou de desdobrar a primeira folha. Da minha cadeira, vi que era uma carta escrita numa letra trémula, a caligrafia frágil da minha sogra nos seus últimos dias.
—”Ao meu querido neto” — leu ele devagar, concentrado como quem aprende as palavras mais difíceis.
A sala mergulhou num silêncio absoluto. Até Vítor e João pararam de cochichar. Era como se o espírito de Maria do Carmo tivesse entrado na sala.
—”Afonso, se estás a ler esta carta, é porque algo me aconteceu e agora querem tirar o apartamento à tua mãe. Quero que saibas que a tua mãe, Mariana, foi a única que verdadeiramente cuidou de mim nos últimos anos.”
A voz do meu filho ressoou, clara e pura, lendo as palavras de uma mulher que partira para nos salvar. Eu mal conseguia respirar entre soluços. Não sabia que ela escrevera aquilo. Não sabia que ela vira tudo o que eu fizera.
“Os meus filhos, Vítor e João, não me visitaram uma única vez enquanto estive doente”, continuou Afonso, lendo. “Só ligavam para perguntar por dinheiro e bens, mas a Mariana vinha todos os dias, mesmo depois de perder o emprego por me levar ao médico.”
Vítor levantou-se de um salto, batendo com o punho na mesa.
“Isto é uma farsa!”, gritou ele, a perder a paciência. “Aquela mulher está a usar uma criança para inventar histórias! Nós tínhamos trabalho, não podíamos estar sempre a fazer paparoca a uma velha.”
“Silêncio, Sr. Almeida!”, ordenou o juiz, com uma firmeza que fez os vidros tremerem. “E tenha cuidado com o que diz. Está a falar da sua mãe.”
João, também agitado, tentou intervir:
“Meritíssimo, a nossa mãe sofria de confusão mental nos últimos meses. Tudo o que ela disse ou escreveu não tem validade.”
Afonso olhou para os tios com uma expressão que me partiu o coração: uma mistura de tristeza profunda e indignação.
“A avó não era confusa”, disse ele, defendendo a memória da mulher que o amava. “Ela sabia o nome de todos, contava histórias antigas e ajudava-me com os trabalhos da escola quando a mãe estava a trabalhar.”
O miúdo virou-se para o juiz, ignorando a fúria dos tios.
“Há mais na carta, senhor juiz. Posso continuar?”
—Por favor, continue — permitiu o juiz Carvalheira, ignorando o advogado da outra parte.
—”Afonso, o apartamento onde vocês vivem pertencia ao teu avô António. Antes de morrer, ele fez-me prometer que deixaria a casa a quem verdadeiramente cuidasse de mim na velhice. Não era para os filhos, era para quem tivesse amor no coração.”
O advogado Henrique tentou interromper, mas o juiz cortou-o. Afonso virou a página. As suas mãozinhas tremiam ligeiramente, mas ele estava decidido a cumprir a promessa feita à avó.
—”E assim, naquele tribunal de Lisboa, entre lágrimas e silêncios, o pequeno Afonso provou que o amor de uma avó e a coragem de uma criança podem vencer até as batalhas mais difíceis.





