A minha filha Leonor tem nove anos. Tem síndrome de Down. É a criança mais feliz que se possa imaginar. Adora borboletas. Adora música. Adora acenar a pessoas que não conhece.
A maioria das pessoas não acena de volta.
Mudámos para esta vila no ano passado, depois do divórcio. Todas as manhãs caminhamos quatro quarteirões até à escola dela. O último tem uma passadeira sem semáforo. Apenas uma linha branca pintada e um sinal que diz para ceder a passagem aos peões.
Ninguém cede.
A Leonor caminha devagar. Não tem culpa. O que leva dez segundos à maioria das pessoas, leva-lhe quase um minuto.
Os condutores buzinam. Aceleram os motores. Um homem gritou-nos para nos despacharmos. A Leonor chorou durante vinte minutos.
Depois disso, recusou-se a atravessar. Todas as manhãs tornaram-se uma batalha. Chegava à passadeira e congelava.
“É assustador”, dizia. “Os carros são assustadores, Mãe.”
Liguei para a câmara municipal a pedir um agente de passagem. Disseram que iam verificar. Isso foi há seis meses. Nada mudou.
Depois, numa manhã de terça-feira em março, estávamos paradas na passadeira. A Leonor estava paralisada. Os carros passavam a alta velocidade.
Foi quando ouvi a mota.
Veio de trás de nós. Um homem grande. Colete de cabedal. Barba. Pilotava uma Harley-Davidson preta mais barulhenta que qualquer outro veículo na estrada.
Olhou para a Leonor. Olhou para a passadeira. Olhou para os carros que não paravam.
Depois, pilotou a mota para o meio da rua. Estacionou-a na horizontal. Bloqueou as duas faixas de rodagem.
O trânsito parou. Todos os carros. Parados como estátuas.
Olhou para nós e acenou com a cabeça. “Podem passar.”
A Leonor fitou-o. Depois para a passadeira vazia. Sem carros. Sem buzinas. Apenas silêncio e espaço.
Deu um passo. Depois outro.
A meio do caminho, parou. Virou-se para o motociclista. E acenou.
Ele acenou de volta.
Conseguimos atravessar. Ele moveu a mota. O trânsito recomeçou. Ele arrancou sem dizer uma palavra.
Pensei que tivesse sido aquilo. Um momento bonito com um estranho gentil.
Mas na manhã seguinte, ele estava lá.
O mesmo sítio. A mesma mota. À espera.
E o que ele disse à Leonor quando ela se aproximou dele é algo que nunca esquecerei.
A Leonor viu-o antes de mim.
Puxou a minha mão e apontou. “O homem da mota, Mãe.”
Ele estava estacionado no acostamento, a uns seis metros antes da passadeira. Motor desligado. Sentado na mota como se estivesse ali há horas.
Quando nos aproximámos, a Leonor surpreendeu-me. Caminhou direita a ele. A minha filha, que tem medo de carros barulhentos, foi direita a este estranho numa Harley.
Ele inclinou-se. Tirou os óculos de sol. Os olhos eram castanhos e bondosos.
“Olá”, disse. “Lembras-te de mim?”
A Leonor acenou com a cabeça. “Fez parar os carros.”
“Isso mesmo. E vou fazê-lo parar hoje. E amanhã. E todos os dias a seguir. Ninguém te vai buzinar enquanto eu estiver aqui. Está bem?”
A Leonor olhou para mim. Depois para ele.
“Promete?” perguntou ela.
“Prometo.”
Ela esticou o mindinho. Aquele homem enorme de cabedal com tatuagens em ambos os braços entrelaçou o seu mindinho no dedo da minha filha de nove anos.
“Jura de mindinho”, disse a Leonor.
“Juro de mindinho”, disse ele.
Depois, ligou a mota, pilotou-a para o meio da rua e bloqueou o trânsito outra vez. A Leonor atravessou sem hesitar. Não congelou. Não tremeu. Apenas caminhou.
Quando chegámos ao outro lado, atirou-lhe um beijo.
Ele apanhou-o. Meteu-o no bolso do colete. Igual à primeira vez.
Isso tornou-se a nossa rotina.
O nome dele era Rui Damasceno. Soube disso no terceiro dia.
Comecei a levar um café extra. Pareceu-me o mínimo que podia fazer pelo homem que parava o trânsito pela minha filha todas as manhãs às 7:45.
Ele bebia-o puro. Sem açúcar.
“Não tem de fazer isto”, disse eu.
“Eu sei.”
“Somos estranhos.”
“Já não somos.”
Ele não dizia muito. Não no início. Eu fazia perguntas e recebia respostas curtas. Reformado. Vivia na zona sul da vila. Pilotava todos os dias. Não, não se importava com a manhã cedo. Já estava acordado de qualquer maneira.
A Leonor chamava-lhe Sr. Rui. Ele chamava-lhe Dona Leonor. Todas as manhãs eram iguais. Ela aproximava-se. Ele inclinava-se. Faziam a promessa de mindinho. Depois ele bloqueava o trânsito e ela atravessava como se a estrada fosse dela.
Dentro de uma semana, a Leonor deixou de ter medo da passadeira.
Dentro de duas semanas, começou a ficar entusiasmada com ela.
“Dia do Sr. Rui!” anunciava todas as manhãs ao acordar. Todos os dias eram agora dia do Sr. Rui.
Começou a fazer-lhe coisas. Desenhos de motas com uma figura grande e uma figura pequena de mãos dadas. Deu-lhe um autocolante de uma borboleta para o depósito da mota. Ele colocou-o logo ali, à frente dela.
Uma Harley com um autocolante de uma borboleta cor-de-rosa. Os tipos do seu clube de certeza que adoraram aquilo.
Nem toda a gente apreciou o que o Rui estava a fazer.
Na segunda semana, os condutores já tinham percebido. A maioria adaptou-se. Encontrou outro caminho ou saiu mais cedo. Mas alguns ficaram zangados.
Uma manhã, um homem num camião ficou a buzinar o tempo todo enquanto a Leonor atravessava. Ela estremeceu mas continuou a caminhar. O Rui não se mexeu. Não reagiu. Apenas ficou parado ao lado da mota de braços cruzados.
Quando a Leonor atravessou em segurança, o condutor do camião abriu a janela.
“Não pode simplesmente bloquear uma estrada pública, seu idiota!”
O Rui caminhou até ao camião. Devagar. A cara do condutor mudou quando o Rui se aproximou o suficiente para ele ver o quão grande ele era.
“Aquela menina precisa de sessenta segundos para atravessar”, disse o Rui. A sua voz estava calma. Quase amigável. “Pode dar-lhe sessenta segundos.”
“Vou chamar a polícia.”
“Força. Eu amanhã também aqui estarei.”
O condutor arrancou com o carro. E de facto chamou a polícia.
O agente Martim apareceu na manhã seguinte. Jovem. Educado. Observou da sua viatura enquanto o Rui fez o que tinha a fazer. Bloqueou o trânsito. A Leonor atravessou. Atirou-lhe um beijo. Ele apanhou-o.
O agente Martim saiu e aproximou-se.
“Sr. Damasceno?”
“Bom dia, agente.”
“Recebi uma queixa sobre si a bloquear o trânsito.”
“Já contava.”
“Tecnicamente, o que está a fazer é obstruir a via pública.”
“Tecnicamente, aquele sinal da passadeira diz para ceder a passagem aos peões. Ninguém cede. Por isso eu ajudo a que cedam.”
O agente Martim olhou para a passadeira. Para o sinal. Para os carros que já começavam a formar fila.
“Ando a pedir à câmara municipal um semáforo aqui há dois anos”,O agente Martim ficou em silêncio por um momento, depois acenou com a cabeça. “Bom dia, Sr. Damasceno.” Ele afastou-se e nunca mais voltou por causa disso.





