Diogo Santos acelerou o seu Mercedes preto pela Avenida da Liberdade enquanto a chuia batia no para-brisas como se o céu inteiro estivesse a chorar sobre Lisboa. Eram 21h15 e, pela primeira vez em dois anos, ele chegaria a casa antes da meia-noite. A reunião no Porto tinha sido cancelada à última hora e agora ele conduzia de volta, sem saber o que fazer com as três horas extras de vida que o universo lhe tinha oferecido sem pedir. Agarrou o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Diogo Santos Silva, trinta e oito anos, CEO da empresa de tecnologia mais bem-sucedida do país, duzentos milhões de euros no banco, três filhos que mal conhecia… e um buraco no peito que nenhum dinheiro conseguira preencher desde que a Clara morrera, há dois anos, naquele maldito acidente que lhe roubou tudo o que amava.
Estacionou em frente à mansão em Cascais e olhou para as janelas do primeiro andar: luzes suaves brilhavam por detrás das cortinas. Os seus filhos deviam ainda estar acordados, mas o Diogo não se lembrava da última vez que os tinha visto antes de adormecerem. Saía às seis da manhã, quando ainda estavam a dormir, e regressava depois da meia-noite, quando já estavam na cama há horas; assim tinha sido durante vinte e quatro meses inteiros. Trabalho e mais trabalho, porque era mais fácil fechar negócios de milhões do que olhar nos olhos de três crianças e ver o rosto da mulher que já não estava lá. Abriu a porta da frente com cuidado para não fazer barulho. A casa cheirava a baunilha e canela. Estranho. As outras babysitters nunca cozinhavam nada que cheirasse a lar.
O Diogo pousou a pasta e foi aí que ouviu: uma voz de mulher cantava lá em cima, suave, doce, maternal. A canção era “Dorme, meu Menino”, a mesma que a Clara costumava cantar. O coração do Diogo parou. Subiu as escadas de mármore, tirando os sapatos italianos para não fazer barulho; cada degrau pareceu uma eternidade. A voz tornou-se mais clara, mais real, mais dolorosa. Quando chegou ao corredor do primeiro andar, viu que a porta do quarto dos trigémeos estava entreaberta. Uma luz dourada saía pela fenda como se um pedaço do céu, que não era o seu, estivesse lá dentro. O Diogo aproximou-se e espreitou pela abertura. O que viu tirou-lhe a respiração.
Inês, a babysitter que ele tinha contratado há três meses através de uma agência e com quem nunca se tinha cruzado porque ela chegava sempre depois de ele sair, estava de joelhos ao lado da cama grande onde os seus três filhos dormiam. Usava um uniforme simples verde com um avental branco, o cabelo castanho apanhado num rabo-de-cavalo, sem maquilhagem nem joias. Era uma mulher simples, na casa dos trinta, que, naquele momento, beijava a testa do Mateo com uma ternura infinita, durante dois minutos completos, como se o tempo não existisse e a única coisa que importasse fosse aquela criança. O Mateo tinha sete anos e segurava a mão da Inês mesmo a dormir, como se tivesse medo que ela desaparecesse se a largasse. A Inês sussurrou algo que o Diogo não conseguiu ouvir e moveu-se para o Santiago. O menino agarrava ao peito um desenho a lápis de cera. O Diogo apertou os olhos e conseguiu ler as palavras escritas numa caligrafia infantil trémula: “Para a Inês, gostamos muito de ti”. A Inês beijou a testa do Santiago e ajustou suavemente a manta sobre os seus ombros, uma ternura que partiu algo dentro do Diogo. Finalmente, a Inês moveu-se para o Lucas, o mais novo; o Lucas sorria a dormir como se estivesse a sonhar com algo bonito. A Inês passou os dedos pelo seu cabelo com tanto amor que o Diogo teve de fechar os olhos porque a dor era insuportável. Esta mulher, esta estranha que ganhava um salário modesto a cuidar dos seus filhos, estava a dar-lhes algo que ele não conseguira dar-lhes em dois anos inteiros: amor verdadeiro, presença real, tempo de qualidade; tudo aquilo que o dinheiro não podia comprar e que o Diogo se tinha esquecido de dar.
Ele recuou do quarto e encostou-se à parede do corredor. As lágrimas caíram sem ele querer. Não eram lágrimas quietas e dignas: eram as lágrimas de um homem partido, de um pai falhado, de um viúvo cobarde que tinha escolhido esconder-se atrás de reuniões de executivos e relatórios trimestrais em vez de enfrentar o facto de que os seus filhos precisavam dele e ele não sabia como estar lá para eles. As imagens voltaram a inundá-lo: a Clara grávida de trigémeos, a rir porque a barriga era tão grande que não via os próprios pés; a Clara no hospital a segurar três bebés recém-nascidos enquanto o Diogo chorava de pura alegria; a Clara a cantar aquela mesma canção de embalar que uma estranha cantava agora; a Clara no caixão após o acidente; e o Diogo a prometer-lhe entre soluços que ia cuidar bem das crianças, que elas nunca iriam precisar de nada, que seriam felizes. Mas o Diogo tinha falhado. DerEle abriu os braços e os três meninos correram para ele, num abraço que finalmente sE naquele abraço apertado, entre lágrimas e risos, Diogo percebeu que tinha finalmente encontrado o seu verdadeiro lar.





