O Homem que Virou a Mesa da HumilhaçãoAgora, cada vez que passo por aquele restaurante, lembro-me do meu silêncio e como ele pesa mais do que qualquer palavra.6 min de lectura

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O dono da tasca obrigou um motociclista a comer lá fora como um cão na quinta-feira passada ao serão. Éramos vinte e três naquela sala de jantar. Nenhum de nós disse uma palavra. E tenho de viver com isso.

Estava sentado no compartimento número quatro no A Tasquinha. Lugar do canto. Vou lá todas as quintas-feiras com a minha mulher. Há seis anos. Boa comida, preços decentes, e o senhor Manuel conhece-nos pelo nome.

O motociclista entrou por volta das 19h30. Sozinho. Homem grande, talvez com sessenta anos. Colete de cabedal com *patches*. Lenço na cabeça. Barba grisalha até ao peito. Poeira da estrada nas botas.

Sentou-se a uma mesa perto da janela. Pegou numa ementa. Não incomodou ninguém.

O senhor Manuel saiu da cozinha. Viu o motociclista. Parou de repente.

Aproximou-se da mesa. Não levou água. Não trouxe talheres.

“Temos um código de vestuário aqui”, disse o senhor Manuel. Alto o suficiente para todos ouvirem.

O motociclista olhou para cima. “Desculpe?”

“Código de vestuário. Sem cabedal. Sem equipamento de motociclista. Terá de se ir embora.”

Não há código de vestuário no A Tasquinha. Eu já lá comi em calções de ginástica. O senhor Manuel inventou na hora.

O motociclista estava calmo. “Só quero uma refeição, homem. Andei na estrada o dia todo.”

“Então pode comer no terraço.”

“Estão cinco graus lá fora.”

“Então tente noutro sítio.”

O restaurante ficou em silêncio. Todos os garfos pararam. Vinte e três pessoas a assistir a isto.

O motociclista olhou à volta da sala. Fez contacto visual comigo. Eu baixei os olhos para o meu prato.

Ele percorreu cada mesa. Cada pessoa ou baixou o olhar ou virou a cara.

Ninguém se pronunciou.

O motociclista acenou lentamente com a cabeça. Como se estivesse habituado.

Levantou-se. Empurrou a cadeira. Saiu para a rua.

E sentou-se à mesa do terraço. Sozinho. No frio. Porque o senhor Manuel decidiu que ele não merecia comer connosco.

A minha mulher agarrou-me o braço. “Isso não é certo”, sussurrou ela.

“Eu sei”, disse eu.

Mas não me levantei. Fiquei sentado a comer o meu frango com queijo enquanto um homem ficou sentado lá fora, com cinco graus, por causa daquilo que vestia.

A empregada levou-lhe a comida pela porta do terraço. Ele comeu sozinho, o hálito a fazer fumacinha no ar noturno, enquanto o resto de nós fingia que ele não existia.

Pensei naquele momento todos os dias desde então. Na forma como ele me olhou. Na forma como eu desviei o olhar.

Porque três dias depois, fiquei a saber quem era aquele motociclista.

E o que descobri revoltou-me.

O nome dele era Domingos Matias.

O meu vizinho Henrique contou-me no domingo de manhã. Estávamos nas nossas entradas de garagem, a fazer a conversa de circunstância do fim-de-semana. Eu mencionei o que tinha acontecido no A Tasquinha. Disse que me andava a incomodar.

A expressão do Henrique mudou.

“Homem grande? Barba grisalha? *Patches* no colete?”

“Sim. Conhece-o?”

“Esse é o Domingos Matias. Ele faz parte dos Guardiões da Estrada.”

O nome não me dizia nada. O Henrique percebeu.

“São um grupo de motociclistas voluntários”, disse o Henrique. “Acompanham crianças maltratadas a tribunal. Sentam-se com elas durante o testemunho. Ficam à porta da sala para as crianças se sentirem seguras. Andam nisto há anos.”

O meu café de repente não sabia a nada.

“Ele estava na cidade por causa do caso dos Rodrigues”, continuou o Henrique. “Já ouviste falar? A menina de sete anos cujo padrasto foi acusado de abuso? O Domingos foi designado para ela há três meses. Faz cento e cinquenta quilómetros cada vez para estar lá quando ela precisa dele.”

Eu tinha ouvido falar do caso dos Rodrigues. A cidade toda tinha ouvido. Uma menina chamada Leonor que tinha passado um inferno. A data do tribunal dela era a sexta-feira depois de eu ver o Domingos a comer no frio.

“Ele veio de mota na quinta-feira à noite”, disse o Henrique. “Para cá estar na sexta-feira de manhã para a Leonor. Provavelmente só queria jantar antes de arranjar um sítio para dormir.”

Pousei o meu café no capô da minha carrinha.

“Estás bem?”, perguntou o Henrique.

“Não. Nem por isso.”

Entrei em casa e sentei-me à mesa da cozinha durante muito tempo.

Depois abri o meu portátil e pesquisei por Domingos Matias.

O que encontrei piorou tudo.

Domingos Matias tinha 62 anos. Veterano dos Fuzileiros. Duas comissões no Afeganistão. Condecorado com a Medalha de Serviços Distintos. Reformou-se após vinte anos de serviço.

Depois das Forças Armadas, tornou-se motorista de pesados. Fez isso durante uma década. Depois a mulher adoeceu. Cancro. Ele deixou de conduzir camiões para cuidar dela. Ela faleceu catorze meses depois.

Isso foi há quatro anos.

Depois de ela morrer, o Domingos não sabia o que fazer consigo mesmo. Estava sozinho. Os dois filhos tinham ido viver para outra cidade. Tinha uma casa, uma motocicleta, e mais nada.

Depois encontrou os Guardiões da Estrada.

Um amigo falou-lhe do grupo. Motociclistas voluntários que dão apoio a crianças negligenciadas e maltratadas. Aparecem nas audiências do tribunal. Fazem guarda fora das casas das crianças quando o agressor é libertado sob fiança. Fazem as crianças saberem que alguém grande e forte está do lado delas.

O Domingos começou a ser voluntário. Depois começou a organizar. Em dois anos, estava a dirigir toda a secção distrital.

A página dele no Facebook era maioritariamente privada, mas a página dos Guardiões da Estrada era pública. Havia fotografias. O Domingos em tribunais. O Domingos em eventos de angariação de fundos. O Domingos rodeado de crianças que sorriam porque, pela primeira vez na vida, se sentiam seguras.

Uma foto fez-me parar a frio.

O Domingos sentado na sua mota com uma menina pequena no colo. Ela vestia um pequeno colete de cabedal que o grupo lhe tinha feito. Estava a sorrir. Estava com os dentes da frente a nascer.

A legenda dizia: “O primeiro sorriso da Leonor em meses. É por isto que andamos de mota.”

Era a mesma Leonor. O caso dos Rodrigues. A menina por quem ele tinha vindo de mota para a proteger.

E a noite antes de ter de estar ao lado dela no tribunal, ele tinha entrado no A Tasquinha para uma refeição quente. E nós tínhamos-no feito comer no frio como se fosse menos que humano.

Fechei o portátil. Fui à casa de banho. Lavei a cara com água.

O homem no espelho parecia um cobarde. Porque era um.

Não consegui deixar passar. Quanto mais descobria, pior me sentia.

Encontrei um artigo num jornal regional de há dois anos. O título era “Grupo de Motociclistas Locais Fornece Escudo a Crianças Vulneráveis”.

O Domingos era citado. “Estas crianças foram magoadas por adultos em quem confiaram. Têm medo de tudo. Nós aparecemos para elas saberem que nem toda a pessoa grande lhes vai fazer mal. Somos a sua muralha.”

A sua muralha. Ele usou essa palavra. Muralha.

E nós fizemo-lo sentar lá fora.

Encontrei outro artigo. A mãe de uma criança maltratadaEscreveu uma carta ao editor sobre o Domingos especificamente.

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