O Filho Rico Era ‘Cego’ e Indiferente, Até Passar Uma Semana Na Minha Cabana – Um Ano Depois, O Luxo Voltou à Estrada de Terra5 min de lectura

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O ar de outubro na Serra da Estrela tem um jeito de entrar nos ossos.

Não é só o frio — é a humidade que trespassa, carregando o cheiro a pinheiro, a folhas molhadas e à neve que está para chegar. Isso foi a primeira coisa que me lembro daquela terça-feira. A segunda foi o silêncio.

Chamo-me Mariana Costa. Vivo com a minha avó, Beatriz Costa, numa casinha que é da família desde os tempos dos pastores, lá para os anos 1920. Tão longe da civilização que o telemóvel deixa de pegar quilómetros antes de chegar aqui.

Vivemos quase como antigamente — plantamos a nossa comida, cortamos a nossa lenha, tratamos dos nossos males. A Avó Beatriz é ervanária, daquelas que as pessoas procuram quando os hospitais parecem demasiado frios e apressados.

Naquele dia, não esperava visita. Estava a ver as armadilhas que pusera junto ao ribeiro.

A mata estava estranhamente calada. Não era paz — era vigilância. Até os pássaros tinham desaparecido. Tirei a faca da bainha, todos os sentidos em alerta.

Cheirei a água antes de a ver. E foi então que o vi.

Um miúdo estava em cima das pedras escorregadias à beira do rio, não devia ter mais de dez anos, completamente fora de lugar. Vestia um casaco de marca preto que valia mais do que o nosso carro, e sapatos de cabedal arruinados pela lama. A pele era pálida, o cabelo colado à testa de suor frio.

Mas eram os olhos.

Estavam bem abertos, fixos nas árvores, vazios. Como se a luz por trás deles tivesse sido cortada.

“Olá”, chamei. “Miúdo, estás a ouvir-me?”

Nada.

Aproximei-me, acenei à frente do rosto dele. Nem pestanejar. O corpo tremia incontrolavelmente, os lábios azuis de frio.

“Estás gelado”, murmurei.

Quando lhe toquei na mão, estava gelada como o gelo. Olhei em volta — nem pais, nem caminhantes, nem carros. Só a serra.

“Vamos para casa”, disse. “Chamo-me Mariana. Vou ajudar-te.”

Ele estremeceu, mas não resistiu. Tive de guiá-lo como se fosse uma máquina, quase a carregá-lo nos últimos metros até à casa.

Quando entrei a correr na cozinha, a Avó Beatriz levantou-se do fogão.

“Mariana — quem é esse?”

“Encontrei-o no ribeiro. Está hipotérmico. E Avó… acho que não está a ver.”

Ela não fez perguntas. “Tira-lhe a roupa molhada. Eu vou buscar os tisanos.”

Tirámos-lhe a roupa encharcada, ridiculamente cara. Por baixo, era só uma criança magrinha, a tremer. Enrolámo-lo em mantas de lã e pusemo-lo ao pé da lareira.

A Avó examinou-lhe os olhos à luz do candeeiro. “Os olhos funcionam”, disse baixinho. “A mente dele desligou-os. Cegueira por trauma.”

O arrepio que senti não tinha nada a ver com o frio.

Durante dias, ele não falou. Só comia se lhe desse caldo. Só dormia se eu ficasse por perto, a cantar cantigas antigas.

Encontrámos um nome cosido no casaco: Rodrigo.

Na quarta noite, uma tempestade veio com força. O vento uivava em volta da casa.

Foi então que Rodrigo gritou.

“NÃO! NÃO OLHES! MÃE, NÃO OLHES!”

Agarrei-o antes que se magoasse. A Avó passou-lhe óleos calmantes debaixo do nariz.

Ele desmoronou-se contra mim, aos soluços. E depois — focou.

“O carro”, sussurrou. “Saiu da estrada. A mãe parou de gritar.”

Ele não tinha ficado cego. Tinha visto demasiado.

No sexto dia, já comia cozido, ajudava a empilhar lenha, tocava em tudo como se fosse novo. Riu-se uma vez quando o gato perseguiu uma traça.

Sabíamos que tínhamos de chamar as autoridades, mas a tempestade tinha cortado o telefone de satélite e as estradas.

Foi então que apareceram os helicópteros.

Carros pretos invadiram o terreiro. Homens de fato saíram de lá. Seguranças privados.

A Avó Beatriz ficou na varanda com a espingarda. “Propriedade privada!”

Um homem alto aproximou-se — António Mendes. O mesmo cabelo escuro que o Rodrigo. O mesmo queixo duro. Os olhos eram frios.

“Rodrigo”, ordenou.

Rodrigo ficou paralisado. A luz desapareceu de novo.

“É o pai dele”, disse um dos seguranças.

“Ele estava a congelar”, gritei. “Está traumatizado.”

“Ele precisa de profissionais”, António respondeu, seco.

“Ele precisa de amor”, gritou a Avó. “Ele viu a mãe morrer!”

Por um momento, António vacilou. Depois, a muralha voltou.

“Levem-no.”

Os seguranças puxaram Rodrigo. Ele ficou mole. A cegueira voltou num instante.

“Você vai perdê-lo!”, gritei. “Os hospitais vão destruí-lo!”

António fez uma pausa. “O meu filho não se vai lembrar de vocês.”

E foram-se.

Passou um ano. As estações mudaram. Pensei no Rodrigo todos os dias.

Até que uma tarde, um carro preto subiu o caminho.

António saiu, mais magro, mais velho.

“Ele não recuperou”, disse. “Os médicos desistiram.”

O peito apertou-me.

“Há três dias”, continuou, a voz a quebrar, “ele disse uma palavra. ‘Pinheiro.’ E depois o teu nome.”

Ajoelhou-se. “Eu estava errado.”

A porta do carro abriu-se.

Rodrigo saiu — mais alto, frágil, a ouvir o vento.

“Rodrigo?”, murmurei.

Ele virou-se diretamente para mim e sorriu.

“Cheira a chuva”, disse.

Corri para ele. Ele abraçou-me com força.

“Estou a ver”, sussurrou. “As árvores.”

Naquela noite, António viu o filho rir ao pé da lareira.

“Quero ficar”, disse baixinho. “Vou demitir-me. Quero aprender a viver.”

A Avó bufou. “Tens mãos macias.”

“Tenho tempo”, ele respondeu.

O milagre não foram as ervas ou as montanhas. Foi o silêncio. A segurança. Alguém que ficou.

Eles ficaram.

E cada vez que vejo o Rodrigo a correr entre as árvores, lembro-me: às vezes, a cura é simplesmente sermos vistos.

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