O vento daquela tarde de domingo não era um vento normal; tinha o fio gélido da nostalgia, daquelas brisas que parecem sussurrar nomes esquecidos ao ouvido. Para António, o cemitério não era um lugar de descanso, mas a sua única residência emocional desde há exatamente trezentos e sessenta e cinco dias. Os seus passos, pesados e arrastados, esmagavam as folhas secas do caminho de gravilha enquanto se dirigia para a lápide de mármore cinzenta onde o nome “Miguel” brilhava com uma crueldade silenciosa.
Um ano. Passara um ano inteiro desde que um condutor cobarde lhe arrebatara o filho e se esfumara no nevoeiro, deixando para trás um corpinho pequeno e um pai desfeito. António colocou as flores azuis —as preferidas do Miguel— com a delicadeza de quem toca numa ferida aberta. Ajoelhou-se, sentindo a humidade da terra trespassar as suas calças, e fechou os olhos. Na sua mente, a imagem do Miguel a rir à porta da escola repetia-se em loop, um filme doloroso que não conseguia parar de ver. “Perdoa-me, filho”, sussurrou com a voz quebrada por um choro que já não tinha lágrimas. “Devia ter chegado mais cedo. Devia ter-te protegido”.
O silêncio do cemitério só era interrompido pelo gemido distante do vento entre os ciprestes. António acariciou a fotografia embutida na pedra: o Miguel a sorrir, com o seu cabelo despenteado e aquela camisola de riscas vermelhas, azuis e amarelas que tanto adorava. Aquele pequeno pedaço de cerâmica era tudo o que lhe restava. Ou, pelo menos, era o que ele julgava.
Um estalido de ramos atrás de si fê-lo virar a cabeça, à espera de ver o velho caseiro. Mas não era ele. A uns metros de distância, um miúdo observava-o. Era magro, de pele morena curtida pelo sol e vestia roupas que lhe ficavam grandes. Os seus olhos, grandes e escuros, tinham aquela mistura de timidez e sabedoria prematura que só têm os miúdos que cresceram demasiado depressa na rua.
— Olá, senhor — disse o miúdo, com uma voz mal audível.
António secou apressadamente os olhos, incomodado com a intrusão. — Olá. Estás perdido, miúdo? Estás à procura dos teus pais?
O miúdo abanou a cabeça lentamente, sem desviar o olhar da campa e depois para António. Deu um passo em frente, hesitante, como quem caminha sobre gelo fino. — Não, senhor. Venho ver os meus pais, estão enterrados ali atrás… Mas passei por aqui e vi o senhor.
António anuiu, tentando ser simpático apesar da sua dor. — É bom que os venhas visitar. Eu venho visitar o meu filho.
— Eu sei — interrompeu o miúdo com uma calma desconcertante —. Só queria dizer-lhe uma coisa… O seu filho deu-me esta camisola ontem.
O tempo parou. O coração de António deixou de bater por um segundo e depois arrancou com uma força brutal, batendo contra as suas costelas. Pôs-se de pé cambaleando, com os olhos desorbitados. — O que é que disseste? — perguntou, com um tom que oscilava entre a fúria e a incredulidade —. O meu filho morreu há um ano. Acha que tem graça brincar com isto? Vai-te embora daqui!
O miúdo recuou assustado, mas não fugiu. Levou as mãos ao peito, agarrando o tecido da sua própria roupa. — Não é uma brincadeira, senhor. Juro. Ontem estávamos a jogar à bola perto das linhas do comboio. Ele deu-ma. Disse que me traria sorte porque eu tinha frio. Olhe…
O miúdo apontou para o seu ombro. António focou a visão, lutando contra a tontura. A camisola era de riscas vermelhas, azuis e amarelas. Mas o que lhe gelou o sangue não foram as cores, mas o rasgão na costura do ombro esquerdo. O mesmo rasgão que o Miguel fizera a trepar a uma árvore dois dias antes do acidente. O mesmo rasgão que aparecia na foto da lápide.
António caiu de joelhos novamente, mas desta vez não foi de dor, mas pelo peso de uma impossibilidade que se abatia sobre ele. — Não pode ser… — balbuciou, tocando no tecido da camisola do miúdo. Era real. Cheirava a pó e a rua, mas era a camisola do seu filho. — Onde? Onde é que o viste?
— Numa casa amarela — respondeu o miúdo, cujo nome era Tiago —. Perto das linhas antigas. Ele vive ali. Vi-o na janela.
A mente de António era um turbilhão. A lógica gritava-lhe que era impossível, que ele enterrara o seu filho, que chorara sobre um caixão fechado porque o acidente fora… “demasiado traumático para o ver”, segundo os médicos. Mas o instinto, aquele fogo visceral que só um pai conhece, acendeu-se com uma violência aterradora.
— Leva-me — ordenou António, pondo-se de pé com uma energia que não sentia há doze meses —. Leva-me a essa casa agora mesmo.
Tiago anuiu, assustado mas firme. António olhou pela última vez para a campa fria e silenciosa, e depois olhou para o horizonte onde o sol começava a cair, tingindo o céu de um vermelho sangue. Algo no seu interior lhe dizia que aquela noite não terminaria em choro, mas em verdade. Não sabia o que encontraria naquela casa amarela, mas sentia nos ossos que estava prestes a destapar um inferno para recuperar o seu céu.
O percurso para os arredores da cidade foi uma viagem através da ansiedade pura. António seguiu Tiago por becos estreitos e bairros esquecidos, onde as fachadas das casas descascavam e a iluminação pública piscava como olhos cansados. Cada passo aumentava a taquicardia de António. E se o miúdo estava a mentir? E se era uma confusão cruel? Mas a camisola… a camisola era a prova irrefutável que lhe queimava a retina.
— É ali — apontou Tiago, parando subitamente atrás de um contentor de lixo.
À frente deles, isolada do resto das construções por um terreno baldio, erguia-se uma casa de um amarelo desbotado. As janelas tinham grades de ferro forjado e as cortinas estavam puxadas, dando-lhe um aspeto de fortaleza impenetrável. O vento movia um baloiço enferrujado na varanda, produzindo um rangido metálico que eriçava a pele.
— Eu vi-o naquela janela da direita — sussurrou Tiago.
António não esperou. Atravessou a rua com passadas largas, ignorando o senso comum. Chegou à cancela enferrujada e espreitou para o interior. O jardim estava abandonado, mas havia brinquedos espalhados. Um camião de plástico, uma bola vazia… e um carrinho vermelho. António sentiu que o ar lhe fugia dos pulmões. A esse carrinho vermelho faltava uma roda traseira; ele próprio o comprara ao Miguel.
Colou-se às grades, com as mãos trémulas. — Miguel! — gritou, a sua voz quebrando o silêncio da tarde.
Ninguém respondeu. — Miguel, sou o pai!
De repente, a cortina da janela apontada por Tiago moveu-se ligeiramente. Uma carinha pequena, pálida e com o cabelo despenteado, espreitou por uma fração de segundo. Os olhos de António encontraram-se com os doOs olhos do miúdo encontraram os seus por apenas um instante, um clarão de reconhecimento puro e aterrorizado, antes de ser puxado para trás, para as sombras da casa, pela mesma figura severa que agora surgia na porta, brandindo não uma espingarda, mas uma pesada chave inglesa, o seu grito rasgando o ar tranquilo da tarde como uma faca.





