O Destino de uma Enfermeira e a Criança que Ela AdotouQuinze anos depois, ao reconhecer a criança por uma rara marca de nascença, o CEO revela-se o pai biológico do menino.7 min de lectura

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Oi, querida. A água pingava do teto rachado do quartinho, caindo em cima do colchão gasto onde o Bruno, com apenas 8 anos, tremia de febre.

A Patrícia apertou os punhos enquanto via o filho mais velho lutar contra a doença, sabendo que não tinha dinheiro para levá-lo ao médico. Ao lado dela, a Leonor, uma menina que tinha acabado de completar 5 anos, brincava distraidamente com uma boneca sem cabeça, alheia ao desespero que consumia a mãe. O frigorífico estava vazio havia três dias. A Patrícia tinha vendido tudo o que tinha de valor: os seus únicos brincos dourados, o relógio que foi da sua avó, até os sapatos bons que guardava para ocasiões especiais.

Tudo tinha desaparecido na confusão de contas médicas, renda atrasada e a necessidade básica de alimentar os seus pequenos. Naquela manhã, enquanto caminhava pelas ruas à procura de qualquer trabalho que pudesse conseguir sem experiência nem referências, a Patrícia parou em frente a um café elegante no centro da cidade. Através do vidro, observou pessoas bem-vestidas a desfrutar de pequenos-almoços que custavam mais do que ela ganhava numa semana. A raiva e a impotência misturavam-se no seu peito quando ouviu uma conversa na mesa perto da janela.

“Preciso de encontrar alguém urgentemente”, dizia uma senhora mais velha, de cabelo grisalho perfeitamente apanhado. “O senhor Ventura está desesperado. Despediu três cuidadoras no último mês. Diz que nenhuma percebe o que ele precisa.” “E o que precisa ele, exactamente?”, perguntou a sua acompanhante, uma mulher mais nova que tomava notas numa agenda de couro. “Paciência. Acima de tudo. O acidente deixou-o completamente paralisado do pescoço para baixo. É um homem novo, com apenas 40 anos, mas o seu carácter tornou-se difícil, muito difícil.”

“Paga bem, isso sim, muito bem, mas ninguém aguenta mais do que umas semanas.” A Patrícia sentiu o coração a acelerar. Sem pensar duas vezes, empurrou a porta do café e aproximou-se timidamente da mesa. “Desculpe”, murmurou, com a voz trémula de nervosismo. “Não pude evitar ouvir a vossa conversa. Precisam de uma cuidadora?” A senhora mais velha examinou-a de alto a baixo, reparando na sua roupa desgastada e nos sapatos velhos. A sua expressão mostrava cepticismo. “Minha querida, este não é um trabalho qualquer.”

“Requer experiência profissional, referências impecáveis…” “Tenho filhos para alimentar”, interrompeu a Patrícia com uma firmeza que a surpreendeu a si própria. “Farei o que for preciso, o que for.” A senhora, que se apresentou como Esperança, suspirou profundamente. Havia algo na determinação daquela jovem mãe que a comoveu. “O senhor Ventura vive nos arredores da cidade, numa mansão isolada. Precisa de cuidados 24 horas por dia. O salário é suficiente para, bem, para mudar uma vida por completo, mas ele tem um temperamento explosivo e despede pessoas por qualquer coisa.”

“Quando posso começar?”, perguntou a Patrícia, sem hesitar. A Esperança trocou um olhar com a sua acompanhante. “Amanhã de manhã. Mas aviso-te, muitas chegaram com a mesma determinação que tu e nenhuma durou.” Naquela noite, a Patrícia abraçou os filhos enquanto lhes explicava que a mãe ia ter um trabalho novo, que ia viver numa casa grande a cuidar de um senhor doente, mas que os visitaria todos os dias. O Bruno, apesar da febre, agarrou-se a ela. “E se não voltares?”, perguntou com a voz rouca.

“Eu volto sempre”, prometeu a Patrícia, beijando a sua testa ardente. “Tudo o que faço é por vocês.” No dia seguinte, um carro preto veio buscá-la. Durante a viagem para os arredores, a Patrícia viu a cidade a desaparecer e a dar lugar a colinas verdes e mansões imponentes. A propriedade do Ventura era diferente de tudo o que ela já tinha visto: uma construção moderna de vidro e aço que se erguia como uma fortaleza entre jardins perfeitamente cuidados. A Esperança recebeu-a na entrada principal e guiou-a por corredores decorados com obras de arte que a Patrícia nem conseguia imaginar o valor.

“Um último aviso”, disse a Esperança antes de bater à porta do quarto principal. “O Ventura era um homem muito activo antes do acidente. Liderava um império empresarial, viajava pelo mundo, praticava desportos radicais. A imobilidade tornou-o amargo. Não leve as palavras dele para o lado pessoal.” A porta abriu-se, revelando um quarto enorme dominado por uma cama médica no centro. Junto à janela, com vista para os jardins, um homem de cabelo escuro e traços marcados estava imóvel, ligado a vários equipamentos médicos.

Os seus olhos, de um azul intenso, cravaram-se na Patrícia com uma mistura de desinteresse e irritação. “Mais uma”, murmurou o Ventura com voz rouca. “Esta, quanto tempo achas que vai durar, Esperança?” “Uma semana.” “Dois dias”, disse o senhor Ventura. “Apresento-lhe a Patrícia. Ela vem com excelentes referências.” “Todas vêm com excelentes referências”, interrompeu ele, sem tirar os olhos da Patrícia. “E tu, o que tens de especial? Também vais tratar-me como se eu fosse uma criança ou como se fosse um objecto partido que precisa de ser consertado?”

A Patrícia sentiu a hostilidade nas suas palavras, mas também percebeu mais alguma coisa: uma dor profunda escondida por detrás da rudeza. Aproximou-se lentamente da cama. “Não sei se tenho algo de especial”, respondeu com honestidade, “Mas tenho filhos que dependem de mim, por isso vou fazer o meu melhor para cuidar bem de si.” O Ventura estudou-a durante um momento que pareceu eterno. Os seus olhos estreitaram-se, como se estivesse a avaliar se ela seria mais uma desilusão. “Está bem”, disse finalmente, “mas quando não aguentares mais e decidires ir-te embora, não venhas com desculpas dramáticas, simplesmente vai.”

A Esperança mostrou à Patrícia as instalações: o ginásio médico onde o Ventura fazia fisioterapia, a cozinha especialmente equipada para preparar a sua dieta rigorosa e o seu próprio quarto na ala este da casa. A rotina diária incluía ajudá-lo com exercícios de mobilidade, administrar-lhe medicamentos, preparar refeições específicas e, principalmente, assegurar o seu conforto a todo o momento. Os primeiros dias foram exaustivos. O Ventura submetia-a a testes constantes. Pedia-lhe para reorganizar a sua almofada a cada poucos minutos, criticava cada refeição que ela preparava e queixava-se de tudo com uma negatividade que parecia não ter fim.

A Patrícia mordia a língua e cumpria cada pedido, lembrando-se das caras do Bruno e da Leonor sempre que sentia vontade de desistir. “Porque é que não me gritas?”, perguntou ele uma tarde, depois de ter sido particularmente difícil. “Todas as outras acabavam por me gritar.” “Porque gritar não vai melhorar a sua situação”, respondeu a Patrícia enquanto ajustava a sua posição na cama. “E gritar não vai ajudar os meus filhos.” Pela primeira vez, o Ventura ficou em silêncio. Algo na sinceridade da Patrícia lhe tinha tocado uma fibra que ele pensava estar completamente morta.

Uma semana depois, durante a rotina matinal, a Patrícia reparou em algo estranho. Enquanto ajudava o Ventura com os exercícios de alongamento, observou uma pequena contracção involuntária no seu pé esquerdo. Era subtil, quase imperceptível, mas estava lá. “Sentiu isso?”, perguntou ela, contendo a emoção. “Sentir o quê?”, respEle respondeu, num tom irónico, “Não sinto nada há meses; os médicos foram muito claros: lesão completa da medula espinhal.”

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