O filho do milionário cuspiu em todas as amas. Em todas. Mas quando Bruna Silva, vestindo o seu uniforme de limpeza, subiu as escadas, ele estendeu os braços, beijou-lhe a face e adormeceu como se tivesse encontrado, pela primeira vez, um verdadeiro colo. Ela só queria dinheiro para comprar os remédios da mãe, mas naquele instante, sem dar por isso, entrou num universo onde a ternura era escândalo e onde amar um bebé podia custar-lhe a dignidade.
Os nossos relatos chegaram longe. De onde nos está a assistir hoje? Partilhe a sua opinião nos comentários. Não, não, não. O choro agudo do Tomás cortou o ar do luxuoso apartamento na Avenida da Liberdade. O menino de apenas um ano e meio estava vermelho de tanto gritar, as suas pequenas mãos fechadas agitavam-se no ar como se combatesse o mundo inteiro.
Vasco Mendes estava parado com o fato de cinquenta mil euros, completamente manchado de papa de maçã que o filho tinha cuspido. O milionário mais temido de Lisboa parecia um homem vencido. As suas mãos tremiam ligeiramente enquanto observava o herdeiro que rejeitava tudo e todos. “Senhor Mendes, não aguento mais”, gritou Carolina, a ama contratada havia apenas uma semana.
Era a oitava em dois meses. Este menino não é normal. Morde, arranha, cospe em mim. Despeço-me. A mulher de quarenta anos, com licenciatura em educação infantil e quinze anos de experiência, atirou o avental ao chão e saiu batendo a porta. O som dos seus saltos altos ecoou pelo corredor até sumir no elevador.
Vasco olhou para o filho, que continuava a chorar desesperado no berço importado de Itália. O apartamento de quinhentos metros nunca parecera tão vazio e frio. “Tomás, por favor, o pai está aqui.” Vasco murmurou, estendendo as mãos para levantar o menino. Mas Tomás recuou, atirando o corpo para trás e aumentando ainda mais o volume do pranto. Era sempre assim.
Desde que Leonor morrera, há um ano, o menino não aceitava ninguém, nem o pai, nem as amas qualificadas, nem as enfermeiras particulares. Vasco sentou-se na poltrona de pele junto ao berço e passou as mãos pelo cabelo grisalho. Tinha cinquenta e dois anos e comandava um império financeiro que movia milhões. Podia comprar empresas inteiras com um telefonema, mas não conseguia acalmar o próprio filho.
“Meu Deus, Leonor, que hei de fazer?”, sussurrou, olhando para o retrato da esposa na mesinha de cabeceira. Ele não me aceita. Não aceita ninguém. Está a tornar-se uma criança rebelde e não sei como ajudar. O choro do Tomás diminuiu um pouco, como se tivesse ouvido o desespero na voz do pai. Vasco aproveitou para se aproximar novamente.
Tens saudades da mamã, não é, meu filho? Vasco tocou delicadamente a mãozinha do bebé. Eu também tenho. Todos os santos dias tenho saudades dela. O Tomás olhou para o pai com os olhinhos verdes cheios de lágrimas. Por um momento, Vasco pensou que finalmente conseguira uma ligação, mas então o menino começou a chorar de novo, mais alto que antes.
Senhor Mendes, a voz da governanta, a Dona Amélia veio da porta. Desculpe incomodar, mas a empresa de limpeza ligou. Houve um problema com a empregada do turno da manhã. Ela não pode vir hoje. Vasco suspirou. E agora? A casa está uma desordem por causa do problema com a ama. Vão mandar alguém do turno da noite para substituir, uma rapariga chamada Bruna.
Ela já trabalha aqui há alguns meses, mas sempre de madrugada, por isso o senhor nunca a viu. Tanto faz. Vasco respondeu exausto. Apenas peça-lhe que não faça barulho. Se por milagre o Tomás conseguir dormir, não quero que nada o acorde. A Dona Amélia saiu e Vasco voltou a sua atenção para o filho. O menino estava a ficar rouco de tanto chorar, mas não parava.
Era como se toda a dor que sentia por ter perdido a mãe saísse em forma de grito. O pai não sabe o que fazer, Tomás. Vasco admitiu, sentindo os próprios olhos humedecerem. Tentei de tudo. As melhores amas, os melhores médicos, os melhores brinquedos, mas nada resulta. Não queres nada do que eu ofereço. Vasco pegou no telemóvel e marcou o número da sua assistente.
Sandra, preciso que cancele todas as reuniões da próxima semana. Vou ficar em casa até resolver esta situação com o meu filho. Mas, senhor, tem reunião com os investidores alemães. Cancela tudo, gritou Vasco, perdendo a paciência. O meu filho é mais importante que qualquer negócio. Ele desligou o telefone e voltou para perto do berço.
Tomás estava a começar a cansar-se, mas ainda choramingava baixinho. Vasco tentou mais uma vez pegar no menino ao colo, mas o Tomás encolheu-se e começou a chorar de novo. Está bem, meu filho. O pai vai ficar aqui ao teu lado até te acalmares. Vasco disse, sentando-se no chão junto ao berço, não vou sair daqui, prometo e ali ficou o homem mais poderoso de Lisboa, sentado no chão de mármore do apartamento, a ouvir o choro inconsolável do filho e sentindo-se o pai mais falhado do mundo.
Bruna Silva estava no elevador de serviço, a subir para a última morada do edifício mais luxuoso da Avenida da Liberdade. Segurava firmemente o carrinho de limpeza e tentava não pensar em quão cansada estava. Dormira apenas três horas depois de passar a noite no hospital com a mãe. Dalva, minha filha, precisa de descansar um pouco”, dissera a enfermeira mais cedo. “A sua mãe está estável.
Vá para casa”. Mas Bruna não tinha casa para onde ir. Tinha trabalho para fazer. Sempre tinha trabalho para fazer. Era assim desde que descobriram a doença rara da mãe há seis meses. Cada cêntimo extra que conseguia ia para os medicamentos experimentais que o seguro de saúde não cobria. O elevador parou no décimo segundo andar e Bruna saiu com o seu carrinho.
Conhecia bem aquele corredor de serviço. Trabalhava ali há quatro meses, sempre de madrugada, quando os moradores dormiam. Era um emprego silencioso e solitário, exatamente como ela gostava. Mas hoje algo estava diferente. Havia muito barulho vindo do apartamento do Senhor Mendes, gritos de criança e vozes adultas alteradas.
A Bruna guardava os produtos de limpeza no armário quando ouviu passos apressados pelo corredor principal. Uma mulher bem vestida de saltos altos passou a correr em direção ao elevador social. Eu avisei que não ia resultar. A mulher falava ao telefone claramente irritada. Aquela criança é impossível. Nenhuma ama consegue aguentar.
O menino é um caso perdido. A mulher entrou no elevador e desapareceu. A Bruna ficou ali parada a pensar no que ouvira. Sabia que o Sr. Mendes era viúvo e tinha um filho pequeno. A Dona Amélia, a governanta, já comentara as dificuldades que enfrentava para cuidar da criança sozinho. O choro do bebé continuava a vir do apartamento.
Era um som que partia o coração, desesperado e inconsolável. Bruna conhecia bem este tipo de choro. Era o som que ela própria fazia em criança, depois que o pai foi embora e a deixou a ela e à mãe sozinhas no mundo. “Este menino está a sofrer”, murmurou ela para si mesma, organizando os panos de limpeza. Bruna cresceu na Amadora, numa casaMas assim que os seus dedos tocaram a maçaneta, uma presença silenciosa fez-se sentir atrás dela, e um par de olhos verdes, agora secos, fitou-a com uma intensidade que transcendia os seus poucos anos de vida.





