O Bebê Faminto e a Faxineira que Mudou Tudo6 min de lectura

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O tique-taque do relógio era o único som que ousava respirar naquela casa. Tic, tac, tic, tac. Cada segundo soava como uma punhalada. O mármore gelado refletia a luz esmaecida do amanhecer, e o ar, impregnado pelo cheiro de remédios caros e flores murchas, carregava o peso de algo que se extinguia lentamente.

Miguel, um bebê de 1 ano e 7 meses, permanecia imóvel no berço de carvalho, os olhos abertos, fixos no teto branco. Não chorava, não protestava, apenas observava, como se tivesse renunciado à vida. Heitor Antunes estava ajoelhado diante do berço, o corpo curvado pelo cansaço e pela culpa. Vestia a mesma camisa há três dias. A barba crescia desalinhada. Ao seu redor, o quarto parecia uma enfermaria luxuosa—potes de papinha orgânica, seringas com vitaminas importadas, mamadeiras de preço exorbitante, tudo intacto.

O pai ergueu a seringa e sussurrou, a voz embargada. *”Miguel, por favor, filho, só um pouco.”* Nada. A luz do abajur tremeluzia, refletida nos frascos de vidro que cercavam o berço.

A enfermeira Nara observava em silêncio, o rosto cansado. *”Doutor Heitor,”* murmurou, hesitante. *”São quatro da manhã. O senhor precisa descansar.”* Heitor virou o rosto devagar, os olhos vermelhos e fundos. *”Descansar.”* A palavra escapou como um riso amargo. *”Como se descansa vendo o próprio filho definhar?”* Nara baixou o olhar. Já havia testemunhado dor em muitas mansões, mas nada igual. Ali, o dinheiro se transformava em desespero.

Heitor voltou a atenção para o bebê. A respiração era superficial, quase imperceptível. *”Os médicos disseram que é emocional, não é?”* perguntou, sem desviar o olhar. *”Sim, senhor. O corpo está são. Mas parece que ele… desistiu,”* respondeu Nara, baixinho. As palavras pairaram no ar pesado antes de se dissolverem no zumbido do humidificador.

Heitor apoiou as mãos no chão e permaneceu imóvel até as lágrimas caírem em silêncio, como se já não tivesse força nem para chorar. Na cômoda, uma moldura empoeirada os observava—Luísa sorrindo, Miguel com seis meses no colo, e ele, o homem que acreditava ter controle sobre tudo.

*”Foi minha culpa,”* sussurrou, alcançando o retrato. *”Eu insisti que ela fosse àquela obra. Devia ter visto o perigo.”* O quarto cheirava a solidão e remorso.

Horas depois, com o dia já claro, Nara desceu as escadas em silêncio e chamou o médico. Quando o Dr. Avelar chegou, a casa ainda parecia um mausoléu. As janelas estavam abertas, mas o ar não circulava. Reuniram-se na biblioteca, entre livros alinhados e móveis que brilhavam demais.

*”Fale logo, doutor,”* disse Heitor, a voz rouca. O pediatra inspirou fundo. *”Seu filho não está doente no corpo, Heitor. Ele está desistindo.”*

*”Desistindo?”* repetiu Heitor, incrédulo. *”O senhor quer dizer que ele não quer mais… viver?”*

O silêncio caiu como um véu. *”Nenhum remédio o fará comer,”* continuou o médico. *”Ele precisa de uma razão para voltar. E essa razão precisa vir do senhor.”*

Heitor soltou um riso curto, amargo. *”De mim? Eu sou o motivo pelo qual ele está assim.”*

*”É o que o senhor acredita. Mas não é o que ele precisa.”*

Heitor não suportou o olhar do médico e levantou-se, aproximando-se da janela. Lá fora, o jardim estava coberto de folhas secas. A chuva da noite anterior ainda gotejava dos galhos. *”Se eu tivesse ouvido a Luísa naquele dia…”* sussurrou. *”Ela disse que tinha um pressentimento, mas eu insisti. Queria mostrar-lhe o projeto.”*

Fechou os olhos. A lembrança voltou nítida, cortante—o estalo metálico, o grito, o silêncio após a queda.

*”Heitor,”* o médico falou baixo. *”Acidentes acontecem.”*

*”Não quando a culpa é minha.”* O grito ecoou pelas paredes. Por um instante, o pai milionário parecia uma criança.

O Dr. Avelar ajustou os óculos. *”O senhor está preso na culpa. Enquanto não se perdoar, seu filho continuará a refletir isso. Crianças sentem o que sentimos. Se o senhor não consegue olhar para ele sem dor, ele acreditará que olhar para o senhor dói.”*

Heitor sentou-se devagar, o corpo sem força. *”E se eu não conseguir me perdoar?”*

*”Então perderá os dois. A esposa que já se foi… e o filho que ainda está aqui.”*

O tempo parou.

Quando o médico partiu, Heitor subiu ao quarto. O sol da tarde entrava tímido pelas cortinas, desenhando faixas douradas no assoalho. Miguel ainda estava deitado, os olhinhos fixos no teto. Heitor aproximou-se, arrastando os pés.

*”Filho…”* A voz saiu como um sopro. *”Eu estou aqui, tá? Não vou sair mais.”*

Sentou-se no chão ao lado do berço e ficou em silêncio, observando cada respiração frágil. Estendeu a mão entre as grades, tocando levemente o cobertor.

*”O papai está aqui.”*

Os olhos de Miguel moveram-se, lentos, quase imperceptíveis, na direção da voz. O coração de Heitor falhou uma batida—mas logo o menino voltou a olhar para o vazio.

Heitor encostou a cabeça no berço e ficou assim, imóvel. Lá fora, a chuva recomeçou, fina e constante, como se o céu também não soubesse parar de chorar.

*”Fique perto, mesmo assim,”* ecoava a voz do médico.

Ele fechou os olhos, sentindo o frio do chão penetrar-lhe o corpo. E, pela primeira vez desde o acidente, não tentou controlar nada. Apenas ficou ali.

A seringa vazia rolou até parar junto ao pé da cama. O relógio continuou marcando o tempo.

Tic. Tac. Tic. Tac.

Lá fora, um fio de luz atravessou a fresta da cortina e iluminou um guardanapo esquecido no chão, manchado de azeite e uma lágrima seca.

Heitor olhou para aquele pedaço de pano e sentiu um calafrio.

Ainda não sabia, mas aquele traço de luz, aquele vestígio humano, seria o primeiro sinal de que o milagre já estava a caminho.

O ônibus sacolejava pela Avenida da Liberdade quando Rosa apertou a sacola de plástico contra o peito. Dentro, os documentos, o lanche embrulhado em papel e o dinheiro exato para a passagem.

Era quinta-feira, seis da manhã. O vidro embaçado deixava entrever apenas vultos—prédios altos, letreiros acesos, guarda-chuvas apressados.

*”Próxima paragem, Avenida!”* anunciou o motorista.

Rosa respirou fundo. Aquele nome sempre lhe soara como outro mundo—um lugar de ruas largas, carros importados e portões dourados. Muito diferente do bairro onde vivia com os irmãos mais novos, entre vielE no meio daquele silêncio que antes sufocava a casa, Miguel sorriu pela primeira vez em meses, estendendo os bracinhos para o pai, como se dissesse que, afinal, valia a pena voltar a viver.

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