O Advogado a Abandonou, Mas o Zelador Disse: ‘Eu a Defendo’. Todos Riam… Até Descobrirem o Segredo.6 min de lectura

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Eduardo Vaz ficou imóvel no centro do tribunal, com o cheiro do pano de limpeza ainda húmido na sua mão e o aroma químico dos produtos agarrado ao seu uniforme azul-marinho. O silêncio na sala era tão denso que quase se podia tocar. Todos os olhares —desde os jornalistas famintos por escândalos até ao juiz impaciente— estavam fixos nele. Os seus dedos, calejados por quinze anos a esfregar os chãos de mármore que outros pisavam com sapatos de mil euros, apertaram-se com força em torno do cabo da esfregona. Era a única coisa que o mantinha de pé perante o abismo.

Na mesa da defesa, Leonor Valente, a multimilionária da tecnologia cuja fortuna superava os catorze mil milhões de euros, ergueu a cabeça. Os seus olhos azuis, habitualmente afiados e desafiadores, estavam agora nublados pelo terror e pela incredulidade. Estava sozinha. Completamente sozinha. A equipa legal de Costa, Silva & Associados, esses tubarões que cobravam seis mil euros à hora, simplesmente não tinha aparecido. Tinham-na abandonado à sua sorte perante uma ação judicial que ameaçava destruir a sua vida e o seu legado.

—Senhora Valente —disse a juíza Fonseca momentos antes, com uma frieza que gelava o sangue—, se não tem representação legal, verei-me obrigada a ditar uma sentença por incumprimento.

Foi então que o tempo pareceu parar. Eduardo, o homem invisível, a “mobília” que esvaziava os papeleiros e apagava os rastos dos poderosos, deu um passo em frente. A sua voz, grave e trémula por uma mistura de medo e uma determinação que julgava morta há muito tempo, quebrou o silêncio como um trovão.

—Eu vou defendê-la.

Uma risada nervosa e trocista percorreu a sala. A procuradora Catarina Moura, com o seu fato impecável e um sorriso de suficiência, soltou uma gargalhada incrédula. Mas Eduardo não recuou. Apoiou a esfregona no banco, alisou o uniforme amarrotado e caminhou pelo corredor central. Não caminhava como um porteiro; caminhava com a postura de alguém que, noutra vida, tinha dominado aquele mesmo palco.

Leonor olhou para ele, procurando um sinal de loucura, mas encontrou apenas uma dignidade tranquila e uns olhos castanhos profundos que escondiam uma história de dor e sobrevivência. Ninguém naquela sala, nem a arrogante procuradora, nem a desesperada acusada, nem sequer o próprio Eduardo, sabia que aquele simples ato de coragem estava prestes a desvendar uma das conspirações corporativas mais sombrias e perigosas da história moderna. O que parecia um simples processo por roubo de propriedade intelectual era, na realidade, a ponta do icebergue de uma máquina disposta a matar para proteger os seus interesses.

Eduardo sentia o peso dos olhares na sua nuca. Sabia que ao cruzar aquela balaustrada não estava apenas a desafiar o tribunal, mas a colocar um alvo nas suas costas e nas da sua filha. Mas ao olhar para Leonor, viu o mesmo medo que ele tinha sentido quinze anos atrás, quando o sistema o mastigou e cuspiu. E soube que não podia ficar calado.

No entanto, enquanto o juiz examinava com ceticismo a sua antiga cédula de advogado, tirada de uma carteira gasta, Eduardo sentiu um arrepio. Não eram apenas nervos. Era um pressentimento. Algo na ausência dos advogados de Leonor, algo na presunção de vitória do Ministério Público, cheirava a podridão. Estava prestes a entrar na boca do lobo, e o lobo já tinha mostrado os dentes.

—Senhor Vaz —disse a juíza Fonseca, olhando para o cartão desbotado que atestava que Eduardo tinha sido membro da Ordem dos Advogados de Lisboa durante dezoito anos—. Há quinze anos que não exerce. Acredita verdadeiramente que está competente para este caso?

—Meritíssima —respondeu Eduardo com voz firme—, conheço a lei. Conheço o processo. E, sobretudo, sei o que é a justiça. Esta mulher merece uma defesa, e se os seus advogados “de classe mundial” não têm a decência de aparecer, então o porteiro fá-lo-á.

Leonor pôs-se de pé. Naquele instante, a diferença de classes, os milhares de milhões de euros e o estatuto social desvaneceram-se. Restavam apenas dois seres humanos encurralados. —Aceito, Meritíssima —disse ela, com a voz quebrada mas decidida—. Aceito o senhor Vaz como meu advogado.

A juíza concedeu um intervalo de quinze minutos. Quinze minutos para preparar a defesa do caso tecnológico mais complexo da década.

Quando se sentaram na mesa da defesa, separados do resto por uma barreira invisível de murmúrios e julgamentos, Eduardo foi direto ao assunto. —Não temos tempo para formalidades, menina Valente. Os seus advogados não simplesmente “não vieram”. Isto está orquestrado. Alguém lhes pagou para perderem, ou para não aparecerem. Preciso da verdade. Não a versão da imprensa, não a versão para os acionistas. A verdade.

Leonor, que tinha passado os últimos três meses rodeada de assessores que só lhe diziam o que ela queria ouvir, sentiu-se desarmada pela honestidade brutal daquele homem. Contou-lhe sobre a sua tecnologia: um processador quântico que funcionava à temperatura ambiente. Não era apenas um avanço informático; era uma revolução energética capaz de mudar o mundo. E contou-lhe sobre a Nexus Inovações, a empresa fantasma que a acusava de roubo.

O julgamento recomeçou. A procuradora Moura passeava pela sala como se já fosse a dona do veredicto, apresentando a sua testemunha-estrela, o Dr. Leandro Brás, um académico que jurava ter escrito o código original que Leonor supostamente tinha roubado.

Eduardo levantou-se para o contra-interrogatório. Não levava um fato de marca, mas o seu uniforme de trabalho. Não tinha uma equipa de assistentes a passar-lhe notas. Tinha apenas o seu instinto, afiado por anos de observação silenciosa a partir das sombras. —Dr. Brás —começou Eduardo suavemente—, afirma que desenvolveu os algoritmos centrais entre janeiro e março de 2021, está correto? —Está correto —respondeu a testemunha com arrogância. Eduardo tirou um papel amarrotado da pilha de documentos que Leonor lhe tinha entregado. —Curioso. Porque aqui tenho o seu registo de contrato com a Nexus. Indica que a sua data de admissão foi a 21 de abril de 2021. Um murmúrio percorreu a sala. O Dr. Brás empalideceu. —E aqui —continuou Eduardo, erguendo outro documento—, estão os registos do servidor que mostram que o código foi finalizado a 15 de março. Poderia explicar ao júri como é que escreveu um código para uma empresa onde ainda não trabalhava?

A procuradora Moura saltou do seu lugar a gritar “Protesto!”, mas o estrago estava feito. Eduardo não parou aí. Com a precisão de um cirurgião, desmantelou o testemunho, revelando uma transferência suspeita de trezentos mil euros para a conta de Brás dias antes do julgamento. Naquela noite, o “advogado-porteiro” era a notícia principal em todo o país. Mas a verdadeira batalha travava-se longe das câmaras.

Eduardo, ainda com a adrenalina do julgamento, reuniu-se com Leonor e a sua filha Matilde num pequeno café em Algés. Matilde, uma jovem brilhante de vinte anos perita em marketing digital, tinha estado a investigar por conta própria. —Pai, Leonor… isto é muito maior do que uma patente —disse Matilde,— Isto vai direto ao topo da cadeia: a dona da Nexus é a Energia Atlântico, a mesma que te destruiu, pai.

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